O dia em que a Pepsi se tornou a “sexta potência militar do mundo” ao receber navios de guerra da URSS como pagamento

A Pepsi chegou a receber 17 submarinos e três navios de guerra da União Soviética como parte do pagamento por refrigerante. Em 1989, a empresa americana se viu no meio de um dos negócios mais estranhos da Guerra Fria (e até fora dela): trocou concentrado de cola por uma frota de navios militares desativados porque o rublo não valia nada fora do bloco soviético.
Não foi exatamente uma “força armada da Pepsi” e a fabricante não estava necessariamente pronta para invadir Atlanta e atacar sua rival com bombardeios e torpedos. Os navios estavam velhos, enferrujados e prontos para a sucata. Mesmo assim, a curiosa história se espalhou e virou uma daquelas curiosidades que as pessoas repetem até hoje — a de que a marca de refrigerante teria, por um tempo, uma das maiores frotas militares do planeta.
Como a Pepsi entrou na União Soviética
Embed from Getty ImagesTudo começou em 1959, na Exposição Nacional Americana em Moscou. Como forma do projeto de “Coexistência Pacífica” entre EUA e URSS, ambas as nações acertaram de produzirem exposições com elementos de suas culturas em solos “rivais”. Os EUA levaram o “American Dream” para Moscou e os soviéticos levaram para Nova York a sua ciência, como os satélites Sputnik.
Nesta exposição, Donald Kendall, então executivo da Pepsi, conseguiu servir o refrigerante ao líder soviético Nikita Khrushchev durante a famosa “Disputa da Cozinha” com Richard Nixon. Khrushchev provou duas versões da bebida: uma feita com água de Nova York e outra com água de Moscou e declarou a soviética melhor. A cena gerou publicidade mundial e abriu a porta desejada para a empresa dos EUA.
O tempo passou, e em 1972 a Pepsi fechou o primeiro acordo formal e, com isso, se tornou o primeiro refrigerante americano vendido na União Soviética. Como o rublo soviético não era utilizado no mercado internacional, o pagamento foi em escambo: concentrado de Pepsi em troca de direitos exclusivos de distribuição da vodka Stolichnaya nos Estados Unidos. A marca de vodka, que em russo significa “da capital” e era mais um produto feito para glorificar Moscou e a União Soviética, chegou a dominar boa parte do mercado americano de importados.

Nos anos 80 a demanda soviética explodiu. Para se ter ideia, no final da década os soviéticos consumiam cerca de um bilhão de porções de Pepsi por ano. Só que a venda de Stolichnaya nos EUA esfriou depois do boicote americano à invasão soviética do Afeganistão. O mesmo boicote que fez com que os EUA não comparecessem nas Olimpíadas de Moscou em 1980, que rendeu a recíproca soviética em Los Angeles 1984 e rendeu um episódio curioso envolvendo uma promoção do McDonalds, que seria satirizado depois em Os Simpsons.
A vodka sozinha já não era suficiente para pagar o volume de refrigerante que a URSS queria.
A solução encontrada em 1989
Embed from Getty ImagesEntão o negócio precisou ser reavaliado e, na primavera de 1989, a Pepsi fechou um acordo envolvendo navios. Segundo reportagem da época do New York Times, a empresa recebeu 17 submarinos (por cerca de US$ 150 mil cada), um cruzador, uma fragata e um destroyer. Para lidar com essa frota, Kendall formou uma joint venture com uma empresa norueguesa, e no negócio, a Pepsi ficou com uma fatia do valor da venda dos navios como forma de receber o que a União Soviética lhe devia pela expansão das fábricas de engarrafamento.
Os navios foram quase que imediatamente encaminhados para sucata e, obviamente, não havia nem condições e nem intenção de colocar todo esse arsenal em operação. Mesmo assim X Kendall, na época, brincou com o conselheiro de segurança nacional americano Brent Scowcroft: “Estamos desarmando a União Soviética mais rápido do que vocês”.
