Análise Arkade – The Adventures of Elliot: The Millennium Tales já é uma das melhores surpresas do ano

17 de junho de 2026

The Adventures of Elliot: The Millennium Tales é o mais novo fruto da parceria entre a Square Enix e a Claytechworks — criadores de Octopath Traveler e Bravely Default. O jogo só lança amanhã, mas nós já jogamos, e agora vamos te contar tudo em primeira mão!

Uma aventura pelo tempo

Quem é fã do saudoso Chrono Trigger sem dúvida vai gostar de The Adventures of Elliot já por sua premissa, que envolve viagens no tempo e a ideia de visitarmos um mesmo reino em diferentes eras, ao longo de um intervalo de mil anos.

O jogo se passa no mundo de Philabieldia, mais precisamente em um continente dominado por uma tribo de feras — mas também existem autômatos, criaturas elementais e outros perigos. Neste contexto, a humanidade sobrevive graças à proteção mágica do Reino de Huther, que funciona como uma espécie de último bastião para os humanos.

Quem sustenta esta barreira mágica é a Princesa Heuria — função que drena suas forças e lhe impede de deixar o castelo. Ao contrário do nosso protagonista, Elliot, um jovem aventureiro acostumado a explorar ruínas e enfrentar os perigos que existem além das muralhas do reino.

Convocado ao castelo para o que deveria ser uma simples missão de resgate, Elliot acaba descobrindo um portal mágico que desafia as próprias leis do tempo. Ponderado, o Rei Hichard prefere não utilizar o portal… mas obviamente, pessoas menos escrupulosas acreditam que uma viagenzinha no tempo pode lhes conceder o poder e a glória que eles acham que merecem.

Após um fortuito encontro com Faie, uma fadinha curiosa e destemida, Elliot acaba atravessando o tal portal do tempo, e torna-se capaz de viajar por diferentes eras da história daquele mundo. É aí que a história de fato começa, na forma de uma jornada que atravessa os séculos, revelando civilizações perdidas, períodos de prosperidade, eras de decadência e eventos que ajudaram a moldar o presente.

Conforme avançam pelas diferentes eras, Elliot e Faie acabam envolvidos em uma trama que envolve segredos ancestrais e maldições que foram enterradas há mais de mil anos. Com o destino do Reino de Huther em jogo, não nos resta outra opção senão continuar viajando no tempo e encontrando as peças desse gigantesco quebra-cabeça que atravessa gerações.

A fada e o aventureiro

Apesar do tom grandioso da sinopse acima, The Adventures of Elliot é um jogo leve e aventuresco. A história tem um agradável senso de aventura e descoberta, e a vibe de fantasia do jogo é muito mais simpática do que épica. É um tom que remete mais a jogos como Dragon Quest do que a RPGs mais sisudos. Sim, estamos salvando o mundo, mas estamos principalmente vivendo uma grande aventura!

Muito dessa vibe se dá por conta de Elliot, um personagem simplesmente adorável. Honrado e otimista, ele não segue o perfil do protagonista mudo: sempre tem algo positivo a dizer e está sempre disposto a fazer o seu melhor para ajudar a todos que precisam dele. Depois que Faie entra na história, ela torna-se uma ótima sidekick, e a parceria que floresce entre os dois entrega desde momentos divertidos até outros genuinamente tocantes.

Nada contra RPGs sérios e grandiosos, mas de vez em quando é bom uma coisa mais leve, mais descompromissada. The Adventures of Elliot é uma jornada deliciosa por um mundo mágico repleto de segredos e mistérios que instigam a curiosidade. Mesmo tendo zerado a campanha, ainda há muito a se descobrir, e eu mal posso esperar para continuar desbravando Philabieldia.

Um pequeno grande mundo

Como você já deve ter percebido, The Adventures of Elliot: The Millennium Tales utiliza a já tradicional estética HD-2D da Square Enix. A diferença é que, ao contrário de alguns outros jogos que adotam esse estilo visual, aqui a câmera permanece fixa durante toda a aventura. Pode parecer uma limitação em um primeiro momento, mas na prática essa decisão acaba contribuindo bastante para o senso de exploração.

