Análise Arkade: Yoshi and the Mysterious Book é mais cozy game e menos plataforma 2D

5 de junho de 2026

O simpático dinossaurinho Yoshi costuma protagonizar aventuras mais leves e acessíveis, pensadas para um público mais jovem. Yoshi and the Mysterious Book mantém essa filosofia, mas faz isso de um jeito um tanto diferente do que estamos acostumados a ver nos jogos do personagem.

O dinossauro e a enciclopédia

A premissa de Yoshi and the Mysterious Book é encantadora. Tudo começa quando a ilha de Yoshi recebe um visitante inusitado: o Professor N. Igma, uma sábia enciclopédia que perdeu completamente a memória do próprio conteúdo. Suas páginas guardam ecossistemas inteiros, repletos de criaturas fascinantes… mas o livro não sabe mais nada sobre nenhuma delas.

Obviamente, o livro pede ajuda a Yoshi e seus amigos que, graças à magia do livro, conseguem literalmente entrar no livro para explorar suas páginas e desbravar todos esses biomas repletos de formas de vida únicas e diferentes.

É uma premissa com um charme muito aconchegante, uma vez que Yoshi não precisa salvar o mundo nem resgatar uma princesa: sua missão é agir quase como um naturalista, catalogando criaturas, entendendo seus comportamentos e devolvendo ao livro o conhecimento que ele perdeu.

É aí que a estrutura tradicional se modifica: ao invés de atravessar fases e derrotar inimigos, a aventura gira em torno da observação e do registro das criaturas que habitam cada capítulo do livro. Nosso trabalho se resume a descobrir comportamentos, documentar interações, identificar características específicas e até ajudar a nomear espécies recém-descobertas.

O resultado é uma estrutura um tanto incomum para um jogo do tipo, que troca o foco tradicional em plataforma 2D por uma experiência mais exploratória e curiosamente educativa. Funciona, mas a falta de desafio tende a tornar o jogo um tanto moroso para gamers mais velhos. Yoshi and the Mysterious Book é um jogo sem atrito, pensado e feito para crianças.

Catalogando um mundo

Em Yoshi and the Mysterious Book, cada capítulo corresponde a um bioma diferente — floresta, cavernas, montanhas, praia e por aí vai — e cada bioma é habitado por um conjunto de criaturas únicas para descobrirmos. Para interagir com uma delas, basta passar a lupa sobre ela no mapa do ecossistema e entrar em uma “fase” dedicada àquele bichinho específico.

E é dentro dessas fases que o jogo realmente acontece. Cada criatura tem um conjunto de comportamentos e reações que precisamos descobrir. E como fazemos isso? Interagindo com elas. É possível engolir os bichinhos, pular em cima deles, carregá-los nas costas, atirá-los para cima, tacar ovos neles, jogá-los na lama… cada interação revela (ou não) uma característica nova para o catálogo.

Quando a principal característica da criaturinha estudada é descoberta, Yoshi é convidado a voltar para sua ilha, onde poderemos batizar a criatura e registrar tudo que aprendemos sobre ela. As descobertas geram estrelas e, conforme as acumulamos, liberamos novos capítulos e novas formas de vida para estudar.

É um loop de gameplay redondinho e bem executado, mas que pode se tornar cansativo por conta de um grande porém: a falta de um senso de progressão mais tradicional.

O grande porém

Veja bem: as “fases” aqui não têm começo, meio e fim no sentido tradicional. Vamos entrar em uma área fechada, encontrar o bichinho a ser estudado e interagir com ele até que se esgotem as possibilidades. Aí a gente sai do livro, cataloga tudo, escolhe a próxima criaturinha e faz tudo de novo. Não há progressão espacial, não há obstáculos a superar, não há inimigos a vencer ou abismos a superar.

A ausência de tensão, ou de qualquer tipo de desafio real torna a experiência um tanto passiva. Não existe estado de falha aqui: você simplesmente experimenta interações até descobrir todas, sem risco nenhum. Não há vidas, cronômetro, nem nada que gere algum atrito, por menor que seja.

Além disso, a própria abordagem passiva do jogo pode se tornar um problema em algumas áreas. Alguns objetivos exigem ações muito específicas para serem descobertos, e nem sempre o jogo fornece pistas claras sobre como obtê-las. Isso pode gerar momentos de tentativa e erro que acabam quebrando um pouco o fluxo da experiência.

A progressão também demora um pouco para apresentar novas ideias. Embora cada bioma possua criaturas e desafios próprios, as mecânicas centrais permanecem praticamente as mesmas durante boa parte da jogatina. Para a criançada, Yoshi and the Mysterious Book pode ser relaxante e recompensador; para quem esperava algo com mais substância, a falta de desafio pode incomodar.

Um livro de colorir interativo

Se há um aspecto em que Yoshi and the Mysterious Book é impecável, é o visual. A Nintendo mais uma vez eleva a direção de arte da franquia a um novo nível: tudo aqui parece pintado à mão, com uma estética de lápis de cor que lembra um pouco o estilo artístico de Rayman Legends — com menos espinhos e mais fofura.

O cuidado com os detalhes e animações de cada criaturinha é notável. Tudo no jogo é adorável, fofinho e carismático. Os cenários também são muito bonitos e detalhados — porém, como não temos fases tradicionais, o level design acaba não se destacando: cada área é restrita, sem muitas possibilidades de exploração.

A trilha sonora acompanha o clima cozy do game com competência: é leve e melodiosa, mas sem grandes momentos que fiquem na cabeça depois da jogatina. Os efeitos sonoros, por sua vez, contribuem muito com a “fofura” do jogo — cada criatura emite sons bonitinhos e engraçadinhos, e o próprio Yoshi está mais fofo do que nunca em suas interjeições.

Um ponto muito positivo é a localização completa para o português brasileiro, que vai além dos menus e legendas: todo o texto do catálogo, os nomes das criaturas e os diálogos estão traduzidos com o excelente “padrão Nintendo de localização” que vem se destacando a cada jogo. Do nome do livro — Professor N. Igma — às suas sugestões de nomes para os bichinhos, o jogo é cheio de jogos de palavras e trocadilhos divertidos que deixam tudo ainda mais legal para os pequenos.

Conclusão

Yoshi and the Mysterious Book é um jogo diferente e, talvez, por isso, acabe sendo um tanto divisivo. Quem procura uma aventura tradicional de plataforma pode estranhar o foco em observação e catalogação. Somado à falta de uma estrutura de fases mais tradicional, o que temos aqui é essencialmente um cozy game do Yoshi, sem atrito e sem desafios mecânicos.

E não há nenhum problema nisso. Nos últimos anos, os cozy games encontraram seu lugar, e vêm aquecendo o coração de milhões de jogadores pelo mundo. O lance é que os jogos do Yoshi não costumavam ser assim. Sempre foram mais acessíveis, mas ainda eram jogos de plataforma 2D pensados para a família. Desta vez, não é bem assim. O foco do jogo mudou, e com isso ele deve agradar mais os pequenos do que os pais.

E, novamente, não há nenhum problema nisso. Só sinto que o marketing do jogo não deixou isso muito claro. Yoshi and the Mysterious Book toma um caminho mais experimental, que faz ele ter um sabor diferente. Se isso é bom ou não, vai depender do paladar de cada jogador. Eu consigo enxergar suas qualidades e todo o capricho envolvido em sua concepção, mas sua falta de desafio não conseguiu me manter engajado.

Yoshi and the Mysterious Book está disponível exclusivamente para Nintendo Switch 2. O jogo está 100% localizado para o português brasileiro.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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