Análise Arakde: Ground Zero é um Survival Horror de câmera fixa bastante competente e nostálgico

26 de maio de 2026

Quando um novo Survival Horror com câmera fixa é lançado, eu fico feliz. Nem todos são bons, mas só de ver que esse estilo continua vivo mais de 30 anos desde seu surgimento é algo que me enche de alegria. E Ground Zero, da Malformation Games, é mais um game revivendo esse estilo, e vamos conversar sobre ele agora!

Aliens, zumbis e crises políticas na Coréia do Sul

Ground Zero nos coloca em um futuro próximo, meses após um estranho evento cataclísmico: Um meteoro caiu na Coréia do Sul espalhando uma gigantesca nuvem de poeira e criando uma estranha tempestade que jamais termina. Pouco tempo depois, toda a comunicação com o país foi perdida.

Uma coalisão entre diferentes países, após várias tentativas de descobrir o que está acontecendo e enviar equipes que jamais retornaram decidem uma abordagem diferente, decidem enviar a agente Seo-Yeon, da Coréia do Sul e Evan, do Canadá, para investigarem o que está acontecendo no meio da tempestade. E quais impactos o meteoro causou.

Chegando lá, a dupla se depara com uma visão estranha: Não há um único ser vivo em seu ponto de desembarque, com vários cadáveres cobertos por uma estranha gosma espessa espalhados para todo lado, junto a várias e várias formas de destruição. E logo eles encontram os primeiros seres “vivos” no país, pessoas infectadas por estranhas raízes saindo de seus corpos, causando espasmos formes e transformando-as em “zumbis”, atacando qualquer pessoa não infectada próxima.

E logo é revelado que o meteoro lançou estranhas substâncias que infectaram toda a população do país, espalhando-se de forma muito rápida e agora ameaçando infectar o mundo inteiro. E não apenas isso, mas estranhas raízes e massas orgânicas brilhantes, conectadas ao local de impacto do meteoro, estão crescendo a uma velocidade imensa, e absorvendo nutrientes de todos os mortos.

Com isso, Seo-Yeon e Evan descobrem que foram enviado para um trabalho que o salário não compensa dado o imenso risco envolvido, mas se eles não agirem, e rápido, o mundo inteiro estará em perigo. E se isso não fosse o bastante, essa crise de proporções cósmicas ainda possui influências externas, com envolvimentos de governos, e com os comandantes dos agentes enviando ordens questionáveis. Fora o fato da dupla descobrir muitas informações perigosas sobre toda a situação, mostrando que o perigo não está somente nas raízes alienígenas.

Quase uma mistura de todos os Survival Horrors da Capcom em uma coisa só

A primeira vista o que chama a atenção de Ground Zero é ser um Survival Horror bem tradicional, com câmera fixa, gráficos poligonais e inventário limitado. Mas conforme o jogador avança, mais e mais coisas começam a montar o “quebra-cabeça” do game e expor suas influências. E parece que elas todas vieram de uma fonte: a Capcom.

O game lembra bastante principalmente Resident Evil 3 por ser ambientado em sua maior parte nas ruas de diversas cidades coreanas, com muita destruição e monstros para enfrentarmos. E em certo ponto do game, há ainda alguns perseguidores invencíveis que tornarão as coisas muito complicadas. Mas spoiler, esses inimigos são temporários.

O game conta com possibilidade de jogar com controles analógicos ou jogabilidade de tanque, e infelizmente jogar com analógico gera aquele problema de bagunçar a direção que o personagem está andando quando a câmera muda de posição. Se você estiver segurando o analógico para cima, mas na próxima tela você entrou da direita pra esquerda, qualquer mínimo movimento corrigirá a direção de acordo com a posição da câmera. Assim, você precisa continuar segurando a mesma direção por pelo menos 1 segundo, parar “resetar” a direção para tudo voltar ao normal. E isso pode atrapalhar se você estiver fugindo de inimigos.

Seo-Yeon é a protagonista do game, com o jogador passando a maior parte da aventura controlando-a. Evan pode ser controlado em alguns trechos específicos, tendo um inventário separado e armas exclusivas, mas seus trechos de jogo são curtos. Isso me lembrou, ainda que superficialmente, Resident Evil 0, apesar de nesse último podermos alternar entre personagens livremente. E uma coisa realmente bem contra-intuitiva e clichê em histórias de terror é que a dupla está sempre se separando propositalmente, com cada um cobrindo áreas diferentes e se reencontrando depois… para se separarem de novo.