Explicando: muitas vezes não temos o melhor ângulo possível para enxergar um caminho alternativo, uma passagem escondida ou mesmo entender exatamente como alcançar determinado ponto do cenário. Isso faz com que a gente observe o ambiente com mais atenção, e sempre que um ponto de interesse aparece no mapa, nos deixa com aquela sensação de “como eu chego ali?”.

E vale a pena ser curioso: o mundo do jogo é repleto de cavernas, ruínas, dungeons opcionais e segredos espalhados por praticamente todos os cantos. Há até templos que lembram um pouco os Shrines de Zelda: Breath of the Wild: são desafios relativamente compactos que podem envolver combate, plataforma ou pequenos quebra-cabeças, sempre oferecendo algum tipo de recompensa interessante ao final.

Também numa pegada bem Zelda, o jogo raramente nos obriga a seguir um caminho específico. Existe uma sensação constante de liberdade, permitindo que cada jogador explore o mundo no seu próprio ritmo e descubra seus segredos de forma natural. Você até vai ouvir a Faie dizendo algo tipo “temos coisas mais importantes a fazer”, mas isso não vai te impedir de explorar uma masmorra, não é mesmo?

Outro aspecto que torna a exploração tão prazerosa é a forma como o sistema de viagens temporais se integra ao design do mundo. Conforme novas eras são descobertas, passamos a revisitar as mesmas regiões em períodos diferentes da história, observando como elas mudaram ao longo dos séculos. Uma passagem bloqueada no presente pode estar aberta no passado. Uma ruína inundada em determinada época talvez esteja acessível em outra. Em alguns casos, até mesmo missões exigem que você conecte informações obtidas em diferentes períodos temporais para encontrar a solução.

Essa construção de mundo é extremamente inteligente e faz com que a exploração vá muito além da simples busca por tesouros ou itens escondidos. Existe uma sensação genuína de descoberta e há sempre algo novo a se descobrir — nem que seja algo prosaico, tipo encontrar todos os gatos espalhados pelo jogo para um NPC apaixonado por gatos.

O resultado é um mundo relativamente compacto — quando comparado aos grandes RPGs modernos –, mas incrivelmente denso em conteúdo e possibilidades. Como sempre há algo novo para encontrar ou algum segredo novo para desvendar, a exploração raramente se torna cansativa ou repetitiva. Pelo contrário: ela acaba se tornando uma das maiores qualidades de The Adventures of Elliot, transformando cada área em um convite para continuar revelando tudo que aquele mundo ainda tem a oferecer.

Combate simples, mas cheio de possibilidades

Bom, mas além da exploração, The Adventures of Elliot: The Millennium Tales também dedica uma parcela considerável da experiência ao combate. O sistema é relativamente simples à primeira vista, mas bastante versátil e cheio de possibilidades. Este não é aquele tipo de RPG em que montamos uma party com múltiplos personagens, classes e funções complementares. Elliot é, essencialmente, um aventureiro solitário e, tirando a companhia constante da fada Faie, é ele quem “assume a bronca” durante os confrontos.

Isso não faz dele um personagem sem recursos: ao longo da jornada, vamos encontrar uma boa variedade de armamentos, incluindo espadas, lanças, martelos e até bumerangues. O combate utiliza uma estrutura bastante acessível, baseada em dois botões de ataque, mas existe um detalhe interessante: podemos equipar uma arma diferente em cada um deles. Isso permite alternar rapidamente entre estilos de combate distintos sem precisar abrir menus ou interromper o ritmo da ação.

Dito isso, não espere combos elaborados ou sistemas extremamente complexos. A profundidade não está na execução dos golpes, mas sim na forma como combinamos nossos equipamentos e habilidades para serem utilizados durante as batalhas.

