Lisa, a Iconoclasta: o episódio de Os Simpsons que mostra por que mantemos mitos mesmo quando a verdade é diferente

No episódio Lisa, a Iconoclasta, da sétima temporada de Os Simpsons, exibido originalmente nos EUA em 18 de fevereiro de 1996, Lisa Simpson descobre algo que muda sua visão sobre a história da cidade e o seu fundador, que além de dar nome a cidade, é venerado como um “grande patriota”.
Enquanto pesquisa para um trabalho escolar sobre Jebediah Springfield, o fundador da cidade que vai celebrar seus 200 anos de vida, ela encontra documentos que revelam a verdade: o homem reverenciado como pioneiro heroico era, na realidade, o pirata Hans Sprungfeld. Ele fugiu depois de tentar matar George Washington, odiava os moradores que viriam a formar a cidade e inventou feitos como domar um búfalo (na verdade, o animal já estava domado).
E como estamos falando de Lisa Simpson, é claro que ela não ia ficar calada e nem guardar isso com ela. Ela tenta contar para a escola, para o curador do museu histórico Hollis Hurlbut (dublado por Donald Sutherland) e até para o conselho da cidade. E como é muito comum no desenho, ninguém ouve ela, dando valor para o mito.
Mas o seu pai, Homer Simpson, que se tornou o arauto oficial das festas do bicentenário, é o único que apoia a filha, por deixar claro que sempre acreditou nela em assuntos desta natureza. No final, Lisa tem provas concretas, incluindo uma língua de prata que o pirata usava como prótese (mas que se misturou com o mito de que “ele tinha língua de prata por ser um grande orador”), mas decide não revelar nada para a multidão reunida na parada.
Mesmo com uma tentativa de sabotagem na busca pela verdade e até uma arma mirada na sua cabeça caso ela falasse alguma verdade, Lisa preferiu abrir mão, para um bem maior. O mito de Jebediah Springfield, no fim, traz algo de valor para a comunidade. Segundo Lisa, é o que faz florescer nas pessoas o melhor delas.
Como o episódio foi construído e o que os envolvidos disseram

Jonathan Collier escreveu o roteiro, e Mike B. Anderson dirigiu. O ponto de partida veio de um caso real: em 1991, uma historiadora chamada Clara Rising convenceu parentes do presidente Zachary Taylor a exumarem o corpo para checar se ele havia sido envenenado.
Taylor foi o 12º Presidente dos EUA e, embora tenha conseguido prestígio como oficial na guerra que seu país travou com o México. Viveu entre as tensões que renderiam a futura Guerra Civil e faleceu em 1850, apenas 16 meses após assumir o cargo. Considerado um “presidente esquecível” por não ter feito muito em seu mandato, a causa oficial de sua morte foi uma doença de estômago.
No comentário do DVD, o então produtor executivo Bill Oakley conta que usou essa história como base, mas trocou o presidente por Springfield e transformou tudo em comédia. “Você não pode sair exumando presidentes só porque alguém tem um manuscrito inédito”, brincou ele, resumindo o tom do episódio.

Os Simpsons não criou o dilema do mito versus verdade do zero. O episódio usa Jebediah Springfield como espelho dos Pais Fundadores americanos, que são aqueles nomes que aparecem em livros didáticos como exemplos de virtude.
E a visão dos habitantes sobre seu fundador já havia sido mostrado antes, quando Bart serrou a cabeça da estátua de Jebediah, que fica no centro da cidade, logo na primeira temporada.
O curador Hollis Hurlbut esconde a língua de prata para proteger tanto a reputação do herói quanto a própria carreira, que aparece aqui como uma crítica direta a como instituições preservam narrativas convenientes, aumentando ou inventando algo que não foi necessariamente verdade.
Por que criamos mitos, mesmo quando os fatos não batem

Como sabemos muito bem em Os Simpsons, um episódio como este não foca apenas em piadas. Ele também serve para mostrar um comportamento humano comum: comunidades constroem e defendem histórias que unem as pessoas, mesmo sabendo (ou suspeitando) que não são 100% verdadeiras. Lisa percebe isso no último minuto, ao ver veteranos desfilando, crianças felizes e a cidade inteira se sentindo parte de algo maior. Contar a verdade poderia destruir esse laço.
Essa dinâmica tem base histórica e sociológica. O pesquisador Olli Hellmann, em artigo publicado em 2023 na revista Humor, analisa exatamente esse episódio. Para ele, Jebediah Springfield funciona como sátira das “guerras da história” nos Estados Unidos, que são os debates acalorados sobre como lembrar os Pais Fundadores.
Conservadores e liberais brigam por narrativas opostas, mas ambos constroem versões seletivas do passado, convenientes para as suas narrativas e planos de poder. Os Simpsons usa a animação e seu humor irônico, como era nos anos 90, para imitar esse processo de forma exagerada e, ao mesmo tempo, realista: o mito não é só mentira, é algo que, verdadeiro ou não, gera identidade coletiva e orgulho.

