Por que o Pica-Pau original, o biruta, era realmente biruta

17 de abril de 2026

O Pica-Pau que estreou em 1940 no curta Knock Knock, da série de Andy Panda, não foi apresentado para ser um personagem “bonitinho” ou divertido. Ele surgiu como um agente do caos, de aparência grotesca e comportamento imprevisível, feito exatamente para incomodar e roubar a cena, contrastando com o simpático urso.

No Brasil, essa versão do personagem ganhou o apelido de biruta por causa do visual do personagem: olhos vesgos, bico com dente, cara de insano e mania de perturbar todo mundo sem motivo aparente. No episódio que ficou conhecido por aqui como “Pica-Pau Biruta”, ele arrumou briga gratuita com os animais, mas decidiu procurar o psi…squi…foi ver o doutor, para “tratar” essa insanidade.

Essa escolha teve o dedo de seu criador: Walter Lantz queria um antagonista que funcionasse como alívio cômico nos cinemas da época, onde os desenhos animados eram exibidos antes do filme principal para um público mais amplo, que incluía adultos.

A ideia surgiu durante a produção de um episódio de Andy Panda. Em vez de animar uma tempestade cara que danificava o telhado da casa do panda, Walter Lantz sugeriu trocar por um pássaro bicando sem parar, algo mais simples e que seria mais barato de desenhar e animar. O storyboardista Ben “Bugs” Hardaway, que havia trabalhado em personagens como Pernalonga e Patolino na Warner Bros., ajudou a dar forma ao novo pássaro.

O primeiro design ficou a cargo do animador Alex Lovy, que o deixou com pernas grossas sem penas, bico longo e fino, queixo caído e cores chamativas. Diferente do personagem que conhecemos atualmente, esse Pica-Pau não foi feito para ser “engraçadinho”: era para ser maluco, agressivo e com o único objetivo de acabar com a paciência dos outros.

Walter Lantz contava, em entrevistas e no próprio programa de TV que apresentou anos depois, uma história recorrente sobre a inspiração: durante uma viagem com a esposa Grace Stafford, um pica-pau real bicou o telhado da cabana e os manteve acordados, torrando sua paciência.

Por causa do incômodo, Grace teria sugerido transformar o incômodo em desenho em vez de atirar no pássaro. Embora o biógrafo Joe Adamson aponte que esta lua de mel aconteceu depois da estreia do personagem, a versão de Lantz se repetiu por décadas e foi confirmada por membros da equipe da época, como o diretor Alex Lovy.

O resultado foi um Pica-Pau que ria de forma maníaca, risada está criada por Mel Blanc (que também dublou o Pernalonga e muitos outros personagens) a partir de um som que ele já usava em protótipos de coelho na Warner, e agia como um agente do caos.

Desenho não era coisa de criança em 1940

Na década de 1940, os desenhos animados não eram feitos só para crianças. Eles rodavam nos cinemas para plateias mistas, antes dos filmes anunciados no dia, e precisavam prender a atenção de adultos que pagavam ingresso.

Esse estilo de animação frenética, de humor acelerado e sem limites, era o que dominava as telonas: personagens como Patolino e Pernalonga já mostravam que o público gostava de figuras irreverentes, que desafiavam autoridade e faziam muita bagunça.

O Pica-Pau biruta encaixava perfeitamente nisso. Ele não tinha lição de moral ou lado bonzinho, ele simplesmente perturbava por prazer, e isso funcionava como escape para quem via os curtas no cinema. Algumas famílias até reclamaram que o visual assustava os filhos pequenos, mas o personagem decolou mesmo assim.

Ir ao cinema nos anos 40 era uma experiência completa e barata. Como parte de um programa mais extenso do que as nossas idas atuais a um cinema, o dia começava com um noticiário (o newsreel) trazendo imagens reais da guerra, eventos mundiais e atualidades. Lembre-se que, em um mundo sem televisão, essa era a única forma de muita gente ver o que acontecia mundo afora, incluindo a guerra, em especial quando os EUA entraram de vez no conflito.

Depois das notícias, era a hora de um curta de comédia no estilo Os Três Patetas, talvez um documentário ou musical curto, e um desenho animado de uns sete minutos, como os primeiros do Pica-Pau. Muitos cinemas funcionavam de forma contínua, durante o dia: o público entrava e saía quando quisesse, com lanterninhas guiando no escuro.

O cinema era algo extremamente popular e m custavam pouco, algo em torno de 50 centavos para adultos e bem menos para crianças, o que tornava o cinema uma saída familiar acessível em tempos de racionamento e tensão da Segunda Guerra, onde outros entretenimentos, como o teatro, eram bem mais caros.

Memórias de quem viveu a época descrevem as salas lotadas onde todos riam juntos dos curtas, usando o humor como alívio coletivo enquanto os noticiários mantinham o país informado.

