The Evil That Men Do: A inspiração do Iron Maiden em Shakespeare e na Bíblia para falar “sobre o mal que vive”

10 de abril de 2026

A música The Evil That Men Do, do Iron Maiden, saiu como single em 1º de agosto de 1988 e se tornou a segunda faixa de trabalho do álbum Seventh Son of a Seventh Son.

Gravada no Musicland Studios, em Munique, com produção de Martin Birch, a faixa tem 4 minutos e 33 segundos, com vocais de Bruce Dickinson, guitarras de Dave Murray e Adrian Smith (responsável pelo solo principal), baixo e sintetizador de Steve Harris e bateria de Nicko McBrain. No Reino Unido, o single chegou à quinta posição da parada de singles.

É uma música querida até hoje, inclusive por membros da banda. Steve Harris já disse em entrevista que esta era uma das músicas que ele queria voltar a tocar em shows, já que a banda não a toca desde 2019.

O título vem de uma fala clássica da peça Julius Caesar, de William Shakespeare. Na cena 2 do Ato 3, Marco Antônio se dirige à multidão romana após o assassinato de César e diz: “O mal que os homens fazem vive depois deles; o bem é muitas vezes enterrado com seus ossos”.

Bruce Dickinson costuma recitar uma versão invertida dessa frase antes de tocar a música ao vivo, como aconteceu no histórico show do Rock in Rio 2001.

A letra em si não conta a história da peça, mas explora a ideia de que ações ruins tendem a marcar a memória por mais tempo que as boas.

Adrian Smith, Bruce Dickinson e Steve Harris assinaram a composição. A faixa se encaixa no conceito do álbum inteiro, que acompanha o sétimo filho de um sétimo filho, uma figura profética cercada por forças do bem e do mal. Aqui, o narrador vive um conflito interno que mistura tentação, culpa e busca por redenção.

O que a letra realmente diz

A música começa com uma imagem bem interessante: “Love is a razor and I walked the line on that silver blade”. O amor aparece como uma lâmina afiada, ás vezes perigosa. Em seguida vem “Slept in the dust with his daughter / Eyes red with the slaughter of innocence”.

Bruce Dickinson explicou em uma entrevista, sobre este momento, que o protagonista perde a virgindade com a filha do diabo, que seria uma tentadora enviada por Lúcifer disfarçada de mulher. O ato deixa marcas que não somem.

O refrão repete o título como um eco: “The evil that men do lives on and on”. O refrão se repete como um lembrete constante de em nossa sociedade, são as escolhas ruins que continuam repercutindo.

Depois, aparecem elementos bíblicos e apocalípticos: “Circle of fire, my baptism of joy / At an end, it seems / The seventh lamb slain / The book of life opens before me”. O “círculo de fogo” marca o fim de uma iniciação falsa.

O “sétimo cordeiro” morto e o “livro da vida” que se abre remetem de forma direta ao Apocalipse e ao julgamento final. O narrador pede para não chorarem por ele e diz que “beyond is where I learn”, uma ideia de que o aprendizado continua depois da morte.

O solo de guitarra de Adrian Smith reforça a tensão, e o baixo marcante de Steve Harris sustenta a urgência da narrativa. Tudo isso forma um quadro de alguém preso entre o desejo, a culpa e a esperança de algo maior.

Análise teológica dos elementos bíblicos na letra

A letra traz referências claras ao imaginário cristão, em especial do Livro do Apocalipse, que também foram usadas em The Number of the Beast. O “círculo de fogo” e o “baptism of joy” que aparecem no fim sugerem uma iniciação que começa parecendo positiva, mas termina em julgamento ou purificação pelo fogo, algo que remete ao significado bíblico de que o fogo é um instrumento de prova, purificação ou condenação.

O “seventh lamb slain” remete ao Cordeiro de Deus (símbolo de Jesus no Apocalipse) e ao número sete, que na tradição bíblica representa completude, ou o “número de Deus”. Já “the book of life opens before me” é uma alusão direta ao Livro da Vida mencionado no Apocalipse (capítulo 20), que será aberto no Dia do Juízo Final.

