Análise Arkade: Blood of Mehran, um ambicioso (mas falho) hack ‘n slash “double A”

12 de outubro de 2025

Blood of Mehran é um jogo de ação/hack and slash “double A” ambientado no Oriente Médio que parecia muito promissor.

Falo no passado — “parecia” — porque, infelizmente, ele não é um jogo muito bom. É esforçado, sem dúvida, e consegue impressionar especialmente na construção de cenários… mas, falando mecanicamente, como jogo, mesmo, deixa a desejar. Saiba mais em nossa análise completa.

Vingança Mesopotâmica

Blood of Mehran conta uma história de vingança que já foi contada um milhão de vezes: o clichê do guerreiro aposentado que, após uma tragédia pessoal, precisa voltar à ativa para se vingar de seus algozes.

Resumidamente, Mehran viu sua fazenda ser invadida por homens do rei e foi forçado a assistir sua filha e sua esposa serem assassinadas. Obviamente, ele não vai deixar isso barato, e parte em uma vendetta banhada a sangue que vai passar por desertos, palácios e ruínas.

Ainda que previsível, a história ganha pontos pela ambientação: Blood of Mehran é livremente inspirado em lendas das Mil e Uma Noites, e a rica ambientação da Mesopotâmia é um dos destaques do jogo. Se os modelos de personagens deixam a desejar, os cenários são belíssimos, e um trabalho de iluminação caprichado dá um ar cinematográfico ao jogo.

Hack ‘n slash honesto, mas capenga

A jogabilidade de Blood of Mehran mistura combate hack ‘n slash com momentos de furtividade e exploração. O jogo não é um Souls-like, mas por alguma razão mapeia seus principais botões de ataque no L1 e L2 — saudades de quando quadrado e triângulo eram a regra, não a exceção.

No papel, o combate de Blood of Mehran tem bastante coisa interessante. Existem trocas de armas que influenciam a abordagem contra diferentes inimigos — escudos para neutralizar arqueiros, arco para combates à distância, com uma árvore de habilidades que vai liberando novos combos e golpes especiais. Também existe uma mecânica de parry que, quando funciona, é boa.

O problema principal aqui é a falta de feedback. Falta peso nos golpes, falta impacto, falta aquela “potência” que fez o God of War clássico (a fase grega) ser tão gostoso de jogar. Ainda que haja plasticidade nos golpes e algumas finalizações brutais, tudo carecia de mais impacto — inclusive sonoro e visual. A gente só se dá conta da efetividade dos golpes vendo a barra de vida dos inimigos diminuir; não “sente” a fisicalidade dos combates.

Stealth e infiltração

O stealth e infiltração aparecem em trechos pontuais, mas que servem para dar um respiro e trazer um pouco de variedade à campanha. Numa vibe bem primórdios da série Assassin’s Creed, a ideia é ser sorrateiro para eliminações rápidas e silenciosas, distraindo inimigos com ruídos ou atraindo-os com assobios.

Algumas sequências de furtividade criam bons momentos de tensão, mas sofrem com imprecisão no controle ou atraso no prompt de ação. A inteligência artificial também é inconstante: às vezes, o inimigo detecta você com facilidade; em outras, não vê Mehran passar agachado do lado dele.

Por conta destes probleminhas, é comum um momento stealth virar um combate “normal” depois que somos avistados e todos os guerreiros remanescentes partem para a briga. Por um lado, é bom que falhar no stealth não signifique falha e tela de Game Over, mas é fato que estes momentos deveriam ser melhor calibrados.

O jogo também conta com breves momentos de exploração à cavalo, mas é basicamente um “vá do ponto A ao ponto B”, sem mundo aberto, nem nada do gênero. Blood of Mehran é um jogo linear, com uma campanha contínua e cenários que escondem um segredinho aqui, outro ali, mas sem grande liberdade de exploração — e não falo isso como um demérito, aprecio muito experiências guiadas e focadas.

Audiovisual

Aqui temos uma via de mão dupla: há beleza potencial e fragilidade técnica caminhando juntas. Como já adiantei, Blood of Mehran impressiona com palácios luxuosos, desertos intermináveis e luzes dramáticas entrando por frestas e janelas. A ambientação do jogo é cheia de lugares interessantes, entre mercados movimentados, templos exuberantes e ruínas misteriosas.

“Olha essa geometria”

Porém, tudo isso é permeado por imperfeições técnicas e uma crueza técnica que deve ser mais falta de experiência do que de talento. Há muitas texturas popando na tela, quedas de frame em cenas mais movimentadas e colisões bugadas de tecidos e barbas “entrando” nos personagens e atravessando paredes o tempo todo.

Blood of Mehran é ousado ao querer dar um tom cinematográfico à sua trama: há muitas cutscenes, mas o que deveria ser dramático ocasionalmente descamba para a comédia involuntária: dublagens sem emoção, sincronização labial pífia e expressões faciais que escancaram o sempre incômodo uncanny valley são alguns dos problemas que quebram a imersão.

Para não dizer que o jogo só erra, a trilha sonora é muito boa, alternando entre momentos épicos e mais introspectivos com muita competência — e sempre usando instrumentos e melodias que evocam à ambientação do Oriente Médio. Mais ou menos como Prince of Persia e outros jogos já fizeram, aqui temos músicas que carregam uma herança cultural muito rica.

Por último, no posso deixar de falar da localização. O jogo possui menus e legendas em PT-BR, mas o trabalho de tradução foi feito totalmente sem contexto: o salvamento automático virou “poupança” (tradução literal de saving), e quando pulamos uma mureta, o comando que aparece é “cofre” (não consigo pensar em qual seria a palavra em inglês).

Conclusão

Blood of Mehran, infelizmente, é um jogo que erra muito mais do que acerta. Eu realmente aprecio as suas ideias, e o quanto ele, em pleno 2025, parece querer evocar os jogos de ação e pancadaria dos tempos do Playstation 2. O problema é justamente que essas ideias não foram particularmente bem executadas.

Gostaria de acreditar que isso é mais falta de experiência do que de talento — ainda que o estúdio turco Permanent Way Game Co. já tem alguns jogos menores em seu portfólio. Talvez o problema aqui tenha sido o famigerado “passo maior que a perna”. Blood of Mehran talvez fosse um projeto ambicioso demais, que carecia de um design de combate melhor construído.

Talvez boa parte dos problemas possam ser consertados. Mas, de qualquer jeito, acho que a falta de fisicalidade dos combates é algo que não pode ser resolvido por meio de um update. O máximo que posso esperar é que eles aprendam com os erros cometidos aqui para que seus próximos projetos saiam melhor resolvidos.

Blood of Mehran está disponível para PC, Playstation 5 e Xbox Series.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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