Elliot também pode criar e equipar Magicites — qualquer semelhança com Final Fantasy VI não deve ser mera coincidência — mas aqui elas não funcionam como magias conjuráveis, mas como aprimoramentos para as armas (que podem, inclusive, ganhar qualidades elementais). O personagem é mais do “mano a mano”, não apela para magias.

É justamente aí que Faie entra em cena. Diferente de muitos companheiros que funcionam apenas como apoio narrativo, a fadinha possui um papel ativo tanto na exploração quanto nos combates. Controlada pelo analógico direito (ou por um segundo jogador, em um co-op opcional estilo Super Mario Odyssey), ela pode utilizar diversas habilidades especiais que vão sendo desbloqueadas ao longo da aventura.

Uma das primeiras permite que ela entre em combustão, incendiando inimigos e também elementos do cenário. Isso serve não apenas para causar dano, mas também para resolver desafios ambientais, queimando plantas, acendendo tochas e interagindo com mecanismos espalhados pelo mundo. Conforme novas habilidades são adquiridas, Faie vai se tornando cada vez mais hábil, oferecendo ferramentas que expandem significativamente as possibilidades do gameplay. Essa integração constante entre combate, exploração e habilidades da companheira ajuda a dar identidade ao jogo e evita que a aventura se resuma apenas a atacar inimigos repetidamente.

Falando nisso, se existe um aspecto em que The Adventures of Elliot deixa a desejar, porém, é na variedade de inimigos. Considerando que estamos falando de um mundo denso, explorado em múltiplas épocas, seria natural esperar que cada período apresentasse criaturas próprias e desafios inéditos. Na prática, porém, encontramos os mesmos tipos de adversários durante boa parte da campanha: você vai cansar de enfrentar os caramujos gigantes e as galinhas armadas com lanças.

É verdade que algumas dungeons mais avançadas escondem inimigos exclusivos e que o jogo apresenta um bom número de chefes (alguns dos quais também se repetem mais do que deveriam), mas, no geral, a repetição do bestiário acaba sendo o ponto mais fraco de um sistema de combate que, de resto, funciona muito bem.

Audiovisual primoroso

Se existe um departamento em que The Adventures of Elliot: The Millennium Tales simplesmente não erra, é o audiovisual. O visual HD-2D do jogo é absolutamente deslumbrante, combinando personagens em pixel art extremamente detalhados com cenários tridimensionais ricos em profundidade, iluminação dinâmica e efeitos visuais modernos. O resultado é uma apresentação que consegue unir diferentes momentos da história dos videogames em uma harmonia que beira a perfeição.

E talvez seja justamente isso que torna o HD-2D tão fascinante. Existe algo de nostálgico nos sprites e animações que remetem à era dos 16 e 32 bits, mas ao mesmo tempo os recursos tecnológicos atuais permitem criar cenários muito mais vivos e atmosféricos do que qualquer hardware daquela época seria capaz de reproduzir.

The Adventures of Elliot explora essa combinação com maestria. Florestas, ruínas, cavernas e cidades possuem personalidade própria, e a forma como luzes, sombras e partículas interagem com os ambientes faz com que cada ambiente seja um prazer de contemplar — a forma como a luz emitida por Faie cria sombras dinâmicas em cavernas escuras é de cair o queixo. É difícil não olhar para esse jogo e pensar que a Square Enix deveria explorar ainda mais essa direção artística em seus futuros projetos — imagina um Final Fantasy XVII em HD-2D que incrível?!

O mesmo lugar, com a fadinha posicionada em lugares diferentes muda totalmente a iluminação

A trilha sonora acompanha essa excelência visual. Há músicas muito boas ao longo de toda a aventura, mas algumas dungeons em especial apresentam composições memoráveis, daquelas que ficam na cabeça muito depois de desligarmos o videogame. São faixas que ajudam a construir a identidade dos lugares e reforçam constantemente o senso de descoberta e aventura que permeia toda a jornada. É facilmente uma daquelas trilhas que merecem espaço em playlists para ouvir mesmo fora do contexto do jogo.

