Análise Arkade – Neva: Prologue é um pouquinho mais de um ótimo jogo

6 de março de 2026

Neva foi uma das boas surpresas que o mundo dos games recebeu em 2024. Desenvolvido pelo mesmo estúdio responsável pelo belíssimo Gris, o jogo apresentou uma jornada relativamente curta, mas carregada de simbolismo, emoção e momentos contemplativos. Grande parte de sua força vem justamente da relação construída entre a protagonista Alba e sua imponente companheira, uma loba mágica chamada Neva — um vínculo que se desenvolve ao longo da aventura e acaba sendo o coração da experiência.

Agora, algum tempo depois de seu lançamento, Alba e Neva retornam com um conteúdo adicional que expande esse universo. Neva: Prologue funciona justamente como o nome sugere: um prólogo da história original, oferecendo ao jogador a oportunidade de revisitar aquele mundo e conhecer um pouco mais dos eventos que antecedem a jornada que vivemos no jogo base.

O primeiro encontro

Se no jogo original conhecemos uma Neva já um pouco maior — curiosa, brincalhona e que ia crescendo ao longo da jornada –, Neva: Prologue volta ainda mais no tempo para mostrar o primeiro encontro entre Alba e a pequena loba que daria nome à aventura. Aqui, Neva ainda é apenas uma filhotinha: menor, frágil, assustada e claramente vulnerável diante do mundo hostil ao seu redor.

E hostil é a palavra. Assim como vimos no jogo de 2024, o mundo está sendo consumido por uma estranha corrupção que transforma a natureza e dá origem a criaturas perturbadoras — seres mascarados, formados por uma espécie de gosma sombria que parecem dominar cada vez mais o ambiente.

É nesse cenário que os caminhos de Alba e da pequena loba acabam se cruzando em circunstâncias nada tranquilas. A partir daí, acompanhamos o início dessa relação que se tornaria tão importante na aventura original.

Assim como no jogo base, a narrativa é totalmente não verbal, sem diálogos ou textos explicativos. Não há aqui uma grande trama sendo desenvolvida no sentido tradicional. O foco está justamente nesse momento inicial entre as duas personagens. Ainda que seja uma história simples, o encontro é tratado com bastante sensibilidade, reforçando o vínculo emocional entre Alba e Neva e oferecendo ao jogador mais um pequeno vislumbre desse universo tão marcante apresentado no jogo original.

Uma breve experiência familiar

Em termos de gameplay, Neva: Prologue entrega uma experiência bastante alinhada ao que vimos no jogo base. Continuamos diante de uma jornada 2D com puzzles ambientais relativamente simples, desafios de plataforma, algumas perseguições intensas e momentos pontuais de combate. A estrutura geral permanece a mesma: avançar por cenários belíssimos, resolver pequenos quebra-cabeças e se defender das criaturas de gosma.

A principal diferença está justamente no papel de Neva. Como aqui ela ainda é apenas uma filhotinha indefesa, aqui a lobinha não participa ativamente das batalhas, nem serve de montaria. Em vários momentos, Alba precisa carregá-la no colo enquanto atravessa trechos mais perigosos. Em outros, as duas acabam se separando temporariamente por conta de bifurcações no caminho, que vão exigir que o jogador encontre uma nova rota para se reunir com a mascote.

Por ser pequena, Neva consegue passar por frestas e buracos no cenário que Alba não consegue atravessar, o que cria algumas pequenas situações de exploração paralela. Muitas vezes ela segue por caminhos próprios para se manter segura enquanto a protagonista lida com inimigos ou perigos do ambiente antes de voltar a encontrá-la mais à frente.

O jogo até introduz alguns elementos novos aqui e ali — como lugares em que partes do cenário permanecem invisíveis e só se revelam quando relâmpagos iluminam o ambiente –, mas no geral a sensação é de uma experiência bastante familiar. Considerando que Neva foi um jogo que me marcou bastante, revisitar esse universo acabou sendo algo muito bem-vindo.

Ainda assim, é justo dizer que Neva: Prologue acrescenta pouco em se tratando do “fator novidade”. Ele funciona realmente como um complemento para quem já gostou do mundo e dos personagens do jogo original.

Também vale falar sobre a duração. Se Neva já era uma experiência relativamente breve, com algo em torno de 5 ou 6 horas, Neva: Prologue é ainda mais enxuto. Dá tranquilamente para chegar aos créditos em menos de 2 horas e pouco. Para um DLC de um jogo que já era curto, acho um tempo aceitável, mas fica o aviso — felizmente, o novo conteúdo está bem baratinho em todas as plataformas.

Audiovisual

No departamento audiovisual, Neva: Prologue continua sendo um verdadeiro deleite para os olhos e ouvidos. O visual do jogo segue simplesmente belíssimo, apostando novamente em paisagens melancólicas, e um clima soturno de solidão. É um estilo artístico que mistura beleza e tristeza de forma muito inspirada. As animações são extremamente fluidas e caprichadas e, mesmo com sua atmosfera lúgubre, o jogo é encantador.

A trilha sonora se faz presente de forma pontual, surgindo principalmente para intensificar momentos de tensão ou perseguições. No restante do tempo, a música assume um papel mais discreto, quase incidental, preenchendo o silêncio sem necessariamente chamar atenção para si. Ainda assim, funciona bem dentro da proposta contemplativa da experiência.

De certa forma, tudo aqui soa como uma extensão direta do que já vimos no jogo original. E isso está longe de ser um demérito. Neva já era um título artisticamente muito bem resolvido, e Neva: Prologue apenas reafirma esse cuidado estético, consolidando mais um belo trabalho do estúdio espanhol Nomada Studio.

Conclusão

A conclusão óbvia que podemos tirar é: Neva: Prologue é, essencialmente, mais Neva. E isso, é uma coisa boa! Quem se encantou com a jornada original provavelmente vai apreciar esse breve retorno a esse universo melancólico e cheio de simbolismo. Um conteúdo que não muda drasticamente a fórmula, nem tenta reinventar nada — mas oferece mais um breve vislumbre deste mundo tão peculiar.

Inclusive, já existe nas lojas digitais uma “edição definitiva” que reúne o jogo original e o prólogo em um único pacote. Pela própria natureza da expansão — um prólogo — a sensação que fica é que a experiência se encaixa de maneira muito natural ao início da jornada original. Não como algo foi cortado, nem deixando a impressão de que o jogo original estava incompleto, mas como uma peça que se encaixa perfeitamente num espacinho feito sob medida para ela.

No fim das contas, a recomendação é simples: se você gostou de Neva, as chances de também gostar de Neva: Prologue são enormes. É mais um pouquinho dessa experiência cativante, contemplativa e muito bem executada, que fazem do “pacote” Neva uma joia delicada no catálogo da Devolver Digital.

Neva: Prologue já está disponível para PC, PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox Series X|S e Nintendo Switch.

Relembre nossa análise de Neva.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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