Análise Arkade: jogamos King of Meat, o caótico reality show GaaS da Amazon Games

2 de outubro de 2025

Criar um avatar a partir de uma infinidade de itens de customização; adentrar (e superar) masmorras cheias de armadilhas, inimigos e puzzles ambientais; de preferência ao lado de amigos ou companheiro aleatórios improváveis no hub que emula uma produtora televisiva e os bastidores de um reality show um tanto quanto pitoresco. A premissa de King of Meat faz tão pouco sentido quanto seus vídeos de divulgação.

Confesso que, ao me deparar com a forma como o jogo é promovido, me senti um senhor idoso. Não que os anos realmente não tenham se acumulado, mas foi uma das poucas vezes onde realmente me coloquei na pele do grande Roger Murtaugh, personagem vivido por Danny Glover na franquia de filmes Máquina Mortífera, e me vi repetindo o bordão: “Estou velho demais para isso!”.

Felizmente, nem sempre a primeira impressão permanece, e bastam alguns minutos experimentando as possibilidades do jogo para que a confusão inicial se desfaça. Com alguma calma e paciência nos tutoriais e no excesso de informações iniciais, fica fácil compreender que o jogo é sim acessível e palatável, e até divertido, sem abrir mão da profusão de ideias, eventos e cores em tela.

Vai lá e volta aqui

Trata-se, basicamente, de um game pensado para o modelo cooperativo de exploração de masmorras que estão categorizadas em 3 tpos: combate, plataforma ou quebra-cabeças. Partindo de um hub comum onde vamos encontrar outros players ao redor do mundo, bem como amigos que habitam o mesmo lobby, há uma série de opções de ação a serem definidas pela forma como decidimos progredir.

Nosso personagem, um boneco cartunesco cuja física lembra Fall Guys (ainda que seus corpos sejam bem mais complexos que aquelas bexigas com pernas), como um participante deste reality show caótico chamado King of Meat, vai encarar estas dungeons, que podem ser tanto um desafio sazonal ou um cenário eleito dentre outros por todos os integrantes da party, tendo que cumprir requisitos e missões internas para receber prêmios, experiência e outros benefícios a serem usados para melhorias práticas e cosméticas.

É um loop interminável e viciante de se organizar para o próximo desafio, vencê-lo, e usar os prêmios conquistados na preparação para a missão seguinte. Ainda que existam cutscenes aqui e ali, não há uma linha narrativa clara ou uma campanha diegeticamente definida. Estamos em um reality show, afinal, e nosso desempenho rende uma pretensa audiência e quanto melhor nosso desempenho, mais status vamos acumulando.

Uma vez de volta ao hub, temos acesso a uma série de NPCs, cada qual com uma atribuição clara. Há quem venda skins, quem negocie armas e quem tenha tarefas secundárias para nos oferecer. Há quem venda consumíveis e quem apresente uma nova meta a ser atingida para, por exemplo, desbloquear uma categoria diferente de equipamentos. E há quem só tem algumas frases contextuais para dar um pouco mais de vida ao local.

Pancadaria e exploração de qualidade

Dentro de cada arena, as coisas logo tornam-se caóticas e a ação é ininterrupta, misturando o combate contra hordas e desafios de plataforma que lembram aquele sistema reconhecível de Olimpíadas do Faustão, com armadilhas, elementos em movimento, chaves a serem encontradas para abrir passagens, dispositivos e interruptores escondidos… há muito o que se fazer por aqui.

A pancadaria em si é complexa o suficiente para demandar algum tempo de aprendizagem e prática, se aproveitando de conceitos típicos de um hack and slash. Podemos usar escudo e espada, marretas pesadas, manoplas e outros itens de ataque e defesa corpo-a-corpo, além de uma arma de longa distância, como uma besta ou um canhão de mão.

A composição entre ataques rápidos e outros fortes, esquiva, defesa e parry são facilmente reconhecíveis e tranquilamente dominados já nas primeiras partidas, uma vez que o timing evita ser exigente ou punitivo demais. Cair no quebra-pau contra dezenas de inimigos, porém, demanda um pouco mais de estratégia e domínio do campo de batalha, evitando o velho (e não tão bom assim) esmagar de botões.

A precisão também não é o ponto de exagero nas passagens de exploração, com trechos um pouco mais trabalhosos aqui e ali, mas sempre de forma equilibrada, ao menos quando estamos diante das mais de 100 masmorras originais, criadas para o game. O que, no fim das contas, pode ser só o início da sua jornada em King of Meat.

Se não gostou, faz melhor

Digo isso porque o game também traz um robusto editor de fases, para que todos possam criar e compartilhar suas criações com a comunidade. O sistema felizmente evita certas burocracias e, mesmo dando um certo trabalho, recompensa level designers amadores com possibilidades interessantes de criação.

É uma estratégia inteligente para um Game as a Service dar o poder à comunidade para que ela mantenha o jogo vivo, fresco e atualizado. Porém, é preciso que haja uma comunidade para isso funcionar. King of Meat ainda nem foi lançado, então só o tempo dirá se o reality show caótico da Amazon Games irá cativar os fãs ou não.

Para quem, contudo, não tem nenhuma intenção na construção e prefere partir para a ação, a boa notícia é que não faltam opções nas diferentes categorias e nos distintos níveis de dificuldade. Além disso, a Amazon Games promete atualizações gratuitas para quem adquirir o jogo, com novos conteúdos a serem revelados em um futuro próximo.

