Análise Arkade – LumenTale: Memories of Trey, um criativo monster taming com alma de JRPG

19 de junho de 2026

Que o gênero monster taming veio dos JRPG não deve ser surpresa para a maioria dos fãs. Mas desde que a franquia Pokémon explodiu e ditou sua fórmula, cada vez mais o subgênero se afastou da sua origem tendo suas características próprias. Mas numa linha contrária, LumenTale: Memories of Trey faz uma reaproximação entre monster taming e JRPGs mais clássicos.

Aqui temos uma história mais complexa, um visual super charmoso que mistura pixel art belíssima com cenários 3D e, principalmente, mecânicas que equilibram tudo o que Pokémon fez nos últimos 30 anos com o que os JRPGs tem a oferecer de melhor.

Com tudo isso, LumenTale: Memories of Trey tem potencial para agradar os fãs da captura de monstrinhos? Vem descobrir com a gente nesse review completo.

Memórias Perdidas

A história de LumenTale: Memories of Trey nos apresenta uma região chamada de Talea, na qual criaturas de origem desconhecida convivem com humanos. Esses “monstrinhos” são conhecidos como Animons e é dito que, no passado, a parceria entre humanos e Animons fez surgir um império. Entretanto, esse império já ruiu há muito tempo, levando a população da região a se isolar entre duas espécies de tribos distintas, os habitantes do norte e do sul.

Com essa premissa, o jogo nos coloca na pele de Trey, um jovem que é encontrado desacordado numa floresta por uma criança chamada Ales. Porém, Trey acorda sem suas memórias e sem saber exatamente como foi parar ali, deixando um mistério a ser resolvido por nós jogadores. Com o tempo e alguns acontecimentos marcantes, somos apresentados aos Lumens, que são domadores de Animons que, em parceria com os monstrinhos, servem de segurança e representantes de diversas cidades por toda Talea.

Assim, cabe a Trey se tornar um Lumen e explorar o mundo em busca de suas memórias para entender tudo que aconteceu com ele, acompanhado por Ales, seu avô e alguns outros aliados que vai encontrando pelo caminho. Além é claro de diversos Animons que vamos capturando. O interessante ao se observar a história do game é que ela é bem trabalhada com cutscenes, diálogos e plot twists no decorrer da jogatina.

Gostei bastante do equilíbrio que LumenTale: Memories of Trey alcançou ao construir uma narrativa complexa com um protagonista que possui certa personalidade (ao contrário da maioria exorbitante de jogos desse subgênero), mas ao mesmo tempo não fica pegando na mão do jogador a todo momento, nem impedindo que a gente explore o mapa. Muito pelo contrário: talvez seja justamente na exploração que você vai começar a entender melhor como diversas mecânicas de jogo funcionam por aqui.

“LumenTale Logos/Mythos Edition”

Um fator interessantíssimo de LumenTale: Memories of Trey é que o game segue um formato que lembra vagamente a ideia de Pokémon com os jogos sendo lançados em duas versões, mas aqui essas “duas versões” estão contidas dentro do mesmo jogo. Acontece que já no início da jogatina, após acontecimentos específicos, o jogador precisa escolher por onde sua exploração do mundo vai começar.

As opções são muito bem explicadas nesse momento, com as rotas da história seguindo inicialmente para o sul do continente ou então para o norte, e se invertendo lá na frente da jogatina. Acontece que essa escolha não determina somente a rota pela qual iremos explorar o jogo como também a presença ou ausência de alguns monstrinhos com mais facilidade, algumas ordens de mecânicas, acesso a territórios específicos e até a evolução final do nosso monstrinho inicial.

Ao contrário do que estamos acostumados em outros jogos do gênero — e principalmente em Pokémon –, em LumenTale temos cinco iniciais distintos, todos com duas evoluções finais cada. A forma Logos relacionada a jornada iniciada pelo norte, bem mais tecnológico e futurista; e a forma Mythos para quem iniciou a jornada pelo sul, com áreas mais voltadas para a natureza e espiritualidade.

Ter essas e outras diferenças cravadas no gameplay de acordo com a ordem da sua exploração no início do jogo é muito interessante pois mantém a ideia de duas versões distintas do jogo, ressaltando inclusive algumas diferenças de forma bem mais chamativa do que em outras franquias, mas sem forçar o jogador a comprar no mundo real dois jogos distintos que são basicamente o mesmo jogo. Além disso, o fator replay se torna incrível ao ponto de, mesmo antes de finalizar o game, eu já estava querendo recomeçar para escolher o outro caminho e ver suas diferenças.

