Power Windows, o meu disco favorito do Rush, completou 40 anos de história!

16 de maio de 2025

Power Windows é um álbum curioso e interessante na história do Rush, por muitos motivos. Lançado em 29 de outubro de 1985, o álbum mantinha a essência do power trio, mas com influências de sua época: a estética dos anos 80 estava mais viva do que nunca nas músicas da banda, regada por sintetizadores que compartilhavam espaço com as lendárias guitarra, bateria e baixo da banda canadense.

O décimo primeiro disco do Rush trouxe o lendário power trio com novas músicas. Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart, desta vez, abraçaram um pouco o mundo pop, com músicas “de rádio”, ao contrário do seu passado de músicas longas.

Mas nem por isso, deixaram de lado a sofisticação de suas letras e melodias, garantindo um projeto com a mesma excelência de sempre, no que diz respeito aquela que foi considerada por Gene Simmons, do Kiss, com os Led Zeppelin canadenses.

Construindo as janelas poderosas

Desde o primeiro disco, o Rush já chamava atenção pela sua qualidade musical, que foi crescendo em interesse, discos vendidos e shows lotados, ano após ano. Naqueles dias, a banda vivia os sucessos de Signals, de 1982 e Grace Under Pressure, de 1984, sem se esquecer do icônico Moving Pictures, que nos trouxe Tom Sawyer, famosa entre nós brasileiros por causa do MacGyver.

E, imersos nos anos 80, e tudo o que isso significa quando falamos de música, Power Windows simbolizou uma grande imersão da banda no experimental, especialmente com sintetizadores. Assim, Geddy Lee se transformou em uma “orquestra de um homem só”, assumindo não só a voz e o baixo da banda, como também os teclados.

Neil Peart, como sempre, estava afiado em suas letras, em um disco que, desta vez, falava de poder, em suas várias esferas. Músicas sobre dinheiro, guerra, nacionalismo e até a perseverança de uma maratona, fazem parte de um disco temático, com temas bem diferentes entre si, mas que sabiamente fazem parte de um mesmo contexto central.

E não podemos nos esquecer de Alex Lifeson, que notoriamente estava muito a vontade neste álbum. A impressão que temos, ao ouvir as guitarras deste álbum, é a de que o guitarrista estava pintando quadros, em solos maravilhosos e que sempre deixavam o que já era grandioso ainda mais imponente.

A banda conseguia, mesmo “oitentizando” o seu repertório, manter a sua alta qualidade e sofisticação, rendendo verdadeiras jóias musicais que, juntas, continuam sendo, para mim, o melhor disco que o Rush fez, em toda a sua história.

E olha que esta “escolha” é difícil, se estamos falando de uma banda que rendeu, em 20 álbuns de estúdio, verdadeiras obras primas. Power Windows renovou o som do Rush, em um som mais claro e dinâmico, mas o baixo poderoso de Lee, a bateria única de Peart e as guitarras afiadas de Lifeson continuavam lá.

Um disco sobre poder

O álbum contém oito faixas, que como já foi dito, contam com temas diferentes entre si, mas que acabam unidos pela sonoridade e pelo tema central da obra, o poder. Estas são as músicas do Power Windows:

  1. The Big Money: A música de abertura já começa com a potência sonora que o disco propõe. A letra, que fala sobre o poder do dinheiro e capitalismo, aborda o tema com Lifeson já começando a pintar seus quadros com um riff marcante, os sintetizadores que já ditavam o caminho do álbum e a voz de Lee que também já mostrava o vigor enérgico do cantor. Acabava, também, sendo uma boa explicação do que era os anos 80, e a busca pelo “grande dinheiro”.
  2. Grand Designs: A canção fala sobre a busca das pessoas por significado em um mundo que valoriza, por muitas vezes, o superficial e a “vida em massa”. A letra, que denuncia a falta de substância por trás do estilo, também uma questão bem discutida nos anos 80, reforça que a autenticidade continua importante. Embora não seja o foco, isso diz muito sobre o próprio Rush, que construiu sua história sem se importar com tendências e “música feita em massa”.
  3. Manhattan Project: Anos antes do Sabaton cantar músicas sobre guerras e suas histórias, o Rush já refletia, com a qualidade de letras e músicas da banda, sobre a bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki, na Segunda Guerra Mundial. O tom reflexivo da letra faz nós nos colocarmos no contexto da época, dos políticos, cientistas, local de testes e até dos pilotos que soltaram as bombas em solo japonês. Uma canção poderosa e que pode, facilmente, estar nas listas das melhores do Rush em todos os tempos.
  4. Marathon: Uma música pop, que tocou muito nos rádios da época, e que era presença garantida nos shows do Rush. A música celebra a resiliência usando a maratona de metáfora, lembrando que “do primeiro ao último, alguma coisa sempre mantém a luz nos olhos acesas”. Gosto muito da linha de baixo desta música, mas o seu final nos shows, quase uma experiência espiritual com a forma grandiosa com que ela termina, ainda é a melhor parte da canção, que manteve lembranças no coração dos fãs até hoje.
  5. Territories: Com letras que criticam o nacionalismo e a divisão geopolítica, a faixa usa sintetizadores para criar uma atmosfera quase futurista, enquanto a linha de baixo de Lee dá peso à composição.
  6. Middletown Dreams: Uma ode aos sonhadores de cidades pequenas, esta música equilibra melancolia e esperança, com um refrão memorável e camadas de teclados que adicionam profundidade.
  7. Emotion Detector: Mostrar os sentimentos também é uma forma de poder, e o Rush aborda este tema em uma música que fala da busca por atenção, a satisfação falsa da superficialidade e convida o ouvinte a se abrir completamente, mesmo que isso seja um problema em um mundo como o nosso. A canção é coroada por um dos melhores solos que Lifeson já gravou na vida, literalmente uma construção de arte, nota por nota.
  8. Mystic Rhythms: a musica, que termina o álbum, explora a ideia de ritmos que capturam a mente e a transportam para um estado de mistério e contemplação, evocando a magia da natureza e da noite. A música fala sobre como esses ritmos, seja da luz do norte, do sol africano ou da natureza em geral, tem o poder de nos fazer refletir sobre o desconhecido e o extraordinário. 

