Análise Arkade: Saborus, o jogo de terror brasileiro da galinha fugindo do matadouro

1 de dezembro de 2025

Saborus é um jogo que me deixou curioso desde o início. A ideia de controlarmos uma galinha tentando fugir de um matadouro é absurda (no bom sentido) e carrega uma mensagem forte. Mas será que isso se converte em um jogo bom? Vamos descobrir!

Fuga das galinhas

Saborus já começa com um aviso de conteúdo sensível, e não mede esforços em oferecer uma experiência grotesca e até um pouco chocante. Por obra do acaso, nossa galinha escapa da “fila” do abatimento, porém, ainda está presa em um matadouro. E nossa missão passa a ser sair de lá.

A história, por mais rasa que seja, procura ser crítica com a indústria de carne e empática com os animais. É um território perigoso, pelo qual o jogo até transita bem ao injetar humor controverso e um tom de conspiração por trás da companhia Saborus — mais do que um abatedouro, há algo de sinistro acontecendo ali.

Mesmo com elementos narrativos que são mais fantasiosos do que realistas, o jogo impacta pela crueza com que representa toda a situação. Há linhas de produção com galinhas mortas dependuradas de cabeça para baixo, salas frigoríficas com grandes pedaços de carne sangrentos presos por ganchos e até laboratórios onde experimentos que deram errado estão expostos. Não há uma grande história sendo desenvolvida, mas ela vai impactar especialmente os conspiracionistas e detratores da indústria agropecuária.

Agindo (e pensando) como uma galinha

Em termos de jogabilidade, Saborus mistura stealth leve, puzzles ambientais simples com sequências de plataforma e perseguição. Como não controlamos uma “super galinha” — nossa ave não tem habilidades especiais nem usa armas –, nossas interações com o mundo são restritas ao que uma galinha comum (em teoria) faria.

Por exemplo, podemos bicar objetos, carregar um item por vez usando o bico, voar curtas distâncias (de forma desengonçada) esgueirar-se por dutos e aproveitar espaços onde um humano não cabe. Além disso, uma galinha não sabe ler, então esqueça mapas, tutoriais ou instruções mais claras.

Essas limitações são interessantes do ponto de vista lúdico, porém podem se tornar empecilhos por um motivo muito simples: dentro do matadouro, há muitos corredores iguais e ambientes parecidos, de modo que a sensação de estarmos em um labirinto é grande. Sei que isso deve fazer parte da proposta, mas como jogador (não como galinha) sinto que o jogo me deixou mais perdido do que eu gostaria.

Não parece que aquela luz verde indica uma saída? Pois é, mas nem tem como chegar lá

Isso vale também por conta de questões equivocadas de level design. Por exemplo, a gente sempre aprendeu que uma luz verde significa “siga”, enquanto a luz vermelha, em geral, é um aviso de “pare” ou alerta de perigo iminente. Aqui, vemos luzes dessas cores sendo usadas de forma leviana, sem qualquer intenção de dar uma pista ao jogador (imagem acima). O resultado: confusão e sensação de não saber para onde ir.

Felizmente, os puzzles e desafios não têm complexidade exagerada. Em, geral vamos carregar baterias para acionar equipamentos, manipular painéis de controle, “hackear” terminais de computador (basicamente andando sobre os teclados), abrir caminhos que contornem ameaças ou se esgueirar por dutos e espaços pequenos. A tensão não vem de mecânicas elaboradas, mas de saber que estamos vulneráveis em um ambiente hostil.

Galinha hacker

Em momentos de fuga e perseguição, quando os humanos surgem ou as máquinas ganham vida, a sensação de pressa e impotência domina. Novamente, o level design labiríntico pode atrapalhar, mas é interessante como precisamos “pensar como uma galinha”, visto que não há possibilidade de confrontamento. A galinha corre de forma desajeitada, escorrega, tropeça, voa por curtas distâncias — e cada animação entrega vulnerabilidade real de um animal encurralado.

Dito isso, o jogo não oferece uma experiência muito fluida: os controles de vez em quando não respondem de forma adequada, de modo que os trechos onde vamos precisar correr e fugir podem exigir diversas tentativas, o que quebra o ritmo do jogo e compromete a imersão. Além disso, a já mencionada falta de tutoriais ou orientações claras aumenta o risco de você se sentir perdido e recorrer à tentativa e erro — o que pode ser interessante ou frustrante, dependendo da sua paciência.

Audiovisual

Por um lado, Saborus acerta ao construir um ambiente industrial, claustrofóbico e cruel. O matadouro é sujo, insalubre, cheio de cantos escuros, esteiras, ganchos, máquinas aterrorizantes — tudo projetado para transmitir nojo, medo e desespero. Por outro, temos a já mencionada sensação de desnorteamento causada por ambientes muito parecidos.

A animação da protagonista merece destaque: seus movimentos desajeitados ao correr, o pulo assustado, a fragilidade de cada passo ajudam a criar empatia pela ave. Não há glamour no horror de Saborus — há desconforto, pressa e tensão, elementos potencializados pela temática de horror industrial e exploração animal.

Dito isso, é fato que o jogo não é excepcionalmente polido: há uma crueza técnica latente, mas muito evidente, que acabam puxando o jogo para baixo. Entendo que é um projeto brasileiro, de escopo pequeno, mas os problemas técnicos e de performance acabam manchando a imagem do jogo.

O departamento sonoro ajuda a construir o clima claustrofóbico, mas há ressalvas: rangidos, máquinas trabalhando, estalos, o som abafado dos nossos passos… Quando o áudio funciona bem — o que nem sempre acontece — a imersão se intensifica. Em algumas transições ou momentos de tensão, a sonoridade falha em dar o impacto esperado: há cortes abruptos ou ausência de “peso” no áudio. Vale ressaltar que, embora o idioma padrão seja inglês, o game possui localização para o português brasileiro — incluindo vozes (não espere grandes atuações).

Conclusão

Saborus é um jogo ousado. Ele tem a ambição de entregar uma experiência diferenciada de terror… mas é tudo muito experimental, e essa crueza técnica acaba comprometendo o resultado final. A atmosfera opressiva, aliada à fragilidade da protagonista, rende momentos de tensão — que acabam perdendo força por um level design confuso e questões técnicas que afetam a imersão.

É um jogo que exige paciência pela jogabilidade simples, pela falta de polimento técnico e pela própria falta de clareza inerente. Mas, para quem topa encarar um terror diferenciado, incômodo e visceral, esta “fuga das galinhas” pode render bons momentos. Só venha com as expectativas calibradas.

Saborus está disponível para PC, Playstation 5 (versão analisada), Playstation 4, Xbox One, Xbox Series X|S e Nintendo Switch.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

Mais Matérias de Rodrigo