Análise Arkade: Patapon 1+2 Replay e o hipnótico ritmo da estratégia tribal

19 de julho de 2025

Sabe aqueles jogos que você conhece “de longe” e tem curiosidade de experimentar, mas por alguma razão, nunca teve a oportunidade de jogar? Foi o meu caso com a série Patapon. Lançada originalmente para o PSP em meados dos anos 2000, a série sempre chamou minha atenção pelo visual minimalista e charmoso, e também pela proposta inusitada de misturar ritmo com estratégia em tempo real.

Eis que, em pleno 2025 — quase duas décadas depois de seus lançamentos originais –, a Bandai Namco lança a coletânea Patapon 1+2 Replay, e finalmente me dá a chance de preencher essa lacuna no meu “currículo gamer”. E é sobre isso que vamos falar hoje!

Contexto, estratégia e ritmo

Mas, antes de mergulharmos na análise propriamente dita, vale fazer um breve panorama do que é Patapon. Trata-se de uma mistura bastante incomum (e divertida) de gêneros em que a batida dos tambores de guerra dita o avanço de nossas tropas ao longo de dezenas de fases 2D lineares.

Na prática, assumimos o papel de uma divindade cuja missão é guiar a tribo dos Patapons, perdida em terras hostis e desconhecidas, de volta para sua terra natal. Para ajudá-los a encontrar o caminho de volta para casa, usamos tambores de guerra sagrados que são o cerne da experiência Patapon: a ideia é executar com precisão sequências rítmicas com até quatro tambores diferentes.

Pata-pata-pata-pon

Cada tambor é mapeado em um botão do controle — no caso do Switch, usamos Y, X, B e A — e a proposta é que cada sequência de botões corresponde a uma ação específica, sendo marchar (pata-pata-pata-pon), atacar (pon-pon-pata-pon) e defender (chaka-chaka-pata-pon) as mais básicas.

Com o tempo, sequências mais elaboradas vão surgindo, cumprindo diferentes objetivos testando a memória e a precisão rítmica do jogador, que deve comandar suas tropas sem perder o compasso.

Patapon 1 e 2 compartilham uma base de gameplay bastante similar, com evoluções mais perceptíveis na variedade de unidades do que nas mecânicas em si. A principal novidade apresentada por Patapon 2 é a adição das unidades heroicas: Patapons especiais, muito mais poderosos, que se juntam à sua tribo para fortalecer suas tropas.

Além das missões de progressão e combate rítmico, os jogos também apresentam um sistema leve de gerenciamento de base. É preciso reunir recursos, alimentar a tribo e desenvolver a aldeia dos Patapons, garantindo que eles tenham estrutura suficiente para continuar sua jornada.

Grinding e repetição

Esse equilíbrio entre batalhas estratégicas e desenvolvimento comunitário dá ao jogo uma camada extra de profundidade que, ainda que interessante em termos de variedade de conteúdo, carrega um de seus principais problemas: o excesso de grinding.

Somados, Patapon 1 e 2 tem quase 120 fases. Bastante, certo? Pois é, mas mesmo assim ambos os jogos exigem que o jogador repita algumas fases para farmar e acumular os recursos necessários para desenvolver estruturas, criar unidades e prosseguir.

Considerando que as fases têm estrutura similar e a jogabilidade rítmica é repetitiva em sua essência, essa necessidade de grinding torna a experiência cansativa. Foi especialmente desgastante fazer isso jogando os dois títulos em sequência — eu já estava virando um zumbi com tanto pata-pata-pata-pon.

Recentemente ouvi num podcast alguém definir Patapon como um “Monster Hunter de ritmo”. E, salvo as devidas proporções, essa analogia faz sentido. Em Monster Hunter você precisa caçar os mesmos monstros repetidamente para juntar recursos e criar armaduras. Aqui você também precisa revisitar as mesmas missões diversas vezes a fim de acumular recursos para suas tropas e seu acampamento. A diferença é que, em Patapon, tudo isso acontece ao som de batidas tribais e cantos de guerra.

Audiovisual e o “fator coletânea”

Aqui não há muito do que reclamar. A estética minimalista de Patapon continua sendo extremamente charmosa, e quase nada foi alterado visualmente. Os jogos receberam uma bem-vinda remasterização, mas mantêm intacta a essência do visual original, com um traço estilizado, recortes simples e a identidade visual que é marca registrada da franquia. É um estilo rico em sua simplicidade, e continua funcionando muito bem até hoje.

o departamento sonoro é impecável. Como se trata de um jogo de ritmo, é natural que o som tenha papel fundamental na experiência, e Patapon acerta em cheio nisso. As músicas mais básicas, como a de avançar ou a de ataque, grudam na cabeça de um jeito quase hipnótico. As vozinhas dos Patapons entoando seus cânticos de guerra e todos os efeitos criam uma experiência sonora muito marcante, que garante muita identidade ao jogo.

Por outro lado, como estamos falando de uma coletânea, fica um gosto de que poderia haver mais conteúdo. O que temos aqui são os dois jogos relançados “no seco”, sem grandes extras ou aprimoramentos além da remasterização gráfica, nem adição de algum tipo de acervo ou museu virtual.

Sendo justo, houve a adição de opções de dificuldade e ajustes no tempo de resposta dos tambores — opções de acessibilidade minimamente necessárias — mas é só. Não houve nem um mínimo esforço de localização (os jogos trazem menus e legendas em inglês).

Talvez a Capcom tenha me deixado mal-acostumado com suas coletâneas recentes recheadas de materiais extras (artes conceituais, músicas, manuais digitalizados e outros mimos) que celebram a história dos jogos apresentados. Em Patapon 1+2 Replay, nada disso está presente. Faltou um cuidado maior em reapresentar a marca para novos públicos e, principalmente, em celebrar seu legado com mais carinho.

E já que falamos em legado, é impossível não notar a ausência de Patapon 3. Se a franquia é uma trilogia, por que não trazer o pacote completo de uma vez? Entendo que , por ser um jogo mais robusto, talvez o terceiro jogo esteja sendo guardado para um lançamento posterior. Mas ainda assim, para uma coletânea, deixar um capítulo inteiro de fora parece um desserviço.

Conclusão

Patapon 1+2 Replay é uma ótima forma de revisitar (ou conhecer) dois clássicos que marcaram época no PSP. Não há aqui grandes avanços em termos de melhorias de qualidade de vida, nem recursos modernos que costumamos ver nesse tipo de relançamento.

Sem muito recheio, a coletânea preserva muito a experiência original, com toda a essência do que foi jogar Patapon no primeiro portátil da Sony — experiência esta que segue forte jogando no Switch, em modo portátil.

A verdade é que, depois desta maratona, cheguei à conclusão que Patapon diverte, mas cansa. As fases seguem uma estrutura muito similar e o(s) jogo(s) insiste(m) demais no grinding como forma de progresso. Repetir missões não por querer melhorar, mas por obrigação, para acumular os recursos necessários para avançar torna-se um teste de paciência.

Ainda assim, a experiência foi positiva. Como fã de jogos de ritmo e alguém que tinha muita curiosidade em conhecer essa franquia, fico feliz em constatar que Patapon realmente entrega algo único: uma mistura charmosa e criativa de ritmo e estratégia que ainda brilha, tantos anos depois. Considerando o carinho da comunidade pela franquia, porém, era de se esperar um pouco mais de capricho em uma coletânea.

Patapon 1+2 Replay está disponível para PC, Playstation 5 e Nintendo Switch (versão analisada).

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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