Batalhas 4 vs 4 cheias de mecânicas

As batalhas em turnos de LumenTale: Memories of Trey me chamaram bastante a atenção. Isso porque temos algumas quebras de paradigma muito interessantes por aqui. A começar pelo formato das batalhas em si: você utiliza quatro monstrinhos simultaneamente nas batalhas, enquanto pode carregar mais dois na “reserva” para possíveis substituições.

Ao mesmo tempo, os inimigos e adversários, sejam eles Animons selvagens ou outros Lumens, podem surgir sozinhos ou em grupos de até quatro, também podendo ter reservas (no caso de outros Lumens). Isso faz com que as batalhas sejam bem táticas e cheias de sinergia entre os monstrinhos escolhidos, lembrando mais uma dinâmica de JRPGs em geral do que os monster tamings mais tradicionais.

Fora isso, nossos monstrinhos podem ter até cinco opções de ataques diferentes, e podemos utilizar itens, tentar capturar e analisar os inimigo para entender suas fraquezas e resistências. Outra novidade é que nossas criaturas possuem Características para além do Tipo Elemental já tradicional no gênero. Essas Características servem como uma espécie de personalidade daquele monstrinho, mas influencia diretamente as batalhas uma vez que libera uma habilidade passiva que pode ser ativada antes de qualquer ataque para gerar benefícios extras como aumento de dano crítico ou outros percentuais.

As batalhas seguem a lógica de linha de prioridades que vemos na franquia Digimon, além de usar pontos de habilidade da equipe, o que limita a quantidade de habilidades de personalidade ou outros bônus que o jogador vai utilizar por turno. Com isso tudo junto e misturado, as batalhas poderiam se tornar confusas e complexas demais, mas não é o caso. Tudo flui muito bem e, com o passar do tempo, vai se tornando natural você utilizar em conjunto todas as camadas estratégicas de batalha.

Nível de personalização estratégica excelente

Para além das mecânicas de batalha propriamente ditas, existem outras mecânicas principalmente ligadas a progressão e personalização que influenciam e muito tais batalhas. Temos em LumenTale: Memories of Trey a lógica de progressão de nível tal qual qualquer outro JRPG ou monster taming tradicional por aí. Mas aqui temos algumas características que aproximam bem mais o game de um Final Fantasy do que de um Pokémon, por exemplo.

Me refiro principalmente à distribuição de pontos de atributos. É isso mesmo, cada monstrinho que você upa ou captura vem com um X número de pontos de atributo para você distribuir entre Vida, Agilidade, Ataque, Ataque Especial, Defesa e Defesa Especial. Além disso, todo Animon possui seu tipo elemental tradicional, entretanto, existe a chance de algumas espécies serem encontradas na natureza com um tipo secundário extra, podendo acrescentar resistências e fraquezas a mais para aquele indivíduo em específico da espécie.

Fora isso, temos também a possibilidade de recolher matérias-primas em nossas explorações para a confecção de melhorias específicas para nossos Animons. Isso incluir até melhorar seus ataques individualmente, podendo incluir três melhorias em cada golpe, podendo até afetar a parte estética do ataque quando ele é melhorado ao máximo.

Tudo isso faz com que a progressão seja bem personalizável em LumenTale: Memories of Trey. Com a possibilidade inclusive de travar batalhas online contra outros jogadores desconhecidos aleatoriamente ou desaviar amigos. Não sei dizer quanto ao balanceamento dos monstrinhos para saber se o game tem futuro num nicho mais competitivo tal qual Pokémon, mas em termo de um bom JRPG, ele cumpre muito bem o papel de dar ferramentas variadas ao jogador para que a progressão não seja voltada exclusivamente ao “subir de nível”.

Maravilhosamente belo

LumenTale: Memories of Trey é um jogo incrivelmente charmoso. Seu visual, pelo menos a primeira vista, me fez lembrar ao mesmo tempo de Ragnarok Online (com personagens em pixel art em um mundo 3D super charmoso) e do antigo Pokémon Black 2/White 2 (com pixel arts belíssimas cheias de movimentações interessantes).

