Análise Arkade: Dispatch, um adventure narrativo imperdível sobre super-heróis (e empatia)

13 de novembro de 2025

Embora a cultura pop já tenha nos deixado um tanto saturados de histórias de super-heróis, obras como The Boys e Invincible mostram que ainda há espaço — e interesse — por seres superpoderosos vestindo collants, desde que exista uma boa história por trás. Dispatch, jogo de estreia dos novatos (mas experientes) desenvolvedores do AdHoc Studio, é a mais nova obra a adentrar o panteão de ótimas histórias de super-heróis que fogem do lugar comum.

Um herói (quase) aposentado

Não mencionei The Boys à toa. A história de Dispatch se passa em um universo mais ou menos parecido com o das HQs e da série da Amazon Prime. Aqui, existe uma corporação, a SDN, que é responsável por coordenar o envio de heróis para a realização de missões variadas, ajudando pessoas, combatendo crimes e enfrentando supervilões.

Nesse contexto, assumimos o controle de Robert Robertson, sujeito que costumava ser o Mecha-Man — um super-herói sem superpoderes de verdade. Em uma pegada que lembra Tony Stark, o seu “poder” vinha de uma poderosa armadura tecnológica, passada de geração em geração. O avô dele foi o Mecha-Man original, depois veio o pai, e ambos morreram em combate. Assim, o fardo — e o legado — do Mecha-Man acabaram recaindo sobre os ombros de Robert.

Ele fez o melhor que pôde para honrar o nome da família e do Mecha-Man, mas a manutenção da armadura tinha custos altíssimos. Após um confronto particularmente intenso com a gangue do vilão Mortalha, seu traje ficou destruído. Sem dinheiro para consertá-lo, Robert decidiu pendurar as chuteiras e deixar o posto de Mecha-Man para trás.

Herói de escritório

Porém, os dias de heroísmo de Robert Robertson não terminam ali. Após se envolver em um assalto, ele acaba sendo recrutado pela Loira Luminar — uma super-heroína de verdade, com poderes e prestígio — para trabalhar na organização responsável por coordenar as ações dos heróis e enviá-los em missões de resgate, combate e ajuda humanitária.

Sem seu traje, porém, Robert assume um papel mais “administrativo”. Sua função é coordenar um bando de pseudo-heróis desacreditados no chamado Projeto Phoenix, iniciativa que tenta recapacitar ex-vilões e transformá-los em heróis. Seu esquadrão, a Equipe Z, é uma espécie de Esquadrão Suicida: repleto de personagens com passados duvidosos tentando limpar a própria barra.

O nome do jogo, Dispatch, vem exatamente da função que desempenhamos: através de uma interface de computador, nosso trabalho é despachar esses heróis para cumprir missões e atender a pedidos de socorro variados por uma região da cidade (que é uma versão fictícia de Los Angeles).

Despachando heróis

Despachar os heróis é meio que um mini-game de administração e estratégia: cada herói tem atributos que podem ser mais adequados para o cumprimento de determinadas missões. Em muitos casos, podemos enviar mais de um herói, e a sinergia entre eles é levada em conta.

Certos personagens têm habilidades passivas que podem ser muito úteis: a Prisma, por exemplo, pode aprender uma habilidade que lhe permite duplicar um herói quando colocada no segundo slot para uma missão. Ou seja, ao invés de dois heróis, você vai com três (incluindo uma cópia do herói alocado no primeiro slot). O próprio Robert também assume algumas missões de hackeamento remoto, uma tarefa arriscada que envolve um outro tipo de mini-game.

Por mais que tudo seja feito por meio dessa interface computacional e nosso índice de sucesso (ou fracasso) seja medido por gráficos, acompanhar o progresso das missões gera momentos de pura ansiedade e tensão. Em alguns casos, o “fator sorte” acaba incomodando, mas conforme você evolui seus heróis e melhora seus atributos, as chances de sucesso aumentam, e o desafio passa a ser coordenar o timing dos “despaches” — visto que os heróis precisam descansar para se recuperar, e podem se ferir ou mesmo negarem o cumprimento de certas missões.

Mas isso tudo é apenas uma parte da experiência. Como uma obra de forte apelo narrativo — e não por acaso, desenvolvida por um estúdio formado por ex-membros da Telltale GamesDispatch é muito mais sobre os relacionamentos entre os personagens, sobre as tensões e cumplicidades que se formam entre eles, e claro, sobre como as escolhas do jogador vão moldando os rumos da história.

Decisões e relacionamentos

A história é, de longe, o maior trunfo de Dispatch. Além dos talentos de ex-membros da Telltale, o jogo foi criado em parceria com o pessoal da Critical Role, canal do YouTube amplamente reconhecido por suas campanhas de RPG enormes, que conquistam fãs justamente pela qualidade das histórias e pelo desenvolvimento profundo dos personagens.

E é exatamente nesse ponto que Dispatch brilha. Os personagens são incríveis — complexos, interessantes e muito bem escritos. Os diálogos são afiados, cheios de humor ácido, e toda conversa transborda de nuances e personalidade. A trama nos coloca diante de escolhas que são, em muitos casos, genuinamente tensas, e carregam um peso emocional e moral considerável.

Assim como nos jogos da Telltale, o jogo faz questão de nos lembrar quando uma escolha vai deixar marcas: é comum ver a clássica mensagem “Fulano vai se lembrar disso” surgir no canto da tela logo após uma escolha mais impactante. Eu adoro este recurso, mas ele sempre me deixa ansioso, justamente porque nunca há uma “escolha certa”: o que temos são decisões que devem ser tomadas com base na sua percepção do time, na sua bússola moral e no seu nível de empatia (ou falta dela) com determinados personagens e situações.