E voltando a semelhanças com Resident Evil 3, o game tem um sistema de escolhas que definem quais áreas Seo-Yeon explorará. Essas escolhas normalmente acontecem com o jogador sendo apresentado duas opções de locais para ir, as vezes sem saber o que cada lugar terá. E, ao escolher um caminho, o outro fica permanentemente bloqueado. Em Resident Evil 3 as escolhas envolvem normalmente enfrentar ou não Nemesis em certo trechos, mas aqui as escolhas definem as áreas do mapa que poderão ser exploradas.

E então temos o inventário, que é semelhante aos clássicos Resident Evil, começando com apenas 8 espaços, mas podendo ser aumentado ao encontrar bolsas portáteis. Eu joguei o game no nível difícil, e esse modo é bastante desafiador, com praticamente a primeira metade do game tendo munição muito escassa. Várias e várias vezes eu ficava completamente zerado de munição, tendo que sobreviver usando apenas a faca. Usar a faca, felizmente, não é tão difícil. O game possui um sistema de esquivas, defesa e parry, que se usados bem, tornam a faca literalmente a melhor arma do game.

Mas há dois recursos muito legais no game: O primeiro é poder mirar livremente, mesmo em perspectiva de câmera fixa. Isso é útil principalmente para atirar em cadeados que bloqueiam áreas extras. E o melhor recurso do game são os tiros críticos. Usar um tiro crítico é algo arriscado mas muito recompensador. Ao mirar, você pode segurar um botão que entra em modo de foco, com uma barra aparecendo no centro da tela com um retículo indo para a esquerda e direita. Nessa barra, há um retângulo vermelho que muda de posição poda vez. Ao apertar o gatinho quando o retículo estiver dentro do retângulo vermelho, você dispara um tiro poderoso que mata qualquer inimigo (exceto chefões), com um único tiro!

Esse recurso, no entanto, é lento e inútil se você estiver próximo de inimigos. Felizmente, em áreas abertas, é bem fácil mirar, inclusive em inimigos fora do campo de visão, e usar tiros críticos para limpar a área. Principalmente porque isso economiza muita munição, o que é o mais importante de tudo!

Outro recurso interessante é a seringa, o item padrão de cura. O game possui três tipos de soros que podem ser colocados na seringa (que tem 3 espaços): O verde recupera sua vida. O vermelho melhora sua condição física, aumentando resistência a dano. E o Azul cura infecções. Você pode usar qualquer combinação de cores na seringa, dependendo da ocasião. E se combinar 3 soros da mesma cor, aumenta permanentemente um atributo de seu personagem: Vida, Defesa, imunidade a infecção. Há ainda kits de primeiros socorros que recuperam toda a vida, e uma variante que cura infecções.

O game, como é de se esperar, possui save rooms para salvar o progresso. E para conseguir salvar é preciso ter um replicador de sinal para ser acoplado nos computadores das save rooms, sem isso não é possível salvar. Mas diferente das ink ribbons de Resident Evil, os replicadores de sinal possuem uso único. Assim, os computadores em que forem usados são desbloqueados para salvar o progresso a qualquer momento, então não há risco de desperdiçar esse item.

A maioria das save rooms possui uma estação de compra, em que você pode comprar munições, itens de cura, granadas e armas, semelhante ao visto em Resident Evil Requiem, ainda mais que você consegue créditos escaneando monstros mortos e encontrando discos de pesquisas escondidos nos cenários. E ainda há uma mecânica interessante de escaneamento. Se você matar inimigos com facas, extrairá genoma em condições perfeitas, ganhando mais créditos. E usar armas de fogo diminui a qualidade, o que incentiva muito o uso de tiros críticos, pois matar inimigos com a shotgun, por exemplo, resulta em extração de genoma com qualidade ruim.

Então, tivemos vários elementos de Resident Evil inseridos no game. E ainda tem mais! Há um trecho no game, em que visitamos a universidade de Busan, especialmente sua ala de biologia e paleontologia, em que encontramos dinossauros monstruosos! Então temos “zumbis” de Resident Evil e, ainda que por um curto tempo, dinossauros de Dino Crisis! E ainda há um trecho inteiro dentro de um trem, estilo Rezident Evil 0! E se isso não for o suficiente, ainda visitamos um zoológico com animais mutantes, relembrando Resident Evil Outbreak!

Visual poligonal com mapas pré-renderizados muito bem feitos

Ground Zero tem algo que eu adoro ver em Survival Horrors, mas mesmo nos que replicam o estilo Old school é difícil de se ver: Cenários pré-renderizados. É algo tão “simples” e “antigo”, mas eu adoro. E ver que o game é todo construído nesse estilo me deixou muito feliz.

