O Japão jogou no México na Copa do Mundo e os torcedores compartilharam juntos uma só paixão: Dragon Ball Z

O México tem três sedes nesta Copa do Mundo: a capital, com o icônico Estádio Azteca, além de Monterrey e Guadalajara. Isso significa que alguns países estão visitando tais cidades mexicanas, o que rende momentos únicos entre a união de povos tão diferentes.
O Japão, por exemplo, estreou em Dallas, mas foi jogar sua segunda partida, onde goleou a Tunísia por 4×0, em Monterrey. E junto aos mexicanos, compartilharam algo que une os dois países há décadas: Dragon Ball Z. Sendo apenas mais uma das muitas situações insanas que os mexicanos estão protagonizando neste mundial, para a alegria de quem gosta de caos, bagunça e memes.
No México, Dragon Ball Z foi mais do que um simples anime de sucesso. Ele se transformou em um fenômeno cultural, talvez de forma semelhante ao que Chaves conseguiu fazer aqui no Brasil. Muita gente por lá cresceu vendo Goku subir de nível, lutar contra inimigos absurdos e proteger os amigos como se a vida dele dependesse daquilo. E, de algum jeito, isso tudo acabou parecendo familiar.
A estreia oficial por lá, aconteceu em 2 de setembro de 1997, no Canal 5 (um dos canais da Televisa). Na época, a série começou a passar em horário nobre, por volta das 19h30 ou 20h, bem diferente aqui do Brasil, quando o anime passava nas tardes da Band ou nas manhãs da Globo. Começou com a saga dos Saiyajin e foi avançando devagar: Freeza em 1998, Cell logo depois, e Majin Boo em 1999. E o impacto era o mesmo daqui: cada episódio era assunto de conversa na escola no dia seguinte.
Antes disso, porém, teve uma situação que quase afundou a obra no país. Em 1993, o México viu uma versão completamente adaptada do Dragon Ball clássico, chamada Zero y el Dragón Mágico. A adaptação trocou os nomes dos personagens (Goku virava Zero, Krilin virava Cachito), a censura removeu todo conteúdo considerado “impróprio para menores” e a trilha sonora não era a original. O anime simplesmente não pegou.
Os mexicanos não compraram a ideia e a série saiu do ar depois de uns 60 episódios. Só em 1995 veio a redublagem mais fiel, já com os nomes certos e menos cortes. Essa versão acertou em cheio e abriu caminho pro Dragon Ball Z dois anos depois.
Quando a sequência finalmente chegou, o impacto foi imediato. O Canal 5 era da TV aberta, de graça, o que significava que não era preciso ter TV a cabo para acompanhar as novidades. As crianças esperavam a hora de grudar na televisão e já na expectativa do que iria acontecer.
E diferente do Brasil, com os pais geralmente sendo mais resistentes a “estes desenhos do diabo”, por lá, devido ao horário, alguns pais viam juntos as aventuras. E virou sucesso, com a dublagem mexicana ajudando bastante nisso. Vozes como a de Mario Castañeda como o Goku adulto e René García como Vegeta fizeram os personagens soarem próximos, quase como se fossem da vizinhança.
Foi algo muito semelhante ao que vivemos aqui com YuYu Hakusho, cuja dublagem nos fazia imaginar que o anime não era japonês, e sim feito em algum lugar em nosso próprio país, afinal “rapadura é doce mas não é mole não”.
Os motivos pra essa conexão tão forte são mais simples do que parecem. Primeiro, a série falava de coisas fáceis de assimilar: treinar duro pra melhorar, não desistir na primeira dificuldade, proteger a família e os amigos mesmo quando tudo parece perdido. Esses temas batiam com o jeito de encarar a vida que muita gente no México já tinha. Depois, tinha ação pra caramba, mas também drama, humor e laços entre os personagens.

Não era só pela pancadaria, pois podemos até tentar conectar os dramalhões do anime com os que os mexicanos já viviam com suas famosas novelas. Inclusive, existem algumas referências de Goku e seus amigos nas novelas desta época, até como forma de promover o anime.
Além disso, na época era mais barato pra emissora trazer anime japonês do que comprar desenho americano. Dragon Ball Z preencheu horário com uma produção que chamava atenção sem custar os olhos da cara. Quando a coisa estourou, ninguém mais conseguia ignorar. As crianças decoravam golpes, inventavam lutas no quintal e esperavam o próximo episódio como se fosse final de campeonato.
Hoje, quase 30 anos depois, a série ainda aparece em reprises na Azteca 7 e em plataformas de streaming. Em 2018, quando Dragon Ball Super chegou ao fim, várias cidades mexicanas fizeram projeções públicas. Em Ciudad Juárez, cerca de 15 mil pessoas se juntaram pra assistir um dos últimos episódios. Teve até questões de tensão com o Japão por causa de direitos autorais em algumas exibições não oficiais. Isso mostra que o carinho não ficou só na infância de quem viu na TV dos anos 90, já que as gerações seguintes continuaram acompanhando a jornada do anime.
Akira Toriyama criou personagens que, sem sequer imaginar, acabaram virando referência de superação pra muita gente longe do Japão. No México, Goku e a turma não são só desenho. São parte de uma memória coletiva que ainda aparece em memes, em nomes de lanchonetes e em conversa de quem cresceu assistindo.
O que rendeu momentos como estes na Copa do Mundo, quando mexicanos e japoneses, que viveram juntos a vida de Goku, mesmo com suas muitas diferenças culturais, aproveitaram a união do futebol para celebrarem juntos uma das maiores obras culturais de todos os tempos.
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