Por que jogos antigos ainda conquistam muita gente: a Ciência da Nostalgia e o sucesso dos remakes

18 de março de 2026

Em 2026, remakes de jogos clássicos continuam a registrar volumes de venda e engajamento superiores a muitos títulos inéditos. Dados de mercado mostram que esses relançamentos atraem milhões de jogadores e geram receita expressiva, enquanto novos lançamentos precisam suar mais para cativar os jogadores.

O motivo vai além de gráficos atualizados: envolve processos psicológicos ligados à memória emocional, que explicam a preferência duradoura por experiências antigas.

Uma análise da Ampere Analysis, que acompanhou 42 títulos entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, registrou 72,4 milhões de jogadores e mais de US$ 1,4 bilhão em vendas e microtransações em plataformas como PlayStation, Xbox e Steam.

Segundo esta análise, os remakes rendem, em média, 2,2 vezes mais que os jogos originais. Exemplos recentes incluem o Final Fantasy VII Rebirth (baseado no clássico de PS1), que subiu para o top 10 de vendas nos Estados Unidos em janeiro de 2026 após ports para novas plataformas. Essa tendência se repete com outros games que reviveram recentemente, como Resident Evil 4, Metal Gear Solid 3 e Silent Hill 2.

Até Resident Evil Requeim, uma aventura inédita na franquia, apostou na nostalgia em vários elementos de seu enredo e gameplay. E assim trouxe de volta vários jogadores que haviam torcido o nariz para os jogos inéditos mais recentes da série.

Como a memória emocional explica essa preferência

O apego ao passado surge de dois mecanismos combinados. O primeiro é o efeito de mera exposição, conceito estabelecido pelo psicólogo Robert Zajonc em 1968: quanto mais repetidas as interações com um estímulo durante a infância ou adolescência, maior a afinidade por ele, mesmo sem lembrar conscientemente o motivo. No caso de jogos, horas passadas explorando mundos de jogos dos anos 80, 90 ou 2000 criam familiaridade automática.

E também explica o motivo de seriados como Chaves, Todo Mundo Odeia o Chris ou Um Maluco no Pedaço serem sempre tão queridos e assistidos.

O segundo envolve picos de dopamina na infância. Nessa fase, o sistema de recompensa cerebral é mais sensível. Jogos da época exigiam esforço persistente, como memorizar padrões, resolver puzzles ou completar fases na raça ou usando apenas revistas como guias, gerando satisfação duradoura.

Isso sem falar da nossa realidade brasileira, tendo de se virar com games em inglês, e alguns até em japonês em dias de pirataria predominante e zero localização nos games.

Especialistas como a conselheira Veronica Lichtenstein destacam que essa “recompensa ganha” contrasta com as liberações rápidas e passageiras de muitos títulos atuais, que priorizam estímulos constantes. O resultado é uma conexão emocional mais profunda com os jogos antigos, que resgatam não só diversão, mas também senso de conquista real.

O que os estudos confirmam sobre bem-estar e intenção de compra

Pesquisas acadêmicas reforçam esses pontos. Um levantamento com 417 jogadores adultos, publicado em 2025, mostrou que a nostalgia positiva influencia diretamente a intenção de compra (com coeficientes entre 0,441 e 0,635, relevantes para pesquisas desta natureza).

O efeito é mais intenso entre quem era adolescente na época do lançamento original, uma faixa etária em que a formação de memórias emocionais é mais forte (se você viveu os dias da MTV com seus 12, 13 ou 14 anos, você entende bem tudo isso).

Memórias de gameplay representam o gatilho principal (cerca de 41%), seguidas por aspectos visuais (41%) e auditivos (38%). Mesmo quem não viveu a era original pode sentir uma “nostalgia histórica”, o que ajuda remakes a alcançarem públicos mais jovens. É mais ou menos o efeito de um jovem que se torna fã de músicas flashbacks dos anos 80 e 90, mesmo tendo nascido em 2007.

Outro trabalho, de Wulf e alguns colaboradores (2020), publicado na Psychology of Popular Media Culture, analisou memórias de jogos antigos e encontrou aumentos curtos em sensações de conexão social (cerca de 10%), vitalidade e otimismo.

Jogadores relatam que revisitar esses títulos funciona como uma “máquina do tempo” digital, reforçando laços com família e amigos, algo comum em relatos de partidas de Mario Kart ou sessões coletivas em consoles antigos, como reuniões que contam com um PS2 ligado e Winning Eleven (ou Bomba Patch) como atração principal.

Revisão de 2023 de Bowman e Wulf na Current Opinions in Psychology confirma que a nostalgia gerada por videogames contribui para o bem-estar psicológico, ajudando a lidar com períodos de transição ou estresse.

Por que remakes de clássicos vendem mais que muitos jogos novos

Jogadores que hoje têm entre 25 e 45 anos cresceram na época de auge dos consoles 16 bits, viveram a ascensão das gerações 32 e 64 bits e ainda acompanharam a chegada da geração 128 bits, que corresponde a épocas entre 1993 e 2003.

Esses consoles marcaram a adolescência de grande parte do público adulto atual, gerando o pico de nostalgia documentado nos estudos.

Os remakes, embora tenham liberdade de fazer mudanças em seu gameplay, gráficos e até na história principal, mantém muito do game original, mantendo a autenticidade, mesmo se conta com um novo visual ou alguma nova abordagem em seu enredo.

Podemos citar como exemplos o remake 1:1 de Metal Gear Solid 3, que simplesmente transportou o game original para a Unreal Engine 5, mantendo tudo quase exatamente igual ao game original, ou Resident Evil 2, que manteve a essência do game de 1998, mas se permitiu a introduzir novas áreas, ampliar o enredo e se tornar uma versão definitiva da história.

Como identificar jogos que “merecem” remakes

Para entender esta dinâmica, observe características observadas pelas pesquisas, que fazem os remakes atuais fazerem sentido para muitos jogadores:

  • Memórias de gameplay fortes: jogos com puzzles, exploração ou progressão baseada em habilidade, em vez de contar apenas com referências visuais ou recompensas rápidas.
  • Elementos sociais: títulos que incentivavam jogos com amigos ou família, como modos cooperativos ou competitivos locais.
  • Lançamento na fase adolescente: mecânicas que se conectam à formação de identidade geram nostalgia mais intensa anos depois.
  • Sensoriais marcantes: trilhas sonoras memoráveis, visuais icônicos da época ou controles que criam sensação tátil única.
  • Satisfação duradoura: progressão que exige esforço e oferece fechamento claro, alinhada ao modelo de dopamina “ganha” descrito por especialistas.

Títulos que combinam esses traços – como clássicos de Final Fantasy, Resident Evil ou Grand Theft Auto da era 3D – tendem a resistir melhor ao tempo e justificar remakes ou novas versões lucrativas. Também é muito comum ouvir a comunidade clamando por remakes de jogos como Need for Speed Underground ou The Simpsons Hit and Run, que comprovam esta teoria.

A preferência por jogos antigos não é só uma moda passageira. Ela reflete estudos psicológicos que conectam memória, recompensa cerebral e bem-estar. Em 2026, os remakes continuam a demonstrar isso na prática, oferecendo aos jogadores uma forma tangível de revisitar experiências que ainda geram conexão real.

Se você nota que certos clássicos chamam mais atenção que novidades recentes, a ciência explica exatamente o porquê, e ainda ajuda a reconhecer quais títulos novos têm potencial para seguir o mesmo caminho. Qual seria o seu remake dos sonhos, baseado em tudo o que viu aqui?

Fontes consultadas:

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Junior Candido

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