Análise Arkade: Beast of Reincarnation tem uma cadência inconstante, mas diverte bastante

Estamos tão acostumados com o fato da Game Freak ser a desenvolvedora principal de Pokémon que até estranhamos quando ela lança algo diferente, mesmo ela já tendo lançado vários games fora da franquia da Nintendo. Porém, Beast of Reincarnation é verdadeiramente algo novo do estúdio, uma jornada por um estilo tanto visual quanto de gênero que o estúdio até então não tinha tentado! E em muitos sentidos, o game tem cara de “primeira vez”. Vamos conversar mais sobre isso?
O mundo daqui 2 mil anos

Beast of Reincarnation é ambientado no Japão no ano de 4026, 2 mil anos no futuro. Nesse mundo, a evolução da humanidade atingiu um ponto em que a humanidade em si foi deixada de lado. Objetivando o fim do sofrimento, os humanos encontraram uma forma de livrarem-se de todos os sentimentos e prolongar suas existências abandonando seus corpos e transferindo suas almas para corpos robóticos, transformando-se em golems.
Com isso, os golems passaram a ser a “classe dominante” do mundo, chegando a tratar até os humanos de carne e osso com desdém, como criaturas inferiores que existem apenas para servi-los. Mas quase tudo veio a baixo quando uma misteriosa aflição abateu-se sobre o planeta: O surgimento da Fera da Reincarnação.

Pouco se sabe sobre essa Fera, apenas que ela surge a cada 100 anos trazendo com sigo a pestilência, uma estranha maldição que afeta toda a natureza, fazendo florestas crescerem e desaparecem num instante, e infectando animais e humanos, tornando-os híbridos de criaturas de carne, osso e vegetação. Os animais afetados pela pestilência passaram a ser chamados de Profanos, tornando-se extremamente violentos e devorando humanos, com os mais poderosos entre eles, gigantes que afetam diretamente toda a natureza a seus redores, foram chamados de Nushi.
E os humanos afetados passaram a ser chamados de Pestilentos, sendo ostracizados pelos humanos e principalmente pelos golems, sendo tratados como seres impuros. Porém, os pestilentos ganharam poderes, força, velocidade e a capacidade de estenderem seu corpos ao produzirem raízes e vinhas, usadas tanto para atacar como para locomoção. A humanidade, mesmo destratando os pestilentos, precisa deles para sobreviver, pois eles são os únicos com força o suficiente para enfrentar os Profanos e os Golems Corrompidos, golems tão velhos que perderam o controle, se voltando contra a humanidade.

Nesse mundo vive Emma, uma jovem pestilenta diferente de todos os outros com a mesma condição que ela por três motivos: Primeiro, ela é capaz de absorver a pestilência em seu próprio corpo, purificando a natureza e ficando mais forte. Segundo, ela não possui sentimentos e nem memórias de seu próprio passado, não conseguindo compreender coisas como amor, afeição, tristeza medo ou mesmo raiva. E terceiro, ela tem uma estranha conexão com uma garota chamada Violet, que apenas Emma consegue enxergar e ouvir.
Emma então recebe uma missão diretamente da Capital, o maior refúgio da humanidade nesse mundo: Ela deve matar a Fera da Reencarnação. Para isso, ela deverá matar e absorver o poder dos Nushi, ficando forte o suficiente para enfrentar a Fera. Com essa missão, Emma parte pelo Japão caçando os Nushi e explorando diversos locais que ainda guardam monumentos e relíquias do passado.

Mas, ela não estará sozinha, sempre a seu lado está Ko, um lobo branco profano, possuindo múltiplas caudas em forma de raízes e vinhas, com ambos possuindo uma conexão inquebrável, ainda que Emma não consiga entender bem o significado disso. E junto da dupla estão Kagura, uma menina salva por Emma quando o vilarejo em que viviam foi atacado por um profano gigantesco, e Brad, o piloto de um Golem transformado em veículo, que as leva pelas diferentes regiões do país em direção à Capital.
Ação rápida + repetitividade + Pokémon

Beast of Reincarnation é uma mistura de hack n’ slash, com um pouquinho de RPG de ação, uma considerável pitada de Souls-like e… Pokémon. O game progride com Emma avançando por diferentes áreas fechadas, meio ao estilo sandbox, cada uma com algumas poucas missões principais, mas muitos lugares para explorar em busca de loot.
Nesse ponto, o game vai direto ao ponto. Chegue numa nova área, siga é o ponto marcado no mapa, que vai se atualizando conforme você avança, até chegar ao final e enfrentar o Nushi que serve de chefão da área. Explorar tudo o que cada mapa tem é opcional, mas o game é um prato cheio para quem gosta de exploração, com muita coisa escondida, mas ainda assim fáceis de encontrar.

Seus combates são de alta velocidade. Emma possui duas formas de ataque: Usando uma