Embed from Getty ImagesNo ano seguinte, em abril de 1990, veio um acordo maior ainda: algo estimado em mais de US$ 3 bilhões ao longo de uma década. Dessa vez o escambo incluía vodka e pelo menos dez navios comerciais (petroleiros e cargueiros de 28,6 mil a 65 mil toneladas). A ideia era usar o valor desses navios para financiar mais fábricas de Pepsi e até a chegada da Pizza Hut a Moscou (na época a rede pertencia ao grupo PepsiCo).
A “sexta maior frota do mundo”
Embed from Getty ImagesPor causa desse negócio, a Internet costuma contar que a Pepsi se tornou, de uma hora para outra, a sexta maior força naval do planeta. A conta não fecha. Dezessete submarinos desativados e três navios de superfície obsoletos não colocavam a empresa no ranking de marinhas reais. Em número de submarinos de ataque a frota se aproximaria da Índia na época (sétima posição), mas só no papel, sem considerar a sua força de “combate”.
Apenas para exercício de comparação, o Brasil tem, hoje, de cinco a sete submarinos, de oito a onze fragatas e zero cruzadores e destroyers. É claro que os contextos históricos influenciam a capacidade militar de um país, mas apenas olhando para os números, é interessante ver que por um curto período de tempo, a Pepsi teve um arsenal naval maior do que o nosso país possui.
A Pepsi, como era de se esperar, nunca colocou nada para a água e nem comandou nenhuma operação, atuando apenas como intermediária. Os navios estavam em condições ruins e foram para a sucata, conforme o negócio foi estabelecido. Como observou o historiador Paul Musgrave, a “marinha da Pepsi” não conferia poder militar de verdade, era mais ou menos como ter uma Ferrari enferrujada na garagem e dizer que ela competia na Fórmula 1.
O colapso da União Soviética em 1991 complicou ainda mais os acordos. Parte dos navios comerciais dos acordos (que estavam programados até meados de 2000) ficou incompleta e a Pepsi teve de renegociar não só com a “nova” Rússia, como todos os países que se tornaram independentes no processo, como Ucrânia, Letônia, Estônia, e tantos outros.
Por que a “Marinha da Pepsi” continua chamando atenção
Embed from Getty ImagesO episódio mostra até onde as empresas americanas foram para contornar as barreiras do sistema soviético e os embargos ocidentais. Sem moeda conversível, o comércio era resolvido em troca de produtos: vodka, navios velhos e petroleiros. A Pepsi apostou no mercado soviético por décadas e, no final, acabou recebendo aço militar como pagamento.
A frase de Kendall sobre “desarmar a União Soviética” resume o absurdo do momento. Mesmo na brincadeira, tínhamos empresa de refrigerante ajudando a desmontar parte da frota soviética, mesmo que só no papel e com estes veículos prontos para serem desmontados e sucateados. A Pepsi nunca foi uma força armada de verdade, mas rendeu um dos negócios mais inusitados da Guerra Fria — e um daqueles fatos que ainda fazem as pessoas observarem a curiosidade dessa situação, mesmo após tanto tempo.
Fontes:
- https://www.nytimes.com/1990/04/09/business/international-report-pepsi-will-be-bartered-for-ships-vodka-deal-with-soviets.html
- https://www.warhistoryonline.com/instant-articles/pepsi-once-had-the-6th-largest-navy-in-the-world.html
- https://magazines.marinelink.com/Magazines/MaritimeReporter/199005/page/37
- https://www.nytimes.com/1989/05/10/opinion/foreign-affairs-soviets-buy-american.html
- https://www.bunkhistory.org/resources/the-doomed-voyage-of-pepsis-soviet-navy
- https://www.nytimes.com/2020/09/24/business/donald-kendall-pepsis-chief-during-the-cola-wars-dies-at-99.html
- https://www.atlasobscura.com/articles/soviet-union-pepsi-ships
- https://www.nytimes.com/1972/11/17/archives/russians-to-get-pepsicola-plant-soft-drink-to-be-first-us-consumer.html
- https://www.globalmilitary.net/navies/bra/
- https://www.wdmmw.org/brazilian-navy.php
- https://www.marinha.mil.br/meios-navais
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