Análise Arkade – Kaku: Ancient Seal, um RPG de ação genérico, mas competente

Kaku: Ancient Seal é um jogo que chama a atenção logo de cara pelo seu visual. Fica claro que não se trata de um legítimo triple A, mas o título da desenvolvedora chinesa Bingobell é ambicioso, e se encaixa confortavelmente naquela faixa dos chamados double A’s; produções que, mesmo sem o orçamento astronômico dos grandes estúdios, entregam experiências completas, bem acabadas e com personalidade.
Dito isso, será que ele é um bom jogo? Depois de passar mais de 12 horas com ele, eu posso lhe dizer que: sim e não. Calma que essa opinião vai ficar mais clara ao longo da nossa análise, então fica comigo e confia.
Uma jornada épica (e clichê)
A trama de Kaku: Ancient Seal funciona, mas está longe de ser criativa ou original. O protagonista é Kaku, um jovem pré-histórico que vive de forma isolada nas montanhas. Certo dia, ao sair em busca de seu companheiro Porquin — um simpático porquinho voador — ele acaba cruzando o caminho de um velho ermitão que, claro, logo lhe pede ajuda em uma missão grandiosa. Esse encontro desencadeia a clássica profecia: o velho acredita que Kaku pode ser o escolhido para salvar o mundo de uma misteriosa corrupção que ameaça destruir tudo.

Como se isso já não soasse familiar o bastante, a salvação do mundo envolve reunir quatro relíquias elementais espalhadas por diferentes regiões. Cada uma delas representa um bioma tradicional dos videogames: o deserto árido e escaldante, a montanha de fogo com lava por todos os lados, os picos congelados e cobertos de neve e um pântano repleto de gosmas venenosas. Ah, e eu nem mencionei que Kaku pode se transformar em uma espécie de Super Saiyajin encapuzado, né? Como pode ver, o que temos aqui é o típico roteiro ao estilo “o escolhido” com ideias que já vimos em milhares de outras obras.

Ainda assim, há algum charme na simplicidade. Os personagens são carismáticos, as cutscenes têm boa direção e o jogo sabe dosar humor e leveza entre uma missão e outra. No entanto, quem entra em Kaku: Ancient Seal esperando uma história envolvente ou um desenvolvimento marcante pode se decepcionar, ainda que os mais nostálgicos possam traças paralelos com jogos do início dos anos 2000, como Jak and Daxter ou Beyond Good & Evil.
Gameplay
Em termos de gameplay, Kaku: Ancient Seal é um jogo de exploração e aventura que mistura combate, mundo aberto e resolução de puzzles. O início da jornada é relativamente linear, servindo como uma introdução às mecânicas. Porém, após desbloquearmos os quatro biomas principais, o jogo se abre consideravelmente.

Cada um desses mapas é um mundo aberto de tamanho razoável, com uma boa variedade de atividades. Você escolhe em qual ordem vai desbravá-los, o que traz uma sensação de liberdade interessante e faz com que a aventura flua no seu ritmo. Em cada área, há objetivos principais e secundários, sidequests, desafios e uma boa dose de exploração livre.
O combate é bem direto ao ponto e combina ataques melee com clavas e tacapes, com um sistema de tiro em terceira pessoa utilizando um estilingue. Essa arma pode ser carregada com bolotas elementais, que adicionam efeitos como fogo, gelo ou eletricidade aos disparos , permitindo causar diferentes status nos inimigos. É um sistema fácil de aprender, que vai ganhando novas camadas conforme subimos de nível em uma árvore de habilidades, sem nunca se tornar demasiado profundo ou complexo.

Enquanto exploramos, podemos encontrar não só bandos de inimigos, como também itens colecionáveis chaves que nos dão acesso a um conjunto de dungeons, as Ruínas Subterrâneas, que funcionam de forma mais ou menos parecida com os shrines de Zelda: Breath of the Wild. Na prática, somos transportados para uma área isolada do mapa, onde vamos ter de superar um desafio específico (tipo um puzzle, uma arena de inimigos ou um percurso repleto de obstáculos) para receber uma recompensa ao final.
Dungeons e irregularidades
Como você deve ter percebido, Kaku: Ancient Seal não tenta reinventar a roda, e é até um pouco derivativo, mas faz isso com o mínimo de capricho para que a experiência de jogo não seja mal acabada ou quebrada. A combinação de exploração, combate e puzzles, aliada ao sistema de dungeons, consegue criar uma experiência que é variada o suficiente para entreter o jogador.