Nele estão os nomes dos salvos que estarão com Deus pela eternidade; quem não tem o nome escrito nele viverá uma separação eterna. No contexto da música, o narrador parece estar diante desse momento de prestação de contas após a tentação e a queda, o que reforça a ideia de que o mal cometido tem consequências que vão além da vida terrena.

Esses elementos não transformam a faixa em um sermão ou em algo “evangelístico”, mas usam a teologia cristã, assim como em outras canções da banda, para ilustrar de forma mais pratica e fácil de assimilar, o peso da tentação e da responsabilidade pessoal. O mal que “lives on and on” ganha, assim, um tom de eco eterno, semelhante à visão bíblica de que o pecado deixa rastros que só o julgamento final resolve.

Como a música se encaixa no conceito completo do disco

Seventh Son of a Seventh Son conta, através de suas músicas que podem ser ouvidas separadamente mas que seguem um mesmo objetivo, a história de um sétimo filho de um sétimo filho – figura da tradição popular que nasce com poderes de clarividência e cura.

A ideia partiu de Steve Harris, que se inspirou na morte da vidente britânica Doris Stokes e no romance Seventh Son, de Orson Scott Card. Bruce Dickinson ajudou a desenvolver o enredo, que gira em torno da luta entre forças do bem e do mal pelo controle dessa criança profética.

A faixa The Evil That Men Do entra como um capítulo dessa jornada. Ela mostra o protagonista já crescido, exposto à tentação direta do mal (a filha de Lúcifer), cometendo um erro que mancha sua inocência e o leva ao confronto final com o julgamento.

Enquanto outras músicas do disco falam do nascimento, dos sonhos proféticos ou da loucura que acompanha o dom, esta destaca o momento em que o bem e o mal disputam a alma do herói. O refrão sobre o mal que permanece funciona como fio condutor: mesmo quem tem poderes especiais não escapa das consequências das próprias escolhas.

O álbum não segue uma linha rígida de história, mas as faixas se complementam para criar um quadro maior sobre profecia, tentação, culpa e o que vem depois da morte. The Evil That Men Do ganha peso extra quando ouvida na sequência do disco, logo depois de “Can I Play with Madness” e antes das faixas que fecham o conflito.

Aspectos filosóficos presentes na canção

A conexão com Shakespeare traz uma reflexão antiga sobre como a humanidade registra o passado. O mal costuma ficar mais visível porque causa impacto duradouro. No contexto do álbum, isso se mistura à luta entre forças opostas pelo destino do sétimo filho. A letra sugere que até quem busca o bem pode cair em armadilhas, e as consequências acompanham para sempre. Não há julgamento simples; há um equilíbrio precário “on a razor’s edge”, como diz o pré-refrão.

A música vem com um questionamento sutil sobre fé, tentação e a nossa responsabilidade com cada escolha e cada forma de lidar com tudoI “baptism of joy” que termina em fogo pode representar ilusões que parecem certas no momento, mas cobram preço alto depois. É um tema que aparece em várias músicas do Iron Maiden, que sempre recorrem a livros, história e mitologia para falar de dilemas humanos.

Uma das clássicas do Maiden

The Evil That Men Do não depende só do título famoso para se destacar. A melodia direta e veloz, o refrão forte e a narrativa que avança junto com o disco inteiro fazem dela uma das faixas mais consistentes de Seventh Son of a Seventh Son. Foi, inclusive, um dos muitos momentos únicos do já mencionado show que a banda fez no Rock in Rio de 2001, considerados por muitos como um dos maiores shows da história do rock.

Se você escuta o álbum na ordem, a canção ganha ainda mais peso: ela chega logo depois de “Can I Play with Madness”, música que lida com a busca por respostas mesmo em contextos considerados “loucos”, e antes de faixas que aprofundam o conflito do protagonista. Quem gosta de heavy metal com camadas literárias costuma voltar a ela justamente por isso.

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Junior Candido

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