Análise Arkade: 1000xRESIST: uma obra-prima narrativa que fica ainda mais imperdível em PT-BR

Lançado originalmente em maio do ano passado para PC e Switch, 1000xRESIST foi muito elogiado por sua trama mirabolante de ficção científica. De fato, a história do jogo até recebeu prêmios.
Como alguém que gosta de videogames especialmente por seu potencial narrativo, me doeu ter deixado esse jogo passar na época. Felizmente, esta semana ele está chegando a mais plataformas — PS5 e Xbox Series –, com direito a uma novidade: legendas em PT-BR. E foi assim que eu tive a oportunidade de, enfim, vivenciar esta história tão comentada.

E a verdade é que 1000xRESIST não é lá um jogo muito “jogável”, mecanicamente falando, mas uma experiência narrativa interativa que não tem medo de se despir de mecânicas tradicionais complexas de gameplay para manter o foco no que importa: sua história.
Uma narrativa feita de memórias fragmentadas
A narrativa é, sem dúvida, o ponto alto do jogo. A trama nos transporta mil anos após a chegada dos Ocupantes — uma raça alienígena que trouxe um vírus que dizimou a humanidade, exceto por um grupo de clones de uma jovem chamada Iris (que era imune) e é liderado pela lendária ALLMOTHER.

Neste futuro distópico, esta sociedade de clones vive sob a tirania da fé e da propaganda, onde a ALLMOTHER é reverenciada como a salvadora que um dia reclamará a superfície. Neste contexto, assumimos o controle da Observadora, uma das clones, cuja missão é realizar a Comunhão — ato de reviver as memórias da ALLMOTHER para preservar sua história.
Contudo, este mergulho nas memórias fragmentadas da suposta salvadora vai revelando inconsistências e segredos sombrios que podem colocar em xeque toda uma sociedade e um sistema de crenças que foi construído em cima de conspirações e falsas verdades.

Estou sendo propositalmente vago porque, como já dito, a história é a melhor parte de 1000xRESIST. E ela é realmente muito boa. Começa um pouco confusa, sem explicar muita coisa, mas rapidamente se transforma em um thriller de ficção científica empolgante e afiado, onde temas como fé, verdade e propaganda se cruzam, desafiando nossa percepção e nossas concepções sobre o que é verdade e o que não é.
O texto é absurdamente bem escrito e cheio de nuances. Cada frase, por mais aleatória que pareça em um primeiro momento, está ali por uma razão, e vai fazer sentido no momento certo. Todo diálogo tem múltiplas camadas, e ainda que algumas revelações demorem a chegar, a espera vale a pena: o jogo tem alguns plot twists que “explodem a cabeça da gente” e vão reverberar na sua mente por muito tempo.

É uma história madura, delicada e surpreendente. E, por mais que seja sobre futuros distópicos, vírus alienígenas e sociedades de clones, é surpreendentemente humana (e muito influenciada por temas contemporâneos, como a pandemia).
Exploração e comunhão
Se ainda não ficou claro, eu reforço: 1000xRESIST é um jogo narrativo. Então, não se engane: apesar de sua estética de anime desconstruído e sua temática futurista, aqui não há combate, nem muita ação propriamente dita. Ele é um jogo sobre exploração e conversa, com tomadas de decisão e puzzles ocasionais.

Eu vejo 1000xRESIST como uma evolução do gênero visual novel — que é majoritariamente narrativo, e a gente mais assiste do que joga. Aqui, o jogador é mais ativo, mas mesmo assim, não faz muita coisa, mecanicamente falando. Você vai basicamente andar para lá e para cá, interagindo com outros personagens e pontos de interesse enquanto vai se aprofundando nas memórias da ALLMOTHER. Na prática, é meio que um walking simulator com bastante conversa.
A mecânica central da Comunhão — que é o ato de reviver as memórias da ALLMOTHER — é o que deixa tudo isso mais interessante. No papel da Observadora, vamos saltar através do tempo, testemunhando os mesmos locais em diferentes épocas, vendo como a história se desfaz e se reconstrói em diferentes contextos.

Isso faz com que a narrativa seja intensa e provocativa, instigando a curiosidade do jogador. No começo, você não vai entender nada — faz parte –, mas conforme vai avançando, as peças vão se encaixando e as verdades vêm à tona. Algo que foi dito no capítulo 1 do jogo e pareceu sem sentido, volta com tudo no capítulo 8, recontextualizado, para explodir a cabeça do jogador.
A construção narrativa ganha pontos por usar a não-linearidade de forma inteligente: não como um truque barato, mas como uma ferramenta de controle — é como se o jogo estivesse tentando ocultar os segredos obscuros da sua narrativa do jogador em diferentes timelines — que a protagonista precisa resistir.
Anime e estética abstrata
Apesar de ser um indie com orçamento modesto (este é o primeiro jogo de um estúdio formado por menos de 10 pessoas), 1000xRESIST compensa suas limitações com uma direção de arte super estilosa e cheia de personalidade.

O visual é propositalmente abstrato e estilizado. O mundo parece uma abstração onírica, que existe entre o real e o simbólico, usando cores e formas para comunicar a melancolia filosófica da história, em uma fusão que, se não é deslumbrante, sem dúvida chama a atenção e contribui com a dramaticidade filosófica da história.
As dublagens são incrivelmente boas: todos os diálogos são falados, e a escolha de talentos foi muito acertada: não há nenhum dublador famoso, mas as atuações são ótimas, e contribuem com a profundidade emocional proposta pelo jogo.

Para fechar com chave de ouro, temos a já mencionada localização em português brasileiro, elemento que faz toda a diferença em um jogo narrativo. O jogo já chegou ao PS5 e Xbox Series devidamente localizado, e as demais plataformas receberam nosso idioma por um patch de atualização gratuito.
Considerando que o texto é 99% da experiência e a densidade da narrativa é altíssima, ter acesso à história em nosso idioma é crucial para fortalecer a imersão. Este é um jogo que exigiria um bom conhecimento de inglês para ser apreciado, e quebrar esta barreira idiomática é fundamental para que o game receba o reconhecimento que merece. E, a qualidade da tradução é ótima para não deixar ninguém boiando.
Conclusão
1000xRESIST é uma joia rara que nos lembra do poder dos videogames como mídia narrativa e artística. É uma história que não funcionaria da mesma maneira em nenhuma outra mídia, e isso só engrandece o poder narrativo (e nem sempre bem aproveitado) da décima arte — pois é, caso você não saiba, o videogame é a décima arte.

Independente da mídia, eu amo boas histórias. Vim com as expectativas altas por todos os elogios prévios que vi sobre 1000xRESIST, e mesmo assim, o jogo superou as minhas expectativas ao entregar uma ficção científica densa, emocional e incrivelmente bem amarrada.

Ao brincar com a linguagem do videogame em prol da narrativa, e ao oferecer uma experiência que foge dos clichês, o estúdio (INICIANTE) Sunset Visitor criou algo único. Um jogo denso, inteligente, que nos convida a questionar, duvidar, refletir. É uma história que fica na cabeça muito depois dos créditos rolarem — e poder vivenciar tudo isso em PT-BR deixa a experiência ainda mais fácil de recomendar.
1000xRESIST está disponível para PC e Nintendo Switch desde 2024, e chegou hoje ao PS5 e Xbox Series (inclusive ao Game Pass), junto com a muito bem-vinda localização PT-BR.