Recepção e legado

Power Windows, mesmo sendo tema de discussão pelos seus sintetizadores hoje, foi bem recebido na época, tanto pela crítica quanto pelos fãs, mesmo que os fãs mais puristas do som da banda tenham reclamado do excesso de sintetizadores, o que, obviamente, trazia uma sonoridade diferente dos tempos de 2112.

Comercialmente, a banda foi bem com o disco, com o 10º lugar na Billboard 200 e recebendo o disco de platina nos EUA. A turnê do disco trazia, com os recursos da época, performances e elementos visuais de primeira qualidade, mantendo, mesmo com tecnologia e recursos visuais, a competência que garantiu ao Rush o título de uma das melhores bandas ao vivo de todos os tempos.

O disco marcou não só por sua qualidade, como também por ser o representante máximo do que é chamado de “fase synth” ro Rush, que renderia ainda mais um álbum, o Hold Your Fire, de 1987. A banda retornaria a um som mais “raiz” depois, com Presto e Roll the Bones (embora este disco, de 1991, também continham “noventices”, como pedaços de rap em algumas canções).

Mas o legado desta era, com o excelente Power Windows, rendeu com que as músicas deste álbum continuassem presentes em show posteriores, até 2015, quando a banda encerrou suas atividades.

O meu melhor disco do Rush, e talvez da vida

O “poder” de Power Windows me cativa até hoje. Além de trazer temas vinculados aos anos 80, tema que sempre me interessei, também tem uma capacidade sonora incrível, digna de um trabalho com o selo Rush de qualidade.

Suas músicas, que falam sobre consumismo, superficialidade, tecnologia, grana e tensões de guerra, continuam relevantes, mesmo hoje, com estes mesmos assuntos discutidos, reinventados e reimaginamos.

As melodias, com os sintetizadores, hoje trazem também nostalgia, mas mantém a qualidade da banda. O baixo de Lee está lá, provando que ele é um dos maiores músicos da história do rock, em shows que mostravam o cantor-baixo-teclado da banda quase que com a sua orquestra particular, fazendo música com a potência que só ele sabe fazer.

Isso sem esquecer a qualidade de Peart, tanto nas letras quanto na bateria, que nos mantém a saudade de alguém que fazia coisas incríveis em seu instrumento, como se estivesse assinando papelada no escritório. E, como já disse, as artes pintadas por Lifeson e sua guitarra, fazem do álbum um daqueles que dá prazer de ouvir e curtir do começo ao fim, apreciando as letras, a construção das melodias, a música em si e tudo o que é oferecido por um trio, que sempre colocou a qualidade em primeiro lugar.

Power Windows é “oitentista”, mas atemporal ao mesmo tempo. Mostra tanto a capacidade do Rush em produzir música cada vez melhor, sem medo de experimentar, ao mesmo tempo que não abre mão de seus valores. Traz uma música mais pop, que entravam muito bem nas ondas do rádio, mas mantendo a qualidade esperada pelo power trio.

Traz uma experiência rica em letra, sonoridade e reflexões, fazendo deste, um disco que, mesmo com 40 anos de vida, segue sendo uma das minhas indicações preferidas, para quem gosta de ouvir música da mais alta qualidade.

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Junior Candido

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