Análise Arkade: Moroi mistura criatividade e desafios em uma estética baseada no folclore romeno

Poucas distribuidoras de games atualmente possuem uma curadoria de conteúdo tão cheia de personalidade como a Devolver Digital, não é mesmo? Sempre com jogos muito criativos e disruptivos, a distribuidora não decepciona quando coloca sua marca em algum jogo. Com Moroi, que chega hoje ao Steam, não é nada diferente disso.
Moroi está sob o selo Big Fan, criado pela própria Devolver, e foi desenvolvido pela Violet Saint, uma desenvolvedora suíça que está debutando no mercado com este game. O jogo em si é um hack n’ slash com visão isométrica e muito focado em uma narrativa própria. Prepare-se pra muitos puzzles e um nível de desafio pra deixar qualquer fã de Souls-like de cabelo em pé!

Uma prisão de fantasia
Moroi é um daqueles jogos que a gente começa sem muito contexto, com a história sendo descoberta aos poucos, no decorrer da exploração. Nosso protagonista perdeu a memória e encontra-se em uma prisão macabra e bem estranha. Conseguindo fugir de sua cela, já nos deparamos com a primeira sequência de puzzles do game, no qual precisamos auxiliar (ou não) vários outros elementos presentes nas demais celas da prisão.
O mais curioso da narrativa de Moroi é justamente o estranhamento que ela causa — quase como se fosse uma fábula dos Irmãos Grimm — ao mesmo tempo em que aguça nossa curiosidade a todo momento. Isso porque, através dos diálogos com diversos NPCs, vamos entendendo aos pouquinhos o que de fato está acontecendo no enredo, mas sempre que uma pergunta é quase respondida, outra surge no lugar.

Isso pode desanimar aqueles que curtem uma história mais linear, mas é um prato cheio para quem gosta de fábulas, mistérios e uma temática mais nebulosa, narrativamente falando. Isso sem contar nos tons irônicos e caricatos que os diálogos possuem. Diálogos esses que estão muito bem localizados para o português brasileiro, diga-se de passagem.
Moroi acaba sendo uma jornada tanto de fuga quanto de descoberta, na qual aos poucos a história e os motivos de estarmos ali vão sendo construídos enquanto matamos inúmeros inimigos, resolvemos diversos puzzles… e morremos bastante pelo caminho.

Desafiador até no modo fácil
Para os amantes de dificuldades elevadas, Moroi é um prato cheio e muito bem temperado. Isso porque o jogo não é complexo e cheio de mecânicas em camadas. Na verdade ele é bem simples no quesito gameplay, com um combate que mistura elementos de action RPGs no estilo Diablo com um sistema semelhante à estamina dos Souls-likes — e uma pitada de bullet hell aqui e ali.
Com isso o jogo já deixa claro que sua dificuldade está muito mais nos reflexos e respostas rápidas do jogador do que em mecânicas complexas que dificultam a jogatina. Particularmente gosto bastante disso, pois segue um pouco aquela filosofia de jogos clássicos de “fácil de aprender, difícil de dominar”. Moroi abraça tanto essa filosofia que, mesmo deixando o jogo no modo fácil, ainda é bem possível (e provável) morrer um bocado durante o percurso.

Outro elemento dificultador é o próprio ambiente no qual estamos inseridos. Moroi quer dar ao jogador uma sensação de claustrofobia misturada com insanidade, com ambientes labirínticos e propositalmente confusos e mal iluminados, a fim de deixar o jogador desorientado.
Este é um jogo que pode agradar muito aos amantes de desafios, mas que também pode causar alguma frustração no processo. Sua campanha possui pouco mais de uma dezena de capítulos, mas eles possuem diversas resoluções, que podem levar a muitos finais diferentes. Isso se você tiver a resiliência de chegar ao final, pois aqui temos aquelas mortes que dão vontade de tacar o controle na parede.

Gore pra dar e vender
Já falei aqui que Moroi traz uma estética bem peculiar, baseada no folclore romeno. Mas esse é um folclore bem sangrento e apelativo, diga-se de passagem. No jogo você vai enfrentar exércitos de magos, guardas de palácio e mortos-vivos variados. Além de fazer amizade com patos cheios de dentes, esqueletos músicos, humanos desmembrados e muito mais esquisitices por aí.
Tudo isso é apresentado em uma estética bem gore, com muito sangue, vísceras e outras nojeiras . A título de exemplo — mas sem dar spoilers da trama do jogo –, em determinado momento você pode fazer uma missão para um pato aprisionado. Como recompensa, ele arranca todos os dentes da própria boca e lhe entrega. Esses dentes então serão utilizados para melhorar nossa arma, deixando-a mais macabra e letal.

Toda essa atmosfera pesada é contrastada com diálogos bem cínicos e cômicos, que dão um humor mórbido e sutil para a trama e, ao meu ver, concedem charme e personalidade ao jogo. Quer dizer, isso se é que podemos usar a palavra “charme” num jogo onde precisamos vomitar na boca de outro personagem para completar uma determinada missão.
O calcanhar de Aquiles: controles
Talvez minha única crítica e ponto negativo a Moroi seja sobre seus controles. Mesmo que se trate de um jogo de puzzles e combate frenético, os controles são um pouco arcaicos ao meu ver. Sinto que tentaram fazer algo “diferentão”, mas acabou ficando um tanto desconfortável, principalmente jogando no controle.

Explicando: movimentamos nosso personagem com um analógico e controlamos seu ângulo de visão com o outro, ao mesmo tempo em que batemos com os botões “de ombro” do controle. Até aí, nada demais. Porém, o ângulo dos ataques é um fator determinante, e nem sempre é fácil identificar para que lado estamos olhando — é preciso prestar bastante atenção para garantir que seus ataques não sejam desperdiçados.
Isso, em um jogo com ataques baseados em estamina extrapola um pouco o quesito dificuldade e passa a ser só uma pedra no sapato mesmo. Talvez o jogo se beneficiaria de uma ausência total de estamina, abraçando mais o estilo frenético de um bullet hell e deixando de lado o Souls-like. Mas, como comentei antes, isso pode ser um diferencial para você amar (ou odiar) os combates de Moroi.

Quando jogamos com teclado e mouse as coisas melhoram um pouco, já que controlamos nosso personagem no tradicional WASD e seu ângulo de visão fica mais responsivo no mouse. Porém, com os combates mais difíceis e chefes, isso ainda pode vir a ser um problema. Bem mais administrável, mas ainda é (mais) um elemento dificultador em um jogo que já é bem difícil.
Uma jornada de paranoias que vale a pena
Moroi definitivamente não é um jogo para todos. Seja pela sua estética horripilante, por sua narrativa difusa e cheia de mistérios, ou por sua jogabilidade desafiadora, ele definitivamente não vai agradar todos os públicos.
Mas, nada disso faz dele um jogo ruim, muito pelo contrário. É um game divertido e instigante, que nunca cai no marasmo, com boas ideias e muitas personalidade. O gameplay “tropeça mas não cai” — e quem sabe algum patch de lançamento melhora as coisas.
É um jogo sombrio e imersivo, feito para quem tem estômago e uma predileção por experiências um pouco mais bizarras. Se esta combinação lhe agrada, você já tem ótimas desculpas para conhecer Moroi.
Moroi lança hoje, dia 30 de abril, somente para PCs (via Steam).