O timing ajudou. O Pica-Pau surgiu em novembro de 1940, meses antes do ataque a Pearl Harbor, e o personagem ganhou força durante a participação direta dos EUA na Segunda Guerra Mundial. Seu jeito bruto e sem filtro combinava com o momento: os soldados americanos pintavam a imagem dele como nose art em aviões de guerra e em refeitórios de bases militares.

Os curtas também mostravam o personagem lidando com problemas reais do dia a dia das pessoas nos Estados Unidos daquela época, como racionamento de comida e combustível no episódio O Afanador de Gasolina, de 1943. Aquele que ele diz que “é um diabo necessário” e deixou muita mãe dos anos 80 e 90 de cabelos em pé.

Eram tempos os quais os cidadãos dos EUA tinham de usar cadernetas de cupons para adquirir itens limitados como açúcar, gasolina, carne, pneus e calçados, com estas restrições durando até o pós-guerra. Se você jogou Mafia 2, foi exatamente pelo roubo de cupons como estes que Vito Scaletta foi preso.

Enquanto civis enfrentavam escassez e soldados viviam a tensão do front, ver um pássaro biruta reclamando de falta de suprimentos ou causando confusão virava forma de desabafo coletivo. O humor maluco ajudava a aliviar o estresse sem precisar ser sério ou ter um tom de propaganda direta.

Um pássaro que se tornou parte da história

Do ponto de vista histórico, o Pica-Pau biruta reflete o que a animação americana vivia nos anos 40: a transição da Grande Depressão, com o seu alto nível de desemprego para um contexto guerra, que apesar de reaquecer a economia com a indústria focada em armas, tanques e elementos militares, também trazia tensão e medo pelas incertezas do futuro do país, do mundo e dos entes queridos que vestiam uniformes e iam para a Europa, África ou Pacífico.

Nesta época, os estúdios como o de Walter Lantz competiam de forma direta com Warner e Disney, em uma era próspera para tais animações. Os curtas eram baratos de produzir em comparação a filmes longos e serviam tanto como elementos que mantinham o entretenimento ativo, quanto como formas de expressar, de forma mais fantasiosa, os sentimentos gerais daqueles dias.

A influência de Tex Avery e do estilo Looney Tunes (mais caóticos do que os personagens da Disney), trazida por Ben Hardaway, transformou o personagem em uma versão mais crua do que viria depois.

Ele não era feito para ser personagem principal e nem ser um produto de venda para crianças; ele foi feito para incomodar e fazer rir com isso. Foi apenas quando a TV chegou pra valer nos anos 50, que o design e o espírito do personagem mudou: ele agora tinha pernas azuis, luvas brancas, e um olhar menos vesgo, ou maníaco, como alguns lembram dele.

O Pica-Pau ficou mais direcionado para o público infantil, se mantendo assim até hoje, e para a censura da televisão, mas a versão original guardou o espírito dos cinemas em dias de guerra.

Além disso, o personagem encarnava a rebeldia individualista típica da cultura americana daquela época. Em um país que se viu obrigado a racionar para o esforço de guerra, com limitação de bens do dia a dia, propaganda e pressão por conformidade, um pássaro que não seguia regra nenhuma funcionava como um “grito” para uma sociedade que aprendeu a viver o “Sonho Americano” e agora tinham que puxar o freio das suas vidas, precisando diminuir o ritmo ou atrasar sonhos, para o bem comum da nação.

Ele também representava o lado caótico da vida cotidiana, o vizinho barulhento, a burocracia chata, a frustração acumulada e permitia que o público risse disso sem culpa. Para os soldados, especialmente, o Pica-Pau nas fuselagens dos aviões e nos curtas servia como companhia irreverente: alguém que, mesmo em meio ao absurdo, continuava bicando e rindo.

Não era propaganda oficial, mas ajudava a manter o moral alto de forma orgânica. Estudos sobre animação da época mostram que esse tipo de humor ajudava a processar ansiedade coletiva, transformando o medo e a escassez em piada coletiva. Não a toa, em 1942 o episódio Ace no Buraco trouxe o personagem para a Força Aérea, fortalecendo ainda mais o seu vínculo com as forças armadas.

O Pica-Pau biruta não durou muito tempo como um biruta completo. O design mudou já em 1944, ainda nos tempos de cinema, com O Barbeiro de Sevilha, mas deixou a sua marca. Ele mostrou que, em 1940, o que as pessoas queriam não era fofura, mas personalidade forte o suficiente para literalmente roubar a cena e o filme de um panda.

E funcionou: virou a grande estrela do universo de Lantz, colocou a sua música tema em nossos ouvidos até hoje e se mantém relevante através décadas, inclusive no Brasil, onde a versão maluca ainda é lembrada com carinho, mesmo vindo para cá sem contextos e com todas as versões misturadas. O segredo estava exatamente aí: ele era biruta de propósito, e o público da época entendia perfeitamente por quê.

Fontes consultadas:

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Junior Candido

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