Essas decisões impactam de verdade o rumo da história. Já no final do segundo episódio, por exemplo, precisamos escolher um personagem para ser removido da equipe. Esta é uma decisão que muda significativamente o rumo dos acontecimentos, afetando tanto os membros que permanecem quanto aquele que é dispensado.

À medida que a trama avança, as ramificações das escolhas se tornam cada vez mais complexas, e as consequências mais difíceis de lidar. O jogo não tem medo de colocar o jogador em situações moralmente cinzentas, e justamente por isso, Dispatch se mantém instigante do começo ao fim, sempre nos forçando a refletir sobre lealdade, responsabilidade e o verdadeiro custo de ser um herói.

Estou sendo propositalmente vago aqui porque a narrativa é, sem dúvida, o ponto mais forte de Dispatch. Na verdade, este é um jogo muito mais para se assistir do que propriamente jogar. Ele até apresenta alguns Quick Time Events pontuais (que podem ser desabilitados), mas a maior parte da experiência é formada por diálogos, decisões e consequências.

É uma experiência totalmente focada na imersão e no envolvimento com os personagens — e, justamente por isso, falar demais sobre os acontecimentos seria arruinar a experiência. O que posso dizer, sem dar spoilers, é que há muito tempo um jogo episódico narrativo não me deixava tão interessado e imerso quanto Dispatch. E, como alguém que aprecia o potencial dos videogames como mídia para contar histórias, esta foi, de longe, uma das melhores histórias de 2025 para mim.

Audiovisual

Claro que boa parte do apelo e da imersão de Dispatch se perderiam se o jogo fosse esteticamente pobre ou desinteressante. Felizmente, esse não é o caso. Dispatch é um jogo lindíssimo, com animações de altíssima qualidade e um visual estilizado muito rico. As cenas são plásticas, fluidas e visualmente impactantes, especialmente durante os momentos de ação e combate — ou mesmo nos momentos de descontração, como a já famosa cena da festinha dos heróis no apartamento do Robert.

O character design é outro ponto de destaque. Os personagens são criativos, expressivos e visualmente marcantes — o tipo de elenco que você reconhece instantaneamente. E o mais legal é que todo mundo tem espaço para se desenvolver e protagonizar momentos marcantes — até mesmo Beef, o gorducho cãozinho de estimação de Robert, tem espaço para brilhar.

Somado a isso, o jogo conta com um elenco de dubladores estelar, que dá vida e emoção a cada diálogo. Aaron Paul, o eterno Jesse Pinkman de Breaking Bad, empresta sua voz ao protagonista Robert Robertson e faz um baita trabalho. Ele é acompanhado por nomes de peso como Alanah Pearce, que interpreta a demônia boazuda Malévola, e por Laura Bailey, uma das vozes mais conhecidas da indústria, que aqui faz o papel de Invisiva. Esse trio é apenas parte de um time de dubladores extremamente talentoso, que injeta personalidade e emoção nas interações — algo essencial em um jogo tão focado em narrativa.

Ao contrário dos antigos títulos da Telltale, que eram meio “feinhos” e desajeitados, Dispatch é um verdadeiro deleite visual. Pelo que pesquisei, o jogo é tão voltado para a experiência cinematográfica que cada episódio funciona (em termos leigos) como um grande arquivo de vídeo que salta para diferentes momentos de acordo com as decisões do jogador. Ou seja, Dispatch está mais para uma animação interativa do que um jogo propriamente dito.

Se isso o torna mais ou menos “videogame”, é uma discussão que acho irrelevante. O importante é que as decisões estéticas e técnicas servem perfeitamente à história, reforçando a imersão e tornando o universo de Dispatch ainda mais fascinante de acompanhar.

Conclusão

A verdade é que eu tinha tanta coisa que gostaria de comentar sobre Dispatch, mas tudo seria spoiler. Há decisões que tomei e caminhos que a história seguiu que eu adoraria discutir aqui, mas isso inevitavelmente estragaria a experiência para quem ainda vai jogar. Para ser sincero, já foi difícil esperar o lançamento de todos os episódios — que saíram de dois em dois nas últimas semanas — para finalmente escrever este review. A vontade era falar sobre o jogo logo após terminar cada capítulo, mas segurei a onda para trazer impressões mais completas.

“Completas” entre aspas, claro, porque como mencionei, há muito que prefiro não detalhar, justamente para não tirar a graça das surpresas. O fato é que, se você gosta de experiências narrativas em videogames, e acredita no poder da mídia para contar boas histórias, Dispatch é simplesmente imperdível.

Embora siga a mesma fórmula dos adventures narrativos da Telltale, o jogo representa uma evolução tanto narrativa quanto técnica daquele formato. Ele mostra que ainda há muito espaço para esse tipo de experiência — e que, quando bem executada, ela pode ser tão intensa e imersiva quanto um bom filme ou uma boa série.

É fácil recomendar Dispatch para quem aprecia histórias interativas, mas é importante ter isso em mente: você está aqui pela história, e não vai encontrar mecânicas arrojadas ou gameplay profundo. O que vai te prender é a força da narrativa e a relação entre os personagens. E nisso, Dispatch oferece uma experiência realmente especial — daquelas que ressoam com a gente e nos lembram por que amamos boas histórias em videogames.

Dispatch foi lançado em formato episódico ao longo das últimas semanas, e todos os episódios já estão disponíveis para PC e Playstation 5 (versão analisada). O game possui menus e legendas em PT-BR — há algumas inconsistências aqui e ali, mas no geral o trabalho de localização é competente.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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