Análise Arkade: INDIKA, um jogo ousado, esquisito e experimental

INDIKA é um jogo que sempre me deixou curioso por sua premissa que, além de inusitada, é tratada com uma ousadia surpreendente: o game acompanha a jornada de uma jovem freira russa (a Indika) do século XIX que, supostamente, conversa com o diabo.
A Odd Meter, estúdio por trás do título, arrisca tudo em uma experiência diferenciada, que trata de temas naturalmente espinhosos (religião, fé, culpa) temperados com uma narrativa madura, psicológica e filosoficamente densa.

Sei que o jogo não é necessariamente novo, mas não pude experimentá-lo no ano passado em outras plataformas. Porém, com a chegada de INDIKA ao Nintendo Switch esta semana, resolvi tirar o atraso, e agora trago aqui minhas impressões.
O fardo de Indika
A narrativa é, de longe, o ponto mais alto e a maior aposta de INDIKA. Controlamos a freira Indika, que vive deslocada no convento por um motivo peculiar: ela é constantemente atormentada por uma voz — o próprio demônio — que se manifesta de forma física e em seus pensamentos.

Isso obviamente coloca a jovem em maus lençóis, de modo que as demais freiras são hostis com ela, tratam-na mal e lhe passam tarefas ingratas. Dentro deste contexto, o jogo logo nos coloca em uma jornada fora do monastério para entregar uma carta, onde ela cruza o caminho de Ilya, um prisioneiro fugitivo que acredita ser o escolhido de Deus.
A dinâmica entre a dupla é a melhor coisa do jogo, e rende alguns diálogos realmente inspirados. É até engraçado como um fugitivo da prisão demonstra ter mais fé do que uma freira, mas o contexto de cada um corrobora com sua visão de mundo. E, claro, temos ainda os comentários do próprio demônio, carregados de sarcasmo e sempre tentando afastar Indika ainda mais de suas crenças.

Outro detalhe que enriquece a experiência é a narrativa não linear: o jogo apresenta visões e flashbacks em estilo pixel art para apresentar o passado e os traumas de Indika. Em muitos casos, o jogo brinca com alegorias e metáforas para demonstrar coisas sombrias, e faz isso de formas bem interessantes. INDIKA é esquisito, mas consegue nos deixar curiosos justamente por sua estranheza.
Gameplay intencionalmente minimalista
Aqui reside a faca de dois gumes de INDIKA. O jogo é quase um walking simulator, com puzzles que, na maioria das vezes, mal chegam a exigir do cérebro do jogador. Sem combate, hud intrusivo ou inventário, a jogabilidade é intencionalmente minimalista. O foco está em caminhar, observar e interagir.

Os puzzles são leves, exigindo mais atenção do que raciocínio lógico. Não considero isso um problema; o jogo não quer que você pare para queimar a moringa em soluções elaboradas, nem fique travado, mas que continue avançando pela narrativa.
Ainda assim, há certas atividades prosaicas que são simplesmente chatas (tirar água do poço no comecinho do jogo, por exemplo) e, em alguns momentos, senti que uma ou duas ideias poderiam ter sido melhor desenvolvidas, até para termos um mínimo de profundidade mecânica. desenvolvidas um pouco mais para evitar a repetição.

Em momentos pontuais da trama, Indika precisará rezar para manter o demônio sob controle. Esta é uma mecânica tematicamente interessante que, infelizmente, é bastante subaproveitada ao longo das 4 ou 5 horas da campanha. A primeira vez que isso acontece é um momento muito legal, pois a oração afeta o ambiente, criando caminhos onde antes haviam buracos.
Uma das decisões criativas mais interessantes aparece na transição para as seções em 2D, apresentadas em pixel art. Esses momentos funcionam como flashbacks estilizados e ajudam a reconstruir o passado de Indika de forma visualmente marcante. Além disso, trazem um dinamismo inesperado, com plataforma leve e um ritmo mais acelerado. É uma quebra de formato que funciona muito bem, mesmo sem muita profundidade ou desafio.

A portabilidade do Switch chega como uma vantagem. Por ser uma experiência curta e focada em narrativa, a possibilidade de jogar em sessões menores — na cama, no Uber, no banheiro — é uma boa desculpa para quem quer continuar imerso na história densa sem precisar de longas horas na frente da TV.
Audiovisual e cinematografia
Contudo, como o jogo saiu apenas para o Switch 1, é fato que esta é a versão tecnicamente mais capada do jogo. Por ser um jogo feito na Unreal Engine 5, muitas concessões tiveram de ser feitas para o hardware bastante defasado do Switch aguentar o tranco. E ele até aguenta, mas há muitas quedas de frame, a draw distance é ínfima e o tempo todo podemos ver elementos pipocando na tela conforme nos aproximamos.

São limitações infelizes em um jogo que, no geral, é visualmente bem impressionante. O jogo entrega modelos de personagens realistas, cenários amplos e caprichados e belos efeitos de iluminação. INDIKA me lembrou Hellblade no sentido de querer ser bem cinematográfico.
A trilha sonora, por outro lado, é uma escolha mais arriscada. Em boa parte do tempo ela funciona muito bem, criando uma atmosfera melancólica e opressiva. Porém, há momentos em que o jogo opta por músicas inesperadas, quase caricatas, que quebram completamente o clima da cena — e certamente foi proposital. Nem sempre isso funcionou (para mim), mas reconheço que a intenção artística é clara: provocar estranhamento.
Conclusão
INDIKA é um jogo ousado, provocativo e até um tanto incômodo. Por vezes engraçado, por vezes cruel e melancólico. É um jogo que não é para todos, mas cada decisão tomada pelos produtores parece calculada, deliberada, para contar a história que eles queriam, do jeito que eles queriam.

É um jogo que pode ser entediante, mas também pode ser filosófico e reflexivo. Sua temática é fascinante, ainda que seu gameplay nem sempre acompanhe o ritmo. É experimental e imperfeito, mas corajoso e arrojado. E, honestamente, prefiro um jogo imperfeito que ousa do que um polido que não tem nada a dizer.
INDIKA está disponível para PC, Playstation 5, Xbox Series e, agora, Nintendo Switch. O game possui menus e legendas em PT-BR.