No entanto, depois de algumas horas, é fato que o ritmo se torna irregular. O jogo alterna bons momentos de progressão e exploração com trechos mais arrastados, e o combate pode acabar repetitivo em sua simplicidade. O excesso de sidemissions que se acumulam no questlog é outro ponto que pode aborrecer o jogador que esperava uma experiência mais guiada.
Outro ponto: o sistema de evolução é burocrático, exigindo que o jogador vá a um lugar específico para trocar seu XP por melhorias. Ir para esse lugar envolve usar uma espécie de teleporte do nosso companheiro Porquin, o que acarreta em uma ceninha de teleporte e uma tela de loading. Tudo isso pra um simples upgrade em uma skill tree.

Seria mais fácil e menos trabalhoso se pudéssemos simplesmente acessar a árvore de habilidades diretamente pelo menu — ou nos totens de checkpoint. É uma questão de qualidade de vida que passou batida e, por consequência, quebra um pouco o ritmo do jogo por exigir constantes idas e vindas do jogador.
Audiovisual
Visualmente, Kaku: Ancient Seal é impressionante, especialmente por seus cenários, que são belíssimos e variados, exibindo uma direção de arte ambiciosa que deixa claro que houve um investimento considerável em design de ambientes. Cada bioma tem personalidade própria e foi construído com um capricho evidente, o que dá ao jogo uma identidade visual forte, mesmo dentro das limitações de um double A.

Ainda assim, há momentos em que o jogo transmite uma certa sensação de “tech demo” — aquela impressão de que o personagem foi colocado em um asset pronto da Unreal Engine que é muito mais realista do que o resto do conjunto, sabe? Algo desse tipo aconteceu com Sonic Frontiers: um personagem estilizado inserido em uma paisagem mais realista que confunde os sentidos e quebra a imersão. Kaku: Ancient Seal sofre um pouco desse efeito.
Felizmente, essa sensação tende a desaparecer conforme a aventura avança. À medida que avançamos e desbravamos outros biomas, fica claro que existe, sim, uma coesão artística sólida. O uso de cores, iluminação e texturas é consistente, e há um cuidado notável com cada ambientação: cada área tem seu próprio tom, clima e atmosfera, o que reforça o senso de descoberta e aventura que são os pontos mais positivos do jogo.

As animações, embora boas, às vezes parecem um pouco rígidas, especialmente em confrontos mais caóticos. A trilha sonora também não é realmente memorável, mas cumpre seu papel. A falta de uma dublagem é sentida — a maior parte dos diálogos se dá por meio de textos e imagens estáticas. Nada que comprometa a experiência, mas é visível que o jogo tem um pé mais firme no terreno dos indies ambiciosos do que no dos grandes blockbusters.
Conclusão
Ainda que dê suas escorregadas, Kaku: Ancient Seal pode ser uma boa pedida para quem busca uma aventura leve e acessível. Ele é um jogo que não tenta reinventar nada, e justamente por isso pode funcionar para quem gosta de experiências familiares — mesmo que um tanto derivativas. A história é clichê, as mecânicas são conhecidas e boa parte do que está aqui já foi feito antes — muitas vezes, de forma mais refinada –, mas isso não impede que o conjunto seja agradável.

É verdade que ele tropeça em aspectos como repetição, design um pouco burocrático e escolhas que nem sempre priorizam a fluidez da experiência. Mas, se você souber relevar esses detalhes e entrar na proposta com o espírito certo, vai encontrar um jogo simpático, cheio de boas intenções e com momentos realmente cativantes.
O ponto mais forte do jogo talvez seja o senso de descoberta. A estrutura semiaberta funciona bem, com muitos segredos, tesouros e puzzles escondidos em praticamente todos os cantos, o que pode ser estimulante (ou te fazer sentir sobrecarregado) — aí vai muito da sua forma de encarar o jogo.

No fim das contas, ainda que tenha apontado diversas escorregadas, saio conseguindo enxergar o game com bons olhos. Kaku: Ancient Seal é um jogo que entende seus limites, mas também sabe aproveitar suas qualidades. Não é marcante, mas é honesto — e às vezes, isso já é o bastante para valer a jornada.
Kaku: Ancient Seal está disponível para PC, Playstation 5 e Xbox Series. O game possui menus e legendas em português brasileiro.