Análise Arkade: Captain Blood não é bem um tesouro perdido, mas uma bijuteria decente

24 de maio de 2025

Captain Blood é um jogo que passou praticamente 15 anos no limbo. Originalmente planejado para ser lançado em 2010, ele só foi sair agora, em 2025. Experimentamos esta “joia perdida” dos games, e você confere as nossas impressões agora!

A volta dos que não foram

Captain Blood é um caso raro de ressurreição total na indústria dos videogames. A gente até vê com alguma frequência jogos sendo cancelados e projetos sendo engavetados, mas temos aqui um título que foi realmente persistente.

Aí vai um breve resumo: originalmente desenvolvido pela russa Akella no início dos anos 2000, Captain Blood foi concebido como uma adaptação dos romances de Rafael Sabatini, e prometia uma aventura de ação com temática pirata, ambientada no Caribe do século XVII.

O protagonista, Peter Blood, é um temido pirata que singra as águas caribenhas com sua tripulação, lutando contra a invasão espanhola. Além disso, ele também explora ilhas e fortalezas, coleta tesouros, bebe rum em tavernas e cumpre missões em troca de moedas de ouro –afinal, ele é um pirata.

O jogo passou por diversos perrengues ao longo de seu desenvolvimento. Para piorar, problemas legais e o colapso de sua editora original, a Playlogic, levaram ao seu cancelamento pouco antes da data prevista para seu lançamento, em 2010.

Anos depois, uma versão quase finalizada vazou online, reacendendo o interesse pelo projeto, mas ainda sem nenhuma previsão de lançamento comercial. Eis que, em meados do ano passado, o título ressurge das cinzas com um trailer de “relançamento” e a promessa de sair ainda em 2024.

Atrasou um pouquinho, mas, eis que em maio de 2025, graças aos esforços da nova publisher SNEG, o jogo finalmente chegou ao mercado, com a colaboração de membros da equipe original — agora sob o nome SeaWolf, — e da General Arcade, responsável pela adaptação para plataformas modernas. E aqui estamos nós, para lhe contar o que achamos do game!

God of War-like

Jogar Captain Blood remete diretamente aos hack and slashes da era do PlayStation 2: seus combates são focados em armas brancas (espadas, machados, floretes), mas também envolvem armas de fogo como bacamartes e a famosa flintlock, arma típica de pirata.

Por sua produção ter sido contemporânea ao sucesso dos primórdios da saga God of War, é fácil reconhecer muitos elementos que marcaram época em Captain Blood — que se apresenta como um jogo de ação linear, dividido em fases e com muita ênfase em combate.

O layout dos controles e a esquiva multidirecional no analógico direito são “bem God of War“. Os combos seguem a cartilha espartana (tipo quadrado, quadrado, quadrado, triângulo), e quando um inimigo está devidamente enfraquecido, um ícone aparece sobre sua cabeça, possibilitando uma finalização brutal — usando círculo, como em God of War. A brutalidade dos combates — com muitos desmembramentos e sangue espirrando na tela — também bebe na fonte do Kratos.

Confira um pouco de combate no vídeo abaixo:

Outro elemento típico daquela época que marca presença aqui são os QTEs, os famigerados quick time events. Presentes em certas finalizações e momentos “épicos” do jogo — com prompts que muitas vezes pegam a gente de surpresa — estas ações contextuais visam tornar a experiência mais cinematográfica, sem tirar totalmente o controle do jogador.

Confira um destes momentos abaixo:

Um diferencial interessante é que, com o ouro que coletamos, podemos comprar novas finalizações (e outras coisas, como novos combos e upgrades). E cada finalização tem um propósito. Por exemplo, há uma que toma a arma do inimigo — que pode ser usada até quebrar — outra que extrai mais ouro do adversário, ou mesmo uma que enche o medidor de “raiva” do personagem — que, adivinha só, também funciona mais ou menos como o do Kratos.

Muita calma nessa hora

Apesar de todos estes paralelos com God of War, não se engane: mecanicamente, o jogo não é tão polido quanto o jogo da Santa Monica Studios. As animações são um tanto desajeitadas, e a falta de impacto dos golpes torna o combate muito menos satisfatório. A variedade de inimigos também é bastante limitada — e alguns são especialmente irritantes, especialmente quando vêm em grupos.