As dublagens também fazem um ótimo trabalho ao dar vida aos personagens. Elliot, Faie, a Princesa Heuria e os demais integrantes do elenco ganham muito mais carisma graças às interpretações do elenco de voz. Isso é particularmente importante porque existe um contraste muito interessante entre os pequenos sprites utilizados durante o gameplay e as ilustrações detalhadas exibidas nas cenas de diálogo. Os personagens já são bastante simpáticos durante a exploração, mas se tornam ainda mais expressivos quando os vemos “de perto”.

Repare que a bonequinha em pixel art está na mesma posição da ilustração

O único ponto realmente decepcionante está na ausência de localização para português brasileiro. Infelizmente, a Square Enix continua adotando uma política inconsistente quando o assunto é tradução: alguns de seus jogos recebem localização, enquanto outros simplesmente ignoram o mercado brasileiro. E The Adventures of Elliot infelizmente faz parte do segundo grupo.

Como este é um jogo cheio de diálogos, textos e elementos narrativos importantes para a compreensão da história, um bom entendimento de inglês acaba sendo praticamente obrigatório para aproveitar plenamente a experiência. É uma pena, especialmente porque se trata de uma aventura que certamente poderia alcançar um público ainda maior caso recebesse uma tradução oficial.

Conclusão

Eu já imaginava que iria gostar de The Adventures of Elliot: The Millennium Tales, mas confesso que não esperava me envolver tanto com o jogo. Em uma época em que muitos RPGs parecem obcecados por mapas gigantescos, dezenas de atividades repetitivas e uma quantidade quase industrial de conteúdo — e digo isso pensando até mesmo em Final Fantasy VII Rebirth –, o que encontramos aqui é uma proposta mais enxuta, mas nem por isso menos rica.

Pelo contrário: este é um RPG de ação que entende perfeitamente a diferença entre quantidade e densidade, oferecendo um mundo relativamente compacto, mas repleto de segredos, possibilidades e recompensas para quem decide explorá-lo com atenção.

O mais impressionante é que praticamente tudo funciona em conjunto para tornar a aventura ainda mais agradável. A exploração é extremamente prazerosa, o sistema de viagens temporais adiciona camadas interessantes ao mundo, os personagens são carismáticos e a narrativa, ainda que não reinvente a roda, sabe construir seus mistérios e desenvolver seus acontecimentos de forma competente — e leva a múltiplos finais. É aquele tipo de jogo que mantém o jogador encantado e curioso, querendo descobrir o que existe na próxima caverna, qual segredo está escondido naquela ruína ou como determinado evento se conecta ao panorama geral do mundo.

A estética HD-2D é outro grande acerto. Não apenas porque é bonita — e ela realmente é deslumbrante –, mas porque parece a escolha perfeita para a proposta do jogo. Ela evoca uma atmosfera de aventura clássica que combina perfeitamente com a mistura de exploração, fantasia e descoberta que permeia toda a campanha. É um visual que ajuda a reforçar a identidade da obra e torna cada cantinho ainda mais satisfatório de explorar.

No momento em que escrevo esta análise, o embargo ainda está ativo, e o jogo ainda nem chegou oficialmente ao público. Portanto, não sei qual será o consenso da crítica especializada nem como os jogadores irão recebê-lo quando ele for lançado (amanhã).

Mas se a minha opinião servir de alguma coisa, fica aqui a recomendação. The Adventures of Elliot: The Millennium Tales é um RPG de ação encantador, divertido e extremamente bem construído. Uma aventura que consegue equilibrar nostalgia e modernidade sem depender apenas de referências ao passado. Sem dúvida, uma das melhores surpresas que tive a oportunidade de jogar este ano.

The Adventures of Elliot: The Millennium Tales será lançado amanhã (18/06), com versões para PC, Playstation 5 (versão analisada), Xbox Series e Nintendo Switch 2. O game não possui localização para o nosso idioma.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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