Análise Arkade: Life is Strange 2 Ep. 3 – Wastelands: O ponto de ruptura da narrativa

17 de maio de 2019

O terceiro episódio de Life is Strange 2 já chegou e deu seguimento na história de fuga dos irmãos Diaz, dessa vez levando os irmãos a um local totalmente novo, com novos personagens e histórias. O primeiro episódio do game começou de forma acelerada, o segundo não foi uma boa continuação. E agora é hora de sabermos como o terceiro episódio dá seguimento na narrativa.

Como estamos fazendo uma análise de um game episódico, não mais abordaremos temas como gráficos, trilha sonora e gameplay, mas poderão surgir menções desses quesitos em certos trechos da análise. O foco será na história que o game entrega, obviamente sem spoilers (ou ao menos tentando evitá-los ao máximo). Dito isso, é hora de saber como o terceiro episódio, Wastelands, se saiu!

Novos personagens, novos cenários, novas polêmicas

Wastelands se passa alguns meses após o final do segundo episódio, não mostrando o que os irmãos fizeram entre o fim do episódio passado e o começo deste novo. Somos informados que os irmãos conheceram novas pessoas pelo caminho e se uniram a eles para conseguir se assentar brevemente e conseguir um dinheiro para continuar sua fuga.

Desde o primeiro episódio, o game é mais a aberto sobre o uso de drogas, e nesse novo episódio os produtores da série quiseram ir até o limite, com o episódio inteiro ambientado em uma plantação de maconha escondida no meio da floresta. E é aqui em que Sean Daniel estiveram pelos últimos meses, trabalhando na plantação na esperança de conseguir dinheiro suficiente para a viagem ao México.

Se o primeiro episódio foi focado somente na fuga dos irmãos e o segundo focado um pouquinho mais nos poderes de Daniel, o terceiro episódio é focado no relacionamento de ambos com si mesmos e com o mundo. Nesse episódio os irmãos estão juntos de um grupo de viajantes de diversos lugares, que se uniram ali naquela fazenda para sobreviver, até chegar a hora de cada um continuar seu rumo na estrada.

Dois personagens brevemente apresentados no episódio 2 retornam aqui: Cassidy Finn, dois “rebeldes” que estão viajando pelo país sem rumo, apenas curtindo a vida. Esses dois personagens são uma ótima adição à narrativa, pois adicionam mais complexidade e relações interessantes, algo que já era muito necessário para o game, que até então não apresentou muito desenvolvimento de personagens.

A narrativa agora é centrada na educação de Daniel, agora completamente ciente de seus poderes e vivendo em um ambiente completamente nocivo para uma criança. O objetivo primordial de Life is Strange 2 é moldar a personalidade de Daniel de acordo com as situações e escolhas vividas. Porém o episódio parece não manter um ritmo nesse quesito.

Ótimo desenvolvimento narrativo, mas ainda pecando

Em minha análise do segundo episódioRules, comentei sobre uma específica cena que me desagradou muito, por ser algo muito gratuito, que vai contra a ideia de escolhas que afetam a narrativa. Apesar de não tão forte como a cena do último episódio, momentos assim se repetem aos montes em Wastelands, dando a impressão de inconsistência no sistema de escolhas.

Fazendo um paralelo muito direto, o game atingiu um ponto em que a relação dos dois irmãos lembra muito a reação entre Obi-Wan Kenobi Anakin Skywalker, e se você já assistiu aos filmes de Star Wars já sabe em que ponto quero chegar. A grande característica desse ponto da narrativa é que Daniel agora está desenvolvendo muito seus poderes, sentindo-se assim melhor que todos e querendo usar seus poderes. E Sean está no papel de tutor, que deve guiar o menino em uma direção: Abraçar seus poderes, mesmo que irresponsavelmente, ou escondê-los a todo custo e obedecer o irmão mais velho sem questionar?

Isso é sem dúvida um dilema muito interessante de acompanhar, que pavimenta o caminho para um final que já dá indícios de que será muito sombrio e cruel. Mas a balança de escolhas do jogador contra cenas scriptadas não parece igualada. O jogador nesse episódio pode tentar se aproximar mais de Daniel, ou negligenciá-lo por completo. São várias as oportunidades de diálogo e interação entre os dois, mas o que acontece fora desses momentos não encaixa direito.

Por exemplo, em alguns momentos você pode conversar com Daniel sendo o mais compreensível, calmo e próximo possível, tentando fortalecer a frágil relação entre os dois. Em outras palavras, a relação dos irmãos já se inicia fraca, você pode tentar melhorá-las ou jogar tudo no ventilador. Mas independente de suas escolhas, em cenas scriptadas Sean Daniel não se darão bem, o que eventualmente levará aos acontecimentos que encerram o episódio.

É praticamente impossível imaginar um game baseado 100% em escolhas, eventos scriptados precisam acontecer para dar rumo à narrativa, mas quando são eventos diretamente relacionados aos protagonistas, ou mais especificamente a Sean, que é o personagem que controlamos, o resultado das escolhas e cenas não parece muito autêntico, pois você pode tentar evitar certas ações que uma custcene as farão acontecer independentemente.

O “point of no return”

O terceiro episódio do game atinge um ponto que definirá tudo o que acontecerá nos dois últimos episódios, ainda a serem lançados. Iniciando como uma jornada de fuga para uma de aprendizado sobre os poderes de Daniel, a narrativa agora atingiu seu momento crítico, o que virá daqui pra frente, pelo o que o game já indica, serão as consequências do fim do episódio 3.

A relação dos irmãos terá ainda mais importância daqui pra frente, certamente com muitas situações extremas permeando ambos. Infelizmente o game não tem conseguido conciliar muito bem a relação dos irmãos com o mundo a seu redor. Na verdade, o game faz isso bem, na medida do tempo disponível em cada episódio (que infelizmente é curto), mas ainda assim, ainda não explorou essa relação em todo o seu potencial.

O game apresentou uma boa evolução desde seu início. E apesar de ser um Life is Strange, se distancia por completo do primeiro game da série, apesar dos poderes de Daniel não serem o foco narrativo, ou aquilo que representa a palavra “estranho” do título. Essa é uma história baseada em trauma e dor, que caminha cada vez mais perto de uma rota escura. Ainda não sei como será o final do game, mas já me preparo para algo pesado.

Conclusão

Life is Strange 2 tem tido um desenvolvimento narrativo um tanto inconstante. E apesar de alguns problemas, enfim colocou a história num caminho definido. Melhorando muito a relação e interação entre os personagens e a forma como a história é contata, em especial a dos irmãos Sean Daniel, apesar de ainda necessitar um melhor desenvolvimento (ou pelo menos mais tempo).

Resta saber agora como serão os dois episódios finais dessa aventura. O game já demonstrou uma constante e intensa evolução. Diferente do primeiro game, que tinha uma história mais leve, Life is Strange 2 segue por um caminho cada vez mais intenso. Apesar de sequências, são quase como dois games diferentes, abrindo muitas possibilidades inclusive para um terceiro e quarto game.

O terceiro episódio: Wastelands já está disponível para PC, Playstation 4 XBox One. O episódio 4 chegará no dia 22 de agosto, e o episódio final chega no dia 3 de dezembro.

Renan do Prado

Amante de Metal Gear, platinador de Soulsborne e exímio jogador online (quando o lag não atrapalha).

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