Velho demais para isso?

Ainda que não falte conteúdo, o encadeamento de eventos e o sistema de progressão são, essencialmente, pautados por loopings que podem cair rapidamente em uma sensação de repetitividade e estafa.

O ciclo de entrada em uma nova jornada, que dura seus 10, talvez 15 minutos, seja sozinho ou acompanhado, e a preparação no hub, pode ser cansativa no longo prazo. Mas, falo isso como um gamer velho que não costuma se aventurar por jogos online de partidas rápidas.

Talvez seja só aquela minha versão rabugenta do Murtaugh falando, mas a ideia de uma análise crítica é passar as impressões de quem jogou. E a minha é: mesmo com todo o carisma dos personagens de suporte e as dezenas de possibilidades de personalização, sinto que o jogo funciona muito mais quando apreciado em pequenas doses e, de preferência, com uma companhia agradável. Mesmo neste mundo colorido, há pouco à que se prender.

Mas, talvez esta seja uma questão geracional: eu não sou o público dos Fortnite da vida, e o apelo que esse tipo de jogo — com suas toneladas de roupinhas, emotes e dancinhas — tem nos mais jovens não funciona comigo. King of Meat pode, sim, agradar a Geração Z, e há muito conteúdo aqui para ser revisitado ao lado dos amigos.

Cores, quero cores!

Dou ênfase a esta profusão de cores, porque o departamento artístico definitivamente escancarou o alcance da saturação de King of Meat para sua máxima potência. O traço exagerado e o design cartunesco é onipresente, que começa pelos personagens e transborda para cenários dinâmicos, vivos e lotados de detalhes evidentes.

O trabalho de iluminação global, por sua vez, explicita as composições quentes e coloca tudo em evidência, valorizando a direção de arte mas, como consequência, por vezes tornando a experiência um tanto poluída, com muito mais informações em tela do que conseguimos processar (olha o velho de novo).

Curiosamente, estes contornos mais leves não significam que a obra assuma um tom infantilizado, já que tanto algumas piadas quanto várias passagens com narrativa emergente apelam para uma linguagem mais adulta, ácida e maliciosa. Não que seja um conteúdo graficamente explícito ou chulo, mas definitivamente, não é das melhores indicações para se jogar com crianças pequenas.

Esta linguagem mais desavergonhada fica melhor estabelecida em algumas cenas de corte animadas que lembram seriados adultos, como Rick and Morty, não só pelos contornos, mas sobretudo pela linguagem dinâmica, o humor característico e a qualidade do texto, que ora flerta com trocadilhos infames, ora consegue algumas tiradas mais inteligentes.

Quem é o público-alvo?

King of Meat pode ser uma baita confusão conceitual, mas ele tem seu charme. Porém, neste momento pré-lançamento, confesso que acho difícil compreender bem quem é o público ideal para o jogo. Se um adulto quarentão como eu pode se sentir deslocado com a dinamicidade e a profusão de coisas, eventos, atividades e missões pipocando na tela, os mais novos podem acabar entediados com um início um tanto moroso e cheio de tutoriais — sem contar alguns elementos um tanto impróprios, com certas estátuas espalhadas pelos cenários:

Depois de passar algumas horas com o jogo, ainda me pergunto qual nicho a Amazon Games quer atingir. Afinal, como dito, King of Meat é um jogo que se aproveita dos conceitos mais modernos de reality show e do espetáculo televisivo, e, por isso, precisa de uma base de jogadores significativa para que o formato seja aproveitado em sua máxima potência.

Porém, ele não é free-to-play. Ainda que conteúdos e atualizações gratuitas estejam prometidas, a barreira inicial de preço (R$ 149 na versão Standard) pode ser difícil de transpor. Vamos ver como ele se comporta após o lançamento e se tem ferramentas suficientes para a criação de vínculos que visem a fidelização e experiência de longo prazo.

Conclusão

King of Meat responde muito bem à impressão inicial de que é uma confusão de cores, formas e bonecos se espatifando em cenários confusos. Por mais que materialize várias destas sensações iniciais, ele o faz com consciência e uma certa sedução, sendo generoso em apresentar e cobrar suas melhores qualidades.

O gameplay é funcional e surpreendentemente aprofundado, mesmo em áreas onde eu esperava pouco, como no sistema de combate. Depois que você se acostuma com tanta informação na tela, King of Meat consegue ser divertido, fluido, e seu loop de gameplay ao estilo gincana/reality show tem seu apelo.

Seja para quem pretende partir para a ação quanto para quem se imagina um belo construtor de dungeons, há muito o que se fazer por aqui — e a experiência tende a ficar melhor se você tiver amigos para jogar com você. Resta saber se e o seu ciclo de jogabilidade conseguirá manter e renovar o interesse do público a cada nova incursão. Há espaço para ir longe, mas o caminho até lá não será tão simples assim.

King of Meat, sob a responsabilidade da Amazon Games e da Glowmade, chega para PlayStation 5, Xbox Series X|S e Steam no dia 07 de outubro de 2025, com a versão de Nintendo Switch prevista para 2026. O game possui textos, menus e legendas em português brasileiro.

Paulo Roberto Montanaro

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