Mas hoje em dia podemos dizer que o game se aproxima do visual batizado de HD-2D, embora eu ainda fique relutante em colocá-lo nessa “caixinha”, já que não vemos aqui uma preocupação em iluminações e visuais super realistas ou com efeitos de luz exagerados. Mas a aproximação pode, inclusive, atrair alguns públicos diferentes para LumenTale, o que pode não ser nada ruim.

Além do visual super charmoso e cheio de cores vivas e cenários detalhados, temos uma trilha sonora marcante que dita o tom da aventura com muita qualidade. São raros os momentos que a música deixou de chamar atenção pra mim, já que elas são bem variadas e muito bem orquestradas, trazendo uma vibe que me remeteu muito a clássicos do JRPG como o próprio Chrono Trigger vez ou outra.

No conjunto da obra, temos um jogo super prazeroso de se jogar esteticamente falando. As criaturinhas transbordam criatividade em seus designs, os personagens humanos são belíssimos e com aparência variada e carismática, além dos cenários serem os mais variados possíveis, repleto de cores, caminhos e segredos escondidos. O conteúdo de LumenTale: Memories of Trey é excelente, e a aparência que fica por cima desse conteúdo igualmente não deixa nada a desejar.

Mecânicas secundárias pouco trabalhadas

Como nem tudo são flores, LumenTale: Memories of Trey traz algumas escolhas que deixam a desejar no que tange suas mecânicas secundárias. Temos uma tonelada de conteúdo de excelente qualidade nas missões principais e secundárias, bem como no ritmo de progressão, personalização e batalhas do jogo. Porém, quando entramos no mundo das mecânicas opcionais da aventura é que o game patina um pouco.

As mecânicas que mais me chamaram a atenção foram a da aquisição de cartas colecionáveis bem como a personalização de um espaço digital que funciona como um sistema de house dentro de LumenTale. Nada novo aqui: temos cartas colecionáveis que podemos adquirir comprando boosters de diversos NPCs espalhados pelo mundo do jogo, com algumas raridades diferentes. Já para a nossa casinha, podemos coletar móveis escondidos pelo mundo e comprar outros de NPCs, além de inserir objetos de treino passivo e deixar Animons lá treinando enquanto seguimos explorando o mundo.

Essas mecânicas nem de longe são ruins, não me entendam mal. As cartinhas por exemplo, são lindamente ilustradas e super variadas, dando vontade até de ter uma coleção delas no mundo real. Já a casa possui uso estratégico ao servir como um treinamento passivo para nossos monstrinhos. Mas falta polimento nessas mecânicas, seja em alguns detalhes de controle e personalização das casas seja em um uso mais prático para as cartinhas colecionáveis, levando a crer que são mecânicas inseridas mas não tão bem pensadas quanto o restante do jogo.

Uma verdadeira joia rara

Desde 2020, vem crescendo cada vez mais a presença de novos jogos no subgênero monster taming. Mas não é sempre que algum jogo chama atenção ao ponto de alcançar um patamar próprio, com sua própria fanbase relevante e personalidade própria. Talvez o exemplo recente mais marcante disso seja Palworld. Mas LumenTale: Memories of Trey possui muito potencial para agradar seu nicho e cativar uma legião de fãs.

Mesmo que sua popularidade tenha sido ofuscada por outros lançamentos mais barulhentos próximos a ele — como o elogiado 007 First Light, por exemplo — LumenTale: Memories of Trey é um jogo feito com um carinho visível tanto em seu carisma quanto no cuidado em lançar um jogo repleto de conteúdo de excelente qualidade para os jogadores.

O resultado é um jogo com conteúdo e qualidade que pode tanto agradar fãs de Pokémon ou de outros quanto os fãs de JRPGs em geral. Um equilíbrio difícil de alcançar, mas que foi muito bem feito aqui.

LumenTale: Memories of Trey foi lançado no dia 26 de maio de 2026 e está disponível para PCs (via Steam), Nintendo Switch e Nintendo Switch 2. O game possui textos localizados em português brasileiro.

Gilson Peres

Gilson Peres é Psicólogo, Mestre em Comunicação e aqui no Arkade fala principalmente sobre Realidade Virtual, jogos de PC e novas tecnologias desde 2019.

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