Sociedades antigas, como Roma com o mito de Rômulo e Remo, ou nações modernas com histórias de fundadores impecáveis, fazem o mesmo. Nos Estados Unidos, a famosa lenda de George Washington e a cerejeira (que nunca aconteceu) é um exemplo clássico: o mito ensina honestidade, mesmo que o fato seja inventado.
Mitos estes que Hideo Kojima explorou muito bem em Metal Gear Solid 2, ao confrontar visões diferentes para um mesmo fim.
A independência brasileira, também, é alvo de discussão. Há correntes históricas que dizem que o processo não foi tão pacífico como dizem os livros de história, que serviu para manter a estrutura da época, com foco nas elites e escravidão, e que a imagem de Dom Pedro I montado em um cavalo não aconteceu exatamente como registrado na memória coletiva. Mas, como citado anteriormente, as discussões geralmente não levam em consideração a verdade dos fatos, mas sim os interesses ideológicos de cada lado, com sua linha de raciocínio.
O que Lisa, a Iconoclasta acrescenta é o custo emocional dessa escolha. Manter o mito pode preservar a harmonia, mas também impede o debate honesto sobre o passado.
O que o episódio ainda diz sobre nós hoje

Trinta anos depois da estreia, o tema continua atual. Em tempos de redes sociais, onde narrativas virais se espalham ainda mais rápido que fatos, o dilema de Lisa aparece em discussões sobre heróis nacionais, fundadores de empresas ou até figuras públicas. As pessoas não rejeitam a verdade só por teimosia; muitas vezes é porque a história que elas contam sobre si mesmas e sobre o grupo a que pertencem é o que dá sentido para as suas vidas e o que acreditam.
Os Simpsons não entrega uma resposta “preto no branco” neste episódio, preferindo ir para a zona cinza. Lisa escolhe o silêncio, mas o episódio deixa claro que ela sabe da verdade, e que entregou para o espectador toda a verdade (incluindo o fato que George Washington queria que a bandeira dos EUA tivessem, além das estrelas e listras, corações vermelhos, luas amarelas e trevos verdes. Claro que isso é piada).
É esse desconforto sutil que faz o capítulo continuar relevante: ele não diz que um “mito é ruim, e a verdade é boa”. Em vez disso, ele nos coloca para refletir: o que perdemos e o que ganhamos quando visitamos o passado e decidimos o que contar sobre ele?
Se você já assistiu ou quer rever, Lisa, a Iconoclasta está disponível no Disney+, o lar atual de Os Simpsons. Vale pela risada, pela sátira, as piadas e, principalmente, pela forma como espelha um hábito humano que repetimos em família, em cidades e em países inteiros: inventar heróis para nos sentirmos um pouco melhores juntos com aqueles que compartilham daquele mesmo mito.
Os Simpsons, de fato, vão muito além para contar suas histórias. O que inclui a ciência, que você pode conferir melhor os elementos científicos que já foram explorados pelo seriado em um livro baratinho que você encontra na Amazon.
Fontes consultadas:
- Lisa the Iconoclast: https://simpsons.fandom.com/wiki/Lisa_the_Iconoclast
- The Simpsons S7 E16 Lisa The Iconoclast: https://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Recap/TheSimpsonsS7E16LisaTheIconoclast
- The Simpsons, Season Seven, Episode Sixteen, “Lisa The Iconoclast”: https://the-avocado.org/2019/09/29/the-simpsons-season-seven-episode-sixteen-lisa-the-iconoclast/
- Animated satire and collective memory:
re ecting on the American“history wars”
with The Simpsons – Olli Hellmann: https://researchcommons.waikato.ac.nz/server/api/core/bitstreams/e7beca56-31ef-46b0-8051-161df2102526/content - The Simpsons Needs to Talk About Jebediah Springfield… Again: https://www.cbr.com/simpsons-jebediah-springfield-lisa-iconoclast/
- É VERDADE QUE O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DO BRASIL NÃO TEVE UMA GOTA DE SANGUE SEQUER? https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/almanaque/independencia-do-brasil-foi-realmente-pacifica.phtml
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