E não apenas isso, em alguns cenários, a câmera acompanha o movimento de seu personagem, algo simples para mapas em 3D, mas o pessoal da Malformation Games foi além. Nesses trechos, que são poucos, quando a câmera se move a resolução dos cenários cai absurdamente. Normalmente isso seria um defeito, mas aqui replica com uma fidelidade raramente vista as limitações do passado! Esses trechos não se tratam apenas da câmera se movendo para os lados, mas sim dela girando, mudando a perspectiva do campo de visão.

Os monstros do game são bem grotescos, de zumbis simples com raízes saindo de suas feridas, cachorros sem pele com mandíbulas enormes, dinossauros cujos corpos racham no meio exibindo tentáculos, animais e pessoas fundidas em um só monstro imenso e grotesco. Na parte do gore, o game manda bem. Inclusive, o game se inicia com a mensagem de que o game possui cenas de violência. E quando um survival horror tem essa frase, a nostalgia vem forte!

A dublagem do game é bem feita, com 90% do game os diálogos acontecendo entre Seo-Yeon e Eva. Seo-Yeon é calma, as vezes extremamente calma, pois ela é uma mulher objetiva, que evita deixar suas opiniões e sentimentos influenciarem a missão. Ela tem ordens e ela vai cumpri-las, simples assim. Evan já é excessivamente descontraído e muitas vezes não leva a situação em que se encontra a sério o suficiente, mas fica evidente que esse é seu mecanismo de defesa, fazer piadas para não surtar. Mas quando ele fica irritado ao descobrir segredos envolvidos com o caos na Coréia do Sul, ele não esconde sua frustração.

Ambos os personagens são o completo oposto um do outro. Seo-Yeon as vezes é casual demais em relação a coisas que enfrenta ou testemunha. E Evan é as vezes debochado além do limite. Mas é quando a história se desenvolve e ambos precisam questionar o que está acontecendo que a dinâmica dos personagens realmente brilha.

Algo bem legal é que ambos os personagens, mesmo que não mexam as bocas para falar, possuem expressões faciais, principalmente Sae-Yeon. Seus modelos poligonais são muito bem construídos, mantendo o estilo “Playstation 1” mas com grande riqueza de detalhes, algo que realmente me impressionou enquanto jogava.

A trilha sonora do game é boa, e adiciona a atmosfera perfeita para seu universo. Como a infecção alienígena causou uma tempestade incessante, os sons ambientes são normalmente acompanhados por chuvas e trovões. Os monstros normalmente são silenciosos, exceto quando próximos, então fica faltando um pouco aqueles sons de respiração próxima e grunhidos que deixam as coisas tensas.

E o game possui localização em português brasileiro em seus menus e legendas! Com um excelente trabalho de localização!

Conclusão

Ground Zero é um Survival Horror Old School bem competente e familiar. Que sabe usar as câmeras fixas do jeito certo e resgata os cenários pré-renderizados de antigamente que continuam tendo seu charme. Ou, serei sincero, nunca perderam o seu charme, a indústria que esqueceu deles em seu avanço para a modernidade.

Sua história no início é apenas ok, sendo um tanto previsível e as vezes até galhofa com as interações entre Seo-Yeon e Evan, mas quando a trama se desenrola e os perigos ocultos nesse apocalipse zumbi/alienígena começam a se apresentar, a coisa fica bem interessante!

Ground

O game oferece bastante desafio, me fazendo reviver a era do Playstation 1 tendo que gerenciar bem meu inventário para não passar sufoco, especialmente jogando no nível Difícil, em que as coisas realmente ficavam complicadas, até eu dominar o uso dos tiros críticos e aprender a economizar munição.

Infelizmente, durante minha jogatina, um erro de save acabou apagando cerca de 1 hora de progresso. O que num Survival Horror é algo muito doloroso. Por conta disso, minha experiência não foi 100% prazerosa como eu gostaria, e espero que esse erro de save tenha sido um caso isolado e que não aconteça com mais ninguém. Mas apesar disso, Ground Zero é um game pode acabar passando batido, mas tem muitas qualidades

Ground Zero foi lançado no dia 16 de abril com versões para PC, Playstation 5 e Xbox Series X/S.

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Renan do Prado

Amante de Metal Gear, platinador de Soulsborne e exímio jogador online (quando o lag não atrapalha).

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