Análise Arkade: Bubsy 4D é mais um jogo capenga do pobre felino (30 anos depois de Bubsy 3D)

Existe uma piada embutida no nome Bubsy 4D. Ela só funciona se você souber que Bubsy 3D, lançado em 1996 para o PS1, é amplamente reconhecido como um dos piores jogos de plataforma 3D já feitos — um título que virou sinônimo de como não se faz um jogo em três dimensões.
É sagaz intitular o retorno de Bubsy aos mundos tridimensionais como Bubsy 4D. É uma piadoca, uma piscadela que diz ao jogador “a gente também sabe”. Infelizmente a autoconsciência e a capacidade de rir de si mesmo talvez sejam as únicas partes boas de Bubsy 4D, o retorno que quase ninguém pediu de um quase mascote que quase ninguém sentia falta.

Que fique claro que, nos últimos anos, já tivemos outros retornos do Bubsy — e eu tive a oportunidade de jogar todos eles. Em 2017, analisei o jogo de plataforma 2.5D Bubsy the Woolies Strike Back. Já em 2019, tivemos Bubsy: Paws of Fire, que era melhorzinho mais por ser uma cópia de Bit.Trip Runner do que por ser um jogo do Bubsy. O lance é que agora temos um retorno do Bubsy em um jogo 3D — o primeiro desde o famigerado Bubsy 3D.
Bubsy vai para o espaço
A história começa com Bubsy e seus amigos sendo surpreendidos pelo retorno das ovelhas inimigas, que desta vez dominaram a tecnologia de seus captores e se tornaram os temíveis BaaBots. Ao ver o novelo dourado ser roubado, Bubsy sequestra uma das naves inimigas e parte em uma aventura planeta a planeta para recuperar o que é seu.

Não há nada muito profundo aqui: o tom é de comédia pastelão, com diálogos que fazem piada da própria irrelevância do personagem — há até uma piada recorrente em que os outros personagens mal reconhecem a importância do Bubsy na história.
Como eu sempre digo: gosto de jogos que não se levam a sério, e pelo menos nisso Bubsy 4D acerta a mão. É o tipo de humor self-aware que funciona justamente porque os desenvolvedores conhecem a infâmia do personagem e, ao invés de ignorá-la, decidiram brincar com ela. Isso concede personalidade ao jogo e deixa-o imediatamente mais simpático para quem conhece a trajetória do personagem.
Coletando novelos, pulando e rolando
Bubsy 4D é um jogo de plataforma 3D de fases não-lineares: ainda que cada fase tenha um ponto de início e um fim, os mapas são bem abertos, e você vai para o lado que quiser, seguindo o rastro das centenas de novelos de lã espalhados pelo cenário — o que dá ao jogo um sabor de collectathon.

Bubsy tem as habilidades esperadas de um personagem neste tipo de jogo: pulo simples, pulo duplo, uma planadinha, um dash e uma barrigada no chão, bem como a capacidade de escalar certos tipos de paredes. A maior novidade é o Hairball Mode — onde Bubsy se transforma em uma bola de pelos capaz de rolar em alta velocidade, com movimentação inspirada em Sonic e Super Monkey Ball.
A ideia de três velocidades distintas — ele tem uma corridinha leve em duas patas, uma corrida mais veloz em 4 patas e o modo Hairball — cada uma com sua própria relação entre agilidade e controle, é interessante no papel. Na prática, porém, é onde começam os problemas de Bubsy 4D.
O peso da falta de peso
O problema central de Bubsy 4D é difícil de contornar, especialmente em um gênero onde ele é absolutamente fatal: ele simplesmente não é gostoso de jogar. A física do personagem tem um problema crônico de imprecisão — Bubsy sempre parece leve demais, escorregadio demais, como se nunca tivesse peso real.

Em um platformer 3D, onde a leitura precisa das distâncias e o timing dos saltos são tudo, essa falta de “presença” compromete cada pulo, cada aterrissagem, cada tentativa de navegar pelos cenários com confiança. Mesmo quando cria momentos totalmente guiados — tipo tobogãs para o Hairball Mode — o controle ainda parece desajeitado.
Então, por mais que Bubsy tenha mais habilidades do que nunca, quando a física que amarra todo seu move set deixa a desejar, toda essa variedade acaba servindo mais como combustível para frustrações do que formas de variar o gameplay e enriquecer a experiência.
Quando Bubsy 3D saiu, em 1996, ele tinha a desculpa de estar sendo pioneiro: Super Mario 64 havia acabado de sair, e a indústria no geral meio que não sabia como fazer jogos de plataforma tridimensionais decentes.

Mas, de lá para cá se passaram 30 anos, e dezenas de excelentes jogos de plataforma 3D foram lançados, entre indies bem feitos e triples As premiados. É imperdoável — e tragicômico — que Bubsy continue errando no básico… e olha que o jogo nem é da mesma desenvolvedora — e a Fabraz já mostrou que é capaz de fazer jogos de plataforma 3D decentes com a série Demon Turf.
Audiovisual
Para não dizer que o jogo erra a mão em tudo, Bubsy 4D tem um departamento audiovisual simpático. Veja bem, eu não disse “bonito”, nem “incrível”, apenas “simpático”. Os mundos têm identidades visuais distintas, com cores vibrantes e detalhes charmosos — por exemplo, adoro o fato dos checkpoints serem caixas de areia. O visual é um cartoon divertido, que combina bem com o tom bem-humorado que o jogo quer ter. Não chega a impressionar tecnicamente, mas cumpre o que promete.

A trilha sonora também serve bem ao propósito do game. Não espere nenhuma trilha memorável, nem nada que você vai cantarolar quando não estiver jogando. Os efeitos seguem o mesmo caminho: são mais funcionais do que interessantes.
Jogando no PS5 base, o jogo roda bem. Ele não é livre de bugs, mas parece mais uma “característica” do jogo do que uma limitação da plataforma. Válido ressaltar que, infelizmente, o jogo não possui menus nem legendas em PT-BR. Uma pena, visto que, como já dito, o tom do humor (muito presente nos diálogos) é a melhor coisa do game.
Conclusão
Bubsy 4D é um jogo bem-intencionado, que entende o que precisava ser feito para resgatar a reputação nem tão boa do personagem: não se levar a sério, fazer graça da própria história e entregar algo funcionalmente competente.

Ele acerta nos dois primeiros pontos sem grande esforço. É no terceiro que tropeça. O problema é que, num jogo de plataforma 3D, este tropeço acontece justamente no que mais importa: o gameplay. Afinal, convenhamos: bom humor é bem-vindo, mas não é essencial para um jogo. Ele ter bons controles, sim, é fundamental.
E é aqui que mora o problema. Independente da má fama do protagonista, Bubsy 4D sofre de um problema que é difícil de defender em qualquer jogo, de qualquer personagem: ele simplesmente não é gostoso de jogar. As mecânicas não são boas, a física é zoada, o feeling de controlar o personagem não é agradável.

E, quando o personagem já chega carregando décadas de má fama nas costas, um controle capenga e uma física escorregadia são as últimas coisas que o jogo deveria trazer. Três décadas se passaram desde Bubsy 3D, mas o felino segue sem ter um jogo 3D decente no currículo.
Bubsy 4D está disponível para PC, PS4, PS5 (versão analisada), Xbox Series, Nintendo Switch e Switch 2.