A verdade é que Captain Blood nunca teve o orçamento ou o nível de produção de God of War. Outro jogo dessa época, que faz um trabalho muito melhor em emular a epopeia do Fantasma de Esparta é Dante’s Inferno. Aqui existia a vontade, mas faltava o dinheiro (e talvez até mesmo o talento) para entregar algo no mesmo nível.

Dito isso, seria hipocrisia da minha parte dizer que não me diverti jogando Captain Blood. Mas muito disso é pela nostalgia desse tipo de experiência mais simples, mais focada em ação e em “martelar os botões no timing certo” para arrancar braços e cabeças.

Mas isso é questão de gosto pessoal e saturação de certos gêneros atuais. Já falei muito por aqui de como estou de saco cheio de mundos abertos enormes e Soulslikes, então, um hack and slash linear, mesmo meio capenga, consegue me entreter simplesmente porque não há muitos jogos assim no mercado.

Batalhas navais

E olha: para não dizer que Captain Blood é puramente derivativo, ele já traria batalhas navais anos antes da Ubisoft lançar seu Assassin’s Creed IV Black Flag (se tivesse sido lançado na data prevista. Verdade que aqui a ação é um pouco mais chata — precisamos ficar ativando manualmente os canhões ao longo do navio, enquanto lidamos com invasores subindo em nossa embarcação.

Ainda que as batalhas navais ofereçam alguma variação de gameplay e uma mudança de ritmo ao jogo, elas são superficiais e tendem a ficar chatas. Claramente ouve um esforço (que é louvável) para acrescentar este elemento que tem tudo a ver com a temática do jogo… mas a verdade é que estes momentos simplesmente não são divertidos.

Audiovisal

Indo contra qualquer tentativa de realismo, Captain Blood aposta em um visual mais estilizado, com personagens cartunescos. É uma estética que funciona bem, ainda que contraste um bocado com toda a violência e brutalidade do game.

Dito isso, este não é um jogo particularmente bonito. Há paredes invisíveis por todos os lados e os cenários, ainda que sejam o que se espera dentro da temática “jogo de pirata”, são genéricos e sem muita personalidade. Peter Blood (que lembra o Gaston, de A Bela e a Fera) e um ou outro coadjuvantes de luxo até são bem modelados, mas a reciclagem dos mesmos modelos de inimigos ao longo de toda a campanha faz o jogo parecer um beat ‘em up dos anos 1990.

Problemas técnicos também afetam a experiência, especialmente no departamento sonoro: a mixagem de áudio é inconsistente, com diálogos muito baixos e efeitos sonoros que se sobrepõem às vozes dos personagens. A trilha sonora meio que “aparece quando quer”, ficando ausente durante momentos críticos.

Jogando no PS5, a performance é satisfatória… até porque, né, é um jogo de PS2. Um detalhe bacana é que o game conta com menus e legendas em português brasileiro — um cuidado de localização que provavelmente o jogo não receberia se tivesse saído na época planejada.

Conclusão

Captain Blood é, em essência, um produto de seu tempo. Suas mecânicas e design de jogo refletem o que era tendência nos jogos de ação do início ali em meados dos anos 2000 — especialmente no que foi visto em God of War.

Para alguns, isso pode ser um atrativo, pois funciona quase como uma janela para uma era passada dos videogames. No entanto, para a maioria dos jogadores contemporâneos, as deficiências técnicas e de design podem ser barreiras significativas.

Este lançamento tardio, contudo, preenche a “lacuna histórica” deixada por um jogo que passou por maus bocados. Captain Blood parecia ter naufragado em águas turbulentas, mas encontrou ventos favoráveis tantos anos depois.

Eu me diverti com Captain Blood, apesar de suas óbvias limitações. Admiro a iniciativa de preservar e lançar um jogo anteriormente perdido, mas uma coisa é fato: em 2025, Captain Blood serve mais como uma curiosidade histórica do que como uma experiência de jogo recomendável nos padrões atuais.

Captain Blood está disponível para PC, Playstation 4, Playstation 5 (versão analisada), Xbox One, Xbox Series e Nintendo Switch.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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