Análise Arkade – Karma: The Dark World, um misterioso e confuso terror psicológico

Como alguém que aprecia os videogames como uma mídia para contar histórias, eu sempre gosto de jogos de terror atmosféricos, com foco em narrativa. Nada contra dar pipocos em zumbis ou usar bazucas em chefões, mas eu realmente acho que uma boa experiência de terror se vale muito mais da ambientação e da história do que qualquer outra coisa.
Mesmo jogos que nem sem são assim tão bons acabam se destacando para mim. Caso de Layers of Fear, por exemplo, que é basicamente uma montanha-russa de terror disfarçada de walking simulator, mas eu realmente gosto da forma como ele se apresenta. Mas não é sobre Layers of Fear que vamos falar hoje, mas sobre Karma: The Dark World.
Karma: The Dark World
Fiz toda essa intro porque Karma: The Dark World lembra um pouco Layers of Fear — pelo menos nessa premissa de ser um walking simulator de terror que transforma o cenário e faz coisas sinistras acontecerem quando o jogador não está olhando”. Porém, ele insere estes elementos em uma narrativa mais conspiratória, com nuances de distopia retrofuturista e uma trama de investigação tecnológica/paranormal, com fortes influências do livro 1984.

Descrito pela distribuidora como um “first-person cinematic psychological thriller“, o game nos coloca na pele de Daniel McGovern, um investigador da Agência do Pensamento da Leviathan que utiliza uma tecnologia avançada para entrar na mente de suspeitos e revirar suas memórias a fim de elucidar crimes.
Boa parte do jogo envolve justamente isso: entrar na mente de suspeitos que estão sendo interrogados em busca de pistas. O lance é que, existe uma IA onipresente — a “mãe” monitorando tudo. E quando as coisas começam a ficar sinistras nestes nossos passeios pelo subconsciente, surgem os questionamentos: será que estamos realmente fazendo a coisa certa?

Karma: The Dark World é um jogo confuso. Ele demora para começar a fazer sentido, e mesmo quando faz, nunca é algo explícito, deixado claro. Não digo isso como um demérito, mas para sinalizar que se você quer respostas e uma história bem amarradinha, não é o que vai encontrar aqui. Mas, sem dúvida temos um roteiro denso, que questiona memória, identidade e controle social.
Jogando Karma: The Dark World
Em se tratando de gameplay, não espere nada muito elaborado. Como eu já adiantei, este é um walking simulator de terror, então boa parte da nossa interação com o jogo se resume a caminhar, abrindo gavetas, lendo documentos e coletando itens que podem (ou não) ser úteis.

Porém, ele também tem puzzles. Alguns deles são um tanto óbvios — tipo a senha numérica que destrava uma gaveta, por exemplo — outros são tão abstratos quanto o jogo em si. Vai acontecer, por exemplo, de você ficar preso em um loop em um ambiente com várias portas — mas as coisas só vão andar conforme você entra nas portas certas, na ordem correta.
Em nosso papel de investigador, também vamos nos deparar com algumas escolhas morais. Infelizmente, tais escolhas não parecem ter impacto real na trama, uma vez que, até onde pude notar, a narrativa acaba seguindo um caminho pré-estabelecido.

E, claro, também existem os momentos de terror, onde vamos ter que fugir de uma monstruosidade sinistra — que representa o karma em si — ou enfrentar (indiretamente) os medos dos personagens. Não espere nada muito elaborado: vamos basicamente correr por cenários labirínticos, ou usar um item específico para vencer os “chefes”.

Repetindo o que eu já disse ali em cima, Karma: The Dark World é um jogo confuso. Ainda que a jornada seja estritamente linear, nem sempre fica claro qual é nosso objetivo, para onde estamos indo, ou mesmo o que estamos fazendo. Talvez essa “desorientação” seja parte da proposta — e se for, ela cumpre seu papel.

Um último ponto que acho válido ressaltar: Karma: The Dark World tem um ritmo muito próprio — lento, comedido. É o tipo de jogo que exige paciência, podendo ser até um pouco entediante entre um momento de tensão e outro.
Audiovisual
Produzido na poderosa Unreal Engine 5, Karma: The Dark World é um jogo bem impressionante visualmente, oferecendo uma experiência imersiva que combina realismo distópico com surrealismo psicológico. Ao mesmo tempo em que o visual hiperrealista ancora o jogo no mundo real, isso torna suas distorções e bizarrices ainda mais assustadoras quando ocorrem.

Por mais que as figuras humanas do jogo não sejam 100% realistas (há algo de caricato em alguns traços, tipo narizes muito grandes ou bigodes exagerados), elas são muito detalhadas. Há cenas muito dramáticas, que ganham força pela qualidade dos modelos.

A trilha sonora e o design de som são incríveis, e ajudam na construção do clima e na ambientação. Sempre vai haver algum ruído, sussurro ou batida inesperada para deixar o jogador sempre alerta. É um daqueles jogos para curtir no escuro, com um bom par de headphones.

Vale ressaltar que o game possui menus e legendas em português brasileiro — algo muito útil, considerando a quantidade de textos, audiologs e diálogos (as dublagens, aliás, são bem competentes). Jogando no PS5, o game rodou suave, sem bugs ou engasgos.
Conclusão
Karma: The Dark World não é um jogo para todos – e nem tenta ser. Com forte apelo visual, ambientação densa e uma proposta narrativa propositalmente vaga e confusa, ele aposta em uma experiência mais subjetiva, e um terror muito mais situacional.

Ainda que se sustente por sua atmosfera de mistério e instigue a curiosidade do jogador, fique avisado que ele não necessariamente traz respostas para todos os questionamentos que levanta. Muita coisa fica nas entrelinhas, aberto à interpretação do jogador.

É um jogo por vezes entediante e confuso, mas sempre misterioso e inquietante. Seu audiovisual é um show à parte, e contribui para criar uma ambientação realmente envolvente e imersiva, que faz valer a experiência — ainda que com ressalvas.
Karma: The Dark World está disponível para PC, Playstation 5 (versão analisada) e Xbox Series.