Análise Arkade: Spirit of the North 2 é lindo e relaxante, mas também confuso e cansativo

No final de 2019, eu joguei — e analisei aqui para a Arkade — um game chamado Spirit of the North. Já no título, eu sintetizava os sentimentos que o jogo me causou: “uma mistura de relaxamento e frustração”. Quase 6 anos depois, está saindo a sequência do jogo… e os adjetivos que repeti acima continuam valendo.
A raposa e o corvo
Spirit of the North 2 nos apresenta a uma raposa (customizável) que está “presa” em uma ilha remota. Não demora para um corvo cruzar o caminho dela. Juntos, eles vão desbravar os mistérios desta ilha.

A sinopse oficial do game na Steam é mais completa do que isso, mas, como este é um jogo sem diálogos, a narrativa em si acaba sendo bastante subjetiva. Segue a sinopse: “Em um mundo antigo em ruínas, embarque na jornada de uma raposa isolada longe de casa. Com a ajuda de um sábio companheiro corvo, busque os lendários guardiões perdidos e liberte-os das garras do xamã sombrio Grimnir“.
Em meu tempo com o game — que não foi pouco — confesso que sequer vi a cara do “xamã sombrio Grimnir“. Ou se vi, não sabia que era ele.

Parte disso sem dúvida pode ser incompetência minha, mas aí também entra a literal falta de informações que permeia todo o jogo. Falemos mais sobre isso.
Maior não quer dizer melhor
O primeiro Spirit of the North era um jogo relativamente “linear”, dividido em capítulos. Cada capítulo nos colocava em uma grande área aberta e explorável, mas ele tinha essa senso de progressão mais claro.

Spirit of the North 2, por outro lado, abraça o mundo aberto. O novo jogo se passa em uma ilha imensa, que comporta diferentes biomas e (sem exagero) centenas de lugares potencialmente nem tão interessantes para visitarmos.
Ainda que a exploração pura e simples seja prazerosa, o jogo peca em nunca dizer ao jogador qual é o seu papel. Eu respeito muito games que não pegam o jogador pela mão, mas aqui vamos para um outro extremo, no qual o jogador sequer sabe para onde ir, ou o que fazer.

A curiosidade vai nos fazer encontrar runas e alguns outros itens que, quando manipulados, vão fazer algo acontecer. Mas, só curiosidade não nos ajuda realmente a progredir em um mundo tão vasto. Falta um mínimo de direcionamento, de senso de objetivo.
Sei que muitas das coisas que me incomodaram são inerentes à experiência que o jogo quer oferecer. E tá tudo bem. Não estou aqui para ficar reclamando do game, mas sabe como é: não resiste review imparcial. Estou aqui para lhe passar as minhas impressões do game, com base no meu ponto de vista. Dito isso, vou tentar traçar alguns paralelos para exemplificar.
Um paralelo com Zelda
No aclamado The Legend of Zelda: Breath of the Wild, temos basicamente um objetivo principal desde o início do jogo: salvar a Princesa Zelda. Sabemos inclusive onde ela está — na Fortaleza de Ganondorf — e podemos literalmente começar o jogo e ir direto para lá.

Não é isso que o jogo espera que a gente faça, mas ele pelo menos nos dá um norte. Vamos fazer centenas de outras coisas e viver inúmeras aventuras, mas nosso foco de longo prazo sempre está bem claro. Salvar a Princesa Zelda é, ao mesmo tempo, o pontapé inicial e o objetivo final de nossa jornada.
É um minimalismo narrativo muito elegante e funcional para a proposta do jogo. Apresenta ao jogador o que ele deve fazer, mas não lhe diz como. Falta algo assim em Spirit of the North 2: ele não nos dá nem um mínimo de informação. Nos solta no mundo, e nos deixa livres para vagar — sem saber para onde devemos ir ou o que devemos fazer.

Quase tudo o que fiz “de importante” em Spirit of the North 2, sinto que foi por acaso. Encontrei umas luzinhas que podem ser coletadas e são usadas para abrir portas. Achei um cajado que pode ser colocado na mão de uma estátua, e um par de máscaras que se encaixam em outra. Enfrentei/ajudei um corvo branco gigante em uma enorme construção circular. Despertei uma árvore ancestral que estava dominada pela corrupção.

Vivi algumas aventuras, mas quase nada disso foi intencional. Foi um misto de curiosidade, sorte e acaso que me fez esbarrar nas coisas certas, interagir com as coisas certas, visitar os lugares certos. Sinto que fui mais passageiro do que motorista em boa parte desta jornada.
Fast travel, frio e morte
Outra coisa curiosa: a ilha é dividida em diversas regiões e, em todas elas, podemos habilitar um portal de fast travel. Porém — e talvez isso seja um bug de pré-lançamento (ou não) — o jogo me permitia viajar mesmo para regiões que eu ainda não tinha visitado, e muito menos habilitado o portal (e que, na verdade, apareciam com um cadeado na escolha de locais).

Isso deu origem a algumas situações peculiares. Há lugares com neve, onde nossa raposa morre de frio muito rapidamente. Há lugares corrompidos, onde sua energia vital também será consumida bem rápido. Mas, como fui parar lá “sem querer”, acabava morrendo sem nem ter condições de entender se havia como evitar tais mortes.
Trazendo novamente Zelda: nos últimos jogos, Link também pode morrer de frio, mas a gente não demora para descobrir que com fogo, roupas adequadas e poções, isso deixa de ser um problema. Mas como vou impedir que a minha raposa — cuja pelagem deveria, em teoria, proteger do frio — congele até a morte? Será que o jogo vai ter alguma runa para isso? Ou a neve vai derreter? E a corrupção, vai sumir? Não sei, pois Spirit of the North 2 não explica nada.

E sabe o que é pior? Por alguma razão, os desenvolvedores acharam que seria uma boa ideia colocar nesta sequência uma mecânica de corpse run — que é quando você morre e derruba seus itens e XP acumulados, tendo que voltar até onde caiu para recuperá-los.
Aqui nem é tanto uma questão de inventário ou XP, mas das luzinhas coletáveis que usamos para praticamente tudo (acionar mecanismos, abrir portas, ativas obeliscos, comprar itens, etc). E quando você morre em uma das situações que descrevi acima (de frio ou por corrupção), voltar lá para recuperar suas posses não é uma boa ideia, pois a chance de acabar morrendo novamente no processo é grande.

Pode ser que esse lance dos portais seja um bug — mas também pode ser que não. Joguei antes do lançamento, sem guias, detonados, nem nada do tipo. Foram mais de 12 horas de muita andança, com alguns poucos momentos de clareza e muitos momentos de confusão. Se estava perto ou longe de encontrar o tal xamã sombrio, ou mesmo de concluir a campanha, não sei dizer.
Audiovisual
Spirit of the North 2 é um jogo muito bonito. Fica claro que ele não tem o orçamento de um Triple A, mas o estúdio tomou decisões inteligentes e soube investir tempo e recursos no que era realmente importante para a experiência que eles queriam passar.

A variedade de ambientes contidos em uma mesma ilha impressiona, e alguns lugares são particularmente interessantes visualmente, como um lugar onde chove o tempo todo — o brilho retumbante dos trovões refletido nas superfícies molhadas é muito legal.

A trilha sonora é um tanto tímida, mas muito bonita, fazendo um excelente trabalho para destacar momentos mais dramáticos ou emocionantes. Os sons da natureza também são ótimos, com destaque óbvio para os que são emitidos pela raposa e seu amigo corvo. Ah, e falando nisso, o jogo não recebeu localização para o português brasileiro – embora não tenha diálogos, nem uma narrativa tradicional há alguns documentos e colecionáveis.
Conclusão
Do mesmo jeito que eu gostaria de ter gostado mais do primeiro game, eu também queria ter gostado mais de Spirit of the North 2. E, novamente, eu vim de coração aberto (até por gostar de jogos protagonizados por animais), mas saio um tanto frustrado.

É uma sequência maior e mais ambiciosa, mas que apenas aumenta o escopo do primeiro jogo, sem corrigir alguns de seus problemas. Sei que há quem goste da sensação de ficar perdido e ir descobrindo as coisas aos poucos, mas sem acesso a guias e com pouco tempo para jogar, a animação é rapidamente substituída pelo tédio de vagar sem rumo.
Spirit of the North 2 é um jogo bonito e bem executado, mas que peca em algo fundamental, que é dar ao jogador as informações que ele precisa para progredir. Eu aceitaria uma premissa das mais vagas – até gosto de jogos assim – ou qualquer coisa que me ajudasse a ter algum senso de propósito, alguma conexão com aquele mundo.
Sem isso, cansei do jogo sem nem saber quão perto (ou longe) eu estava de terminá-lo.
Spirit of the North 2 está sendo lançado hoje (08/05) com versões para PC, Playstation 5 (versão analisada) e Xbox Series.