1718 em Assassin’s Creed Black Flag: o que a história e a ficção podem nos ensinar sobre a queda da Nassau dos piratas

18 de agosto de 2026

Em Assassin’s Creed Black Flag Resynced, assim como no jogo original, o arco de 1718 marca o fim da República Pirata de Nassau. É o momento em que a fantasia de liberdade no Caribe começa a desmoronar de verdade — tanto no jogo quanto na história real. Edward Kenway ainda está atrás de ouro e do Observatório, mas o que ele testemunha em sua aventura em alto mar é a máquina britânica finalmente fechando o cerco sobre os homens que tentaram viver fora da lei.

Como Assassin’s Creed sempre misturou fatos reais com sua própria mitologia, o que aconteceu com os piratas em Nassau também fez parte da história de Edward, ao passo em que o galês também vivia sua jornada entre os Assassinos e a eterna luta contra os Templários.

O que acontece no jogo

Tudo começa com uma epidemia em Nassau. A cidade está doente, os estoques de remédio acabaram e Barba Negra (Edward Thatch) decide agir. Na Sequência 6, Edward e Thatch tentam de tudo: mergulham em naufrágios espanhóis, abordam um navio de guerra britânico e, por fim, bloqueiam Charles-Towne (Charleston) de uma forma bem brutal. O objetivo é simples e urgente: conseguir remédios. Depois de forçar a entrega, o lendário pirata anuncia que pretende se aposentar, para viver um pouco mais. Aquele momento já carrega um peso estranho, pois o homem que parecia indestrutível, e que se autodenominava o diabo na Terra, fala em “descansar”.

Pouco tempo depois chega Woodes Rogers, o escolhido pela Coroa Britânica para ser governador das Bahamas. Ele traz o perdão real (o Act of Grace) e uma frota. O jogo mostra em seguida a chegada de Rogers em julho de 1718. E com a proposta, vem a divisão, pois Benjamin Hornigold aceita o perdão, mas Charles Vane não. Com o sim de Hornigold, Vane se torna oficialmente alvo de caça britânica, então Edward ajuda seu companheiro pirata a escapar matando o comodoro Peter Chamberlaine (personagem fictício incluído para dar rumo para a narrativa do game) e usando um navio incendiário para abrir caminho no bloqueio. Mas Nassau cai e a República Pirata, que nunca foi oficial mas funcionava do seu próprio jeito, se desfaz.

O arco fecha o ciclo de forma brutal. Edward vai atrás de Thatch, que está “aposentado” em Ocracoke. O encontro termina com a morte de Barba Negra nas mãos das forças do tenente Robert Maynard. A frase final de Thatch, “Em um mundo sem ouro, poderíamos ter sido heróis”, resume o tema do jogo de forma direta.

Depois disso, o Resynced adiciona conteúdo novo: a side quest que começa quando Edward encontra um mapa escondido no chapéu do amigo. O “tesouro” acaba sendo ferramentas de jardinagem. Thatch queria plantar, construir alguma coisa estável, talvez para ter um pouco de paz após uma vida de guerra. A quest do Stede Bonnet também ganha um epílogo próprio, dando um fim para o que o original deixava mais aberto.

O que a história real registra

Os eventos de 1718, tirando Edward, os Assassinos e os Templários, estão bem documentados. Em maio, o Barba Negra realmente bloqueou Charleston por cerca de uma semana. Capturou navios, manteve reféns (incluindo o mercador Samuel Wragg) e exigiu um baú de remédios. Recebeu o que pediu e liberou os prisioneiros (depois de roubar eles). Fontes contemporâneas e o livro Uma História Geral dos Roubos e Crimes de Piratas Famosos (atribuído a Charles Johnson, 1724) confirmam o episódio. Historiadores modernos, como Colin Woodard em The Republic of Pirates, apontam que o remédio provavelmente era para tratar sífilis e outras doenças que circulavam entre as tripulações.

E, como uma “nação” composta por pessoas que se lançam ao mar com frequência, é natural que doenças como estas sejam comuns, e remédios sejam necessários. Como os piratas não produziam nada, e nem sabia como fazer os remédios, resolveram a situação do jeito do Barba Negra.

A motivação mais aceita pelos historiadores modernos (incluindo Colin Woodard em A República dos Piratas) e apoiada por achados arqueológicos da Queen Anne’s Revenge é o tratamento de sífilis e outras doenças venérea para tripulações doentes. Instrumentos médicos encontrados no naufrágio (incluindo seringa uretral com vestígios de mercúrio) confirmam o contexto. A General History of the Pyrates descrevem bem o episódio.

Em junho daquele ano, a Queen Anne’s Revenge (o navio de Barba Negra) encalhou em Topsail Inlet (perto de Beaufort, Carolina do Sul). Há algum debate se foi um acidente ou manobra deliberada de Barba Negra para se livrar de parte da frota e de Stede Bonnet, mas o que se sabe é que o pirata resolveu viver outros ares, um pouco distante do Caribe.

Wooded Rogers

Pouco depois, entre 24 e 26 de julho, Woodes Rogers chegou a Nassau com o perdão real e uma força naval, disposta a colocar a Coroa Britânica sob a região. Muitos piratas aceitaram, pelos mais variados motivos (entre um da vida mais calma e medo da forca) e Hornigold virou caçador de piratas, “triando o movimento”. Charles Vane, sabendo que seria um dos perseguidos, usou um navio-incendiário para escapar — exatamente como no jogo. Com a caçada concluída e a questão dos piratas sob controle, Rogers restabeleceu o controle britânico.

Nassau tinha grande importância para os britânicos. O local foi escolhido pelos piratas justamente pelos privilégios geográficos, o que permitia partidas mais rápidas para os saques. Para os britânicos, além de eliminar a ameaça pirata, o local também servia para controlar as rotas comerciais e ficar bem perto dos galeões espanhóis, para se estabelecer como o Império dominante na região.

Réplica do Adventure

A morte de Barba Negra aconteceu em 22 de novembro de 1718, em Ocracoke Inlet, uma ilha que serve como “porta de entrada” por água para onde hoje é a Carolina do Norte nos EUA. O tenente Robert Maynard, enviado pelo governador da Virgínia Alexander Spotswood, emboscou a Adventure (o navio que Barba Negra usou nos seus últimos anos de vida). Thatch lutou até o fim, com relatos da época (incluindo cartas de Maynard) dizem que ele recebeu cerca de 20 ferimentos de sabre e cinco tiros de pistola antes de cair.

Se os relatos foram mesmo reais ou possíveis exageros para “dar a narrativa de um grande vilão derrotado” não sabemos, mas o fato é que sua cabeça foi cortada e pendurada no gurupés do navio de Maynard como aviso. Stede Bonnet foi capturado pouco depois e enforcado em Charleston em dezembro de 1718.

Onde o jogo e a realidade se encontram — e onde se separam

Apesar da já conhecida ficção da série, o jogador testemunha fatos que realmente aconteceram. O bloqueio de Charleston, a chegada de Rogers, o perdão, a fuga de Vane com o navio em chamas, a morte de Barba Negra em Ocracoke e a atuação de Maynard estão todos lá. O Resynced mantém a estrutura original e ainda aprofunda o lado humano de Thatch e Bonnet.

As diferenças, obviamente, está em Edward Kenway, que vira uma espécie de testemunha ocular de todos os fatos, como um livro de história com lâmina embutida. Ele participa ativamente do bloqueio, da fuga de Nassau e da morte de Barba Negra. Na história, esses eventos aconteceram sem a presença de um personagem fictício, exceto o protagonista. A epidemia em Nassau que motiva a busca por remédios é uma dramatização; na realidade, o pedido de Barba Negra em Charleston parece ter sido mais ligado às necessidades da própria tripulação. Rogers, no jogo, é um Templário. Na vida real era um ex-corsário experiente, ambicioso e pragmático, que já havia rodado o globo em seu navio e resgatado Alexander Selkirk, o marinheiro que inspirou Robinson Crusoé.

A linha temporal também é comprimida. O jogo junta eventos de vários meses em sequências mais densas. E a morte de Barba Negra ganha um tom trágico e quase filosófico que os documentos da época não registram. Eles descrevem uma luta suja e violenta, sem grandes discursos e sem a dramaticidade que um enredo de um game pede.

Por que esse arco funciona tão bem

O que o Assassin’s Creed Black Flag Resynced faz com 1718 é mostrar o fim de um experimento. Nassau, apesar de ter sido um “país” livre e independente nunca foi uma utopia organizada. Era um porto improvisado de homens que não cabiam mais no sistema de corsários depois da Guerra da Sucessão Espanhola.

A guerra, que teve como grande interesse a ocupação do trono espanhol de forma a seguir os interesses de potências, envolveu Espanha e França, que juntas, lutaram contra uma coalizão liderada por Grã-Bretanha, Áustria, Portugal e outras potências, terminou em 1714, o que rendeu uma grande onda de demissões de marinheiros britânicos, com muitos indo direto para a pirataria.

O próprio Edward Kenway é um desses corsários desempregados, que se viu frustrado ao não conseguir nada na sua “busca por ouro” e viu na pirataria esta oportunidade de mudança de vida.

Quando a Coroa britânica decidiu recuperar o controle, o sonho acabou rápido. O jogo captura essa sensação de oportunidade que se fecha. Thatch, que no começo parece o maior de todos, termina querendo apenas um pedaço de terra para plantar. Essa virada é uma das adições mais interessantes do Resynced.

Quem joga o arco hoje vê mais do que uma sequência de missões. Vê o momento em que a Era de Ouro da Pirataria começa a virar história. E o jogo, ao misturar fatos documentados e históricos com a trajetória de Edward, entrega exatamente o tipo de tensão que torna a narrativa memorável: a liberdade que os piratas buscavam nunca foi sustentável no longo prazo. Em 1718, o Caribe mostrou isso para eles, com clareza e violência.

E você também pode conferir, ao curtir o game. Se quiser conhecer mais sobre Black Flag Resynced, o jogo, e o que esperar do remake, confira a nossa análise.

Fontes consultadas:

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Junior Candido

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