Análise Arkade: Bubsy 4D é mais um jogo capenga do pobre felino (30 anos depois de Bubsy 3D)

1 de junho de 2026

Existe uma piada embutida no nome Bubsy 4D. Ela só funciona se você souber que Bubsy 3D, lançado em 1996 para o PS1, é amplamente reconhecido como um dos piores jogos de plataforma 3D já feitos — um título que virou sinônimo de como não se faz um jogo em três dimensões.

É sagaz intitular o retorno de Bubsy aos mundos tridimensionais como Bubsy 4D. É uma piadoca, uma piscadela que diz ao jogador “a gente também sabe”. Infelizmente a autoconsciência e a capacidade de rir de si mesmo talvez sejam as únicas partes boas de Bubsy 4D, o retorno que quase ninguém pediu de um quase mascote que quase ninguém sentia falta.

Que fique claro que, nos últimos anos, já tivemos outros retornos do Bubsy — e eu tive a oportunidade de jogar todos eles. Em 2017, analisei o jogo de plataforma 2.5D Bubsy the Woolies Strike Back. Já em 2019, tivemos Bubsy: Paws of Fire, que era melhorzinho mais por ser uma cópia de Bit.Trip Runner do que por ser um jogo do Bubsy. O lance é que agora temos um retorno do Bubsy em um jogo 3D — o primeiro desde o famigerado Bubsy 3D.

Bubsy vai para o espaço

A história começa com Bubsy e seus amigos sendo surpreendidos pelo retorno das ovelhas inimigas, que desta vez dominaram a tecnologia de seus captores e se tornaram os temíveis BaaBots. Ao ver o novelo dourado ser roubado, Bubsy sequestra uma das naves inimigas e parte em uma aventura planeta a planeta para recuperar o que é seu.

Não há nada muito profundo aqui: o tom é de comédia pastelão, com diálogos que fazem piada da própria irrelevância do personagem — há até uma piada recorrente em que os outros personagens mal reconhecem a importância do Bubsy na história.

Como eu sempre digo: gosto de jogos que não se levam a sério, e pelo menos nisso Bubsy 4D acerta a mão. É o tipo de humor self-aware que funciona justamente porque os desenvolvedores conhecem a infâmia do personagem e, ao invés de ignorá-la, decidiram brincar com ela. Isso concede personalidade ao jogo e deixa-o imediatamente mais simpático para quem conhece a trajetória do personagem.

Coletando novelos, pulando e rolando

Bubsy 4D é um jogo de plataforma 3D de fases não-lineares: ainda que cada fase tenha um ponto de início e um fim, os mapas são bem abertos, e você vai para o lado que quiser, seguindo o rastro das centenas de novelos de lã espalhados pelo cenário — o que dá ao jogo um sabor de collectathon.

Bubsy tem as habilidades esperadas de um personagem neste tipo de jogo: pulo simples, pulo duplo, uma planadinha, um dash e uma barrigada no chão, bem como a capacidade de escalar certos tipos de paredes. A maior novidade é o Hairball Mode — onde Bubsy se transforma em uma bola de pelos capaz de rolar em alta velocidade, com movimentação inspirada em Sonic e Super Monkey Ball.

A ideia de três velocidades distintas — ele tem uma corridinha leve em duas patas, uma corrida mais veloz em 4 patas e o modo Hairball — cada uma com sua própria relação entre agilidade e controle, é interessante no papel. Na prática, porém, é onde começam os problemas de Bubsy 4D.

O peso da falta de peso

O problema central de Bubsy 4D é difícil de contornar, especialmente em um gênero onde ele é absolutamente fatal: ele simplesmente não é gostoso de jogar. A física do personagem tem um problema crônico de imprecisão — Bubsy sempre parece leve demais, escorregadio demais, como se nunca tivesse peso real.

Em um platformer 3D, onde a leitura precisa das distâncias e o timing dos saltos são tudo, essa falta de “presença” compromete cada pulo, cada aterrissagem, cada tentativa de navegar pelos cenários com confiança. Mesmo quando cria momentos totalmente guiados — tipo tobogãs para o Hairball Mode — o controle ainda parece desajeitado.

Então, por mais que Bubsy tenha mais habilidades do que nunca, quando a física que amarra todo seu move set deixa a desejar, toda essa variedade acaba servindo mais como combustível para frustrações do que formas de variar o gameplay e enriquecer a experiência.

Quando Bubsy 3D saiu, em 1996, ele tinha a desculpa de estar sendo pioneiro: Super Mario 64 havia acabado de sair, e a indústria no geral meio que não sabia como fazer jogos de plataforma tridimensionais decentes.

Mas, de lá para cá se passaram 30 anos, e dezenas de excelentes jogos de plataforma 3D foram lançados, entre indies bem feitos e triples As premiados. É imperdoável — e tragicômico — que Bubsy continue errando no básico… e olha que o jogo nem é da mesma desenvolvedora — e a Fabraz já mostrou que é capaz de fazer jogos de plataforma 3D decentes com a série Demon Turf.

Audiovisual

Para não dizer que o jogo erra a mão em tudo, Bubsy 4D tem um departamento audiovisual simpático. Veja bem, eu não disse “bonito”, nem “incrível”, apenas “simpático”. Os mundos têm identidades visuais distintas, com cores vibrantes e detalhes charmosos — por exemplo, adoro o fato dos checkpoints serem caixas de areia. O visual é um cartoon divertido, que combina bem com o tom bem-humorado que o jogo quer ter. Não chega a impressionar tecnicamente, mas cumpre o que promete.

A trilha sonora também serve bem ao propósito do game. Não espere nenhuma trilha memorável, nem nada que você vai cantarolar quando não estiver jogando. Os efeitos seguem o mesmo caminho: são mais funcionais do que interessantes.

Jogando no PS5 base, o jogo roda bem. Ele não é livre de bugs, mas parece mais uma “característica” do jogo do que uma limitação da plataforma. Válido ressaltar que, infelizmente, o jogo não possui menus nem legendas em PT-BR. Uma pena, visto que, como já dito, o tom do humor (muito presente nos diálogos) é a melhor coisa do game.

Conclusão

Bubsy 4D é um jogo bem-intencionado, que entende o que precisava ser feito para resgatar a reputação nem tão boa do personagem: não se levar a sério, fazer graça da própria história e entregar algo funcionalmente competente.

Ele acerta nos dois primeiros pontos sem grande esforço. É no terceiro que tropeça. O problema é que, num jogo de plataforma 3D, este tropeço acontece justamente no que mais importa: o gameplay. Afinal, convenhamos: bom humor é bem-vindo, mas não é essencial para um jogo. Ele ter bons controles, sim, é fundamental.

E é aqui que mora o problema. Independente da fama do protagonista, Bubsy 4D sofre de um problema que é difícil de defender em qualquer jogo, de qualquer personagem: ele simplesmente não é gostoso de jogar. As mecânicas não são boas, a física é zoada, o feeling de controlar o personagem não é agradável.

E, quando o personagem já chega carregando décadas de má fama nas costas, um controle capenga e uma física escorregadia são as últimas coisas que o jogo deveria trazer. Três décadas se passaram desde Bubsy 3D, mas o felino segue sem ter um jogo 3D decente no currículo.

Bubsy 4D está disponível para PC, PS4, PS5 (versão analisada), Xbox Series, Nintendo Switch e Switch 2.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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