Arkade Entrevista: Tudo sobre a Nuntius Games, com o CEO Jonathan Silva

O final de março de 2025 reservou a todos nós, gamers deste nosso Brasil, um anúncio que trouxe muita curiosidade e, para ser sincero, um certo hype para o que pode significar para a produção e para a distribuição de produções nacionais tanto para o nosso mercado interno, quanto para esse mundão afora.
A Nuntius Games, parte da família Statera Studio, é a mais nova publishing house brasileira. Decidimos conversar com os responsáveis pela iniciativa para saber um pouco mais das propostas e do que podemos esperar daqui pra frente.
Gentilmente atendidos pelo CEO Jonathan Silva, a entrevista exclusiva pode ser agora conferida, na íntegra, abaixo. Espero que vocês aproveitem tanto quanto nós!
Arkade: Antes de mais nada, gostaríamos de parabenizá-los pela iniciativa, que se mostra promissora ao buscar fortalecer a produção de conteúdos independentes aqui no Brasil, valorizando-os e dando-lhes visibilidade em um cenário sempre complicado de se desbravar quando se está sozinho. E a primeira questão é sobre o posicionamento da Nuntius dentro desse mercado competitivo e quase desleal para quem produz jogos fora dos eixos mais tradicionais, como EUA, Europa, Japão e, mais recentemente, a China. É possível encontrar um lugar para os talentos brasileiros nesta briga de cachorro grande?
Jonathan Silva: Oi Arkade, antes de tudo, obrigado pelo elogio! Vamos lá.
A Nuntius tem como missão apoiar o mercado e os jogos brasileiros de maneira geral, ou seja, nosso trabalho não se limita apenas aos jogos que estão conosco, mas é um esforço em prol do crescimento da indústria como um todo. Além de atuarmos como publisher, temos o objetivo de conscientizar o público, por isso contamos com a colaboração de vários influenciadores.
É importante destacar que uma pessoa pode não gostar de um, dois ou até mil jogos nacionais, e isso é perfeitamente válido, pois existem inúmeros tipos e gêneros de jogos, com diferentes níveis de qualidade. O que desejamos é que os jogadores olhem para os jogos feitos no Brasil com orgulho e que possam julgá-los com base em seus gostos pessoais, independentemente de serem nacionais ou não. Ou seja, queremos que, aos poucos, a mentalidade e a percepção dos jogadores brasileiros para com os jogos brasileiros seja, em geral, de valorização, e para os bons jogos nacionais, exaltação. A grande verdade é que, se os jogos brasileiros conseguirem se tornar sustentáveis no Brasil, a indústria nacional atingirá um patamar altíssimo.
Então, acredito que sim, é possível, mas certamente não será algo que acontecerá da noite para o dia. O motivo de eu acreditar nisso é simples: o Brasil já é o 10º maior mercado consumidor de jogos do mundo. Contudo, existem alguns fatores que contribuem para o baixo desempenho dos jogos brasileiros no cenário global de desenvolvimento e vendas.
Por exemplo: ainda não temos o hábito de consumir o que é produzido aqui, pois uma parte dos jogadores ainda possui certo preconceito com relação aos jogos nacionais. Eu mesmo já ouvi diversas vezes afirmações como: “brasileiro não sabe fazer jogo de luta, quem entende disso são os japoneses” ou “jogo em pixel art é coisa do passado, os desenvolvedores brasileiros ainda estão presos aos anos 90”.

Arkade: Não é segredo para ninguém que a distribuição sempre foi um gargalo para a indústria cultural brasileira e taí o cinema nacional como exemplo do quão difícil é alcançar uma repercussão parecida com a de produções gringas, mesmo as de valor de produção semelhante. Ainda que tenhamos tido algumas ações com certa relevância em um passado recente aqui no país, ainda estamos longe dos holofotes interna e externamente quando comparados à máquina estrangeira. O que a Nuntius propõe de diferente de tudo o que já foi feito antes para chegar mais longe?
Jonathan Silva: A resposta a essa pergunta está ligada, de alguma maneira, à anterior, mas, sendo mais específico, nossa estratégia será trabalhar diariamente para garantir que o foco da Nuntius esteja voltado para o relacionamento humano, publicidade e marketing. Acreditamos que, dessa forma, conseguiremos alcançar, ainda que de forma gradual, mais sucesso também no mercado internacional.
Um ponto favorável que o mercado de games tem em relação ao cinema nacional é que, no caso dos jogos, o público estrangeiro geralmente não tem preconceito com produtos de outros países. Isso acontece porque, embora o jogo esteja em português, o inglês costuma ser o idioma principal, já que a maioria dos jogos brasileiros têm nomes em inglês. Assim, a principal barreira é fazer um bom trabalho de marketing e publicidade no exterior. É difícil? Sim! Mas, sendo honesto, acredito que, nesse aspecto, os jogos têm uma vantagem em relação ao cinema. E a Nuntius Games já tem alguns parceiros estratégicos no exterior.
Arkade: Outro grande entrave dos produtos brasileiros está na capacidade de investimento em marketing, na publicização do que está sendo feito, como, por quem e para quem. Não é raro mesmo nós, do jornalismo especializado, sabermos bastante (até mais do que gostaríamos) sobre um jogo de origem gringa muito antes do seu lançamento, enquanto as produções brasileiras mal chegam até nós. Quais são os planos para fazer com que tanto a mídia quanto o público comum conheçam as produções que estão sob o guarda-chuva da Nuntius, seja antes para o estabelecimento do desejado hype, seja ao longo de toda a carreira do produto? Quais são as possíveis parcerias com os veículos de comunicação, influenciadores, streamers, enfim, toda a cadeia de exposição das marcas?

Jonathan Silva: Essa é uma excelente pergunta, obrigado por fazê-la. Você tocou em um ponto extremamente importante, pois isso é algo que acontece com quase 99% dos jogos brasileiros. Na minha opinião, esse é o maior desafio do mercado nacional: a falta de uma comunicação eficaz. Sei que, muitas vezes, os desenvolvedores não têm muita disposição para se comunicar, e isso é completamente compreensível, afinal, eles estão extremamente focados no desenvolvimento do jogo. E é exatamente aí que entra o papel da Nuntius Games, pois somos os mensageiros que levam esses jogos para o mundo!
Portanto, além de contarmos com uma equipe interna de marketing e criação de conteúdo, com alguns sócios que são Youtubers, e diversos outros parceiros criadores de conteúdo, também trabalhamos em parceria com agências de PR no Brasil e no exterior, para garantir que as informações sobre os jogos sejam distribuídas corretamente e no momento certo. No final das contas, acreditamos que esse é o grande diferencial da Nuntius: a comunicação! Sempre alinhada ao relacionamento humano, de Dev para Dev, de criador para fã.
Arkade: O primeiro evento on-line da Nuntius revelou nada menos que 20 jogos em fases distintas de desenvolvimento, com alguns já lançados para ao menos uma parte das plataformas prometidas. Certamente, há coisas ainda não reveladas que devem estar em pontos menos avançados, mas vocês poderiam nos dizer o que esperar para o médio e o longo prazo? Teremos um ritmo constante de lançamentos para os próximos anos? Podemos esperar um catálogo ainda mais recheado para o futuro da distribuidora?
Jonathan Silva: Sim, temos mais duas surpresas incríveis chegando em breve, e elas não estão relacionadas a um jogo específico. Além disso, já fechamos parcerias com outros três jogos e estamos com negociações avançadas com mais dois, então é bem provável que ainda este ano realizemos outro Nuntius Showcase. Para o médio e longo prazo, nosso objetivo é ser capaz de lançar um novo jogo de alta qualidade por mês, garantindo que cada um receba a atenção e o cuidado que merece. Isso certamente será algo incrível!

Arkade: Considerando que o mercado de games tem seu caráter globalizado tão ou mais pungente do que o de outros segmentos, como a Nuntius está se preparando para levar as nossas produções para outros países? Vários dos jogos revelados no Showcase já se mostram localizados para o inglês, desde o título até o conteúdo em si, mas isso é algo que está direcionado pela estratégia de distribuição ou depende dos desenvolvedores?
Jonathan Silva: Depende dos desenvolvedores, mas, como mencionei anteriormente, isso já é algo bastante estabelecido no universo do desenvolvimento de jogos. De qualquer forma, também trabalhamos com localização de idiomas. Ou seja, além do português e do inglês, contratamos parceiros profissionais para realizar a tradução e adaptação de outros idiomas, permitindo que novas línguas sejam implementadas em nossos jogos.
Arkade: Claramente, a iniciativa tem o envolvimento de uma série de profissionais e especialistas de diferentes áreas deste grande ecossistema do mercado de games, que passa por desenvolvedores, influencers, jornalistas, administradores, enfim… Como vocês estão se preparando para a atuação destas figuras em pontos distintos da cadeia? O que podemos esperar, por exemplo, das análises e reviews destes jogos, considerando que alguns dos maiores nomes da crítica brasileira estão dentre os distribuidores, ou ao menos tem uma relação mais próxima deles?
Jonathan Silva: A verdade sempre prevalece, por isso esperamos que todos os envolvidos sejam sempre sinceros com suas opiniões, independentemente de serem pessoas que conhecemos ou não. Não adianta inventar histórias; no final das contas, a voz do público é o que realmente faz a diferença. Então espero que a grande mídia nos dê mais atenção, e que o façam de maneira justa, tanto falando bem quanto criticando, mas sempre de forma coerente.
A verdade é que o crescimento do mercado nacional não acontecerá por meio de ‘forçação’ de barra, mas sim através de jogos realmente de qualidade, que recebam uma cobertura midiática com críticas genuínas, sejam elas positivas ou negativas.

Arkade: Uma vez mais, parabenizamos a todas as pessoas envolvidas nesta grande e ousada iniciativa, e fazemos votos de que conquiste o sucesso merecido em oferecer uma estrutura organizada, de amplo alcance e que dê visibilidade para os talentos brasileiros. Deixe uma última mensagem para nossos leitores sobre o que cada um de nós pode esperar daqui pra frente.
Jonathan Silva: Muito obrigado mais uma vez, inclusive, parabéns pelas perguntas!
Meu recado é: apoie os jogos nacionais. E não é necessário apoiar todos, mas ao menos dê uma oportunidade para aqueles que chamaram sua atenção. Coloque-os na lista de desejos, é gratuito e ajuda muito os desenvolvedores com os algoritmos das lojas. E quando o jogo for lançado, compre-o, especialmente no lançamento, pois isso também ajuda bastante com esses algoritmos.
Além disso, se você quiser, depois de jogar, deixe um comentário na página do jogo, seja elogiando ou apontando algo negativo. Sua opinião importa e, mais uma vez, ajuda com os algoritmos. É algoritmo para todo lado, hahaha! Obrigado a todos que leram até aqui, eu espero que vocês deem uma oportunidade e aproveitem os jogos da Nuntius Games.
Uma vez mais, agradecemos à equipe de marketing da Nuntius Games pela disponibilidade, e principalmente ao Jonathan Silva pela entrevista. Quem quiser conferir novamente (ou quem sabe, ver pela primeira vez se deixou passar) a conferência de estreia da Nuntius, bem como a lista completa de jogos anunciados, está tudo AQUI. E não deixe de passar também pelo site oficial, para não perder nenhum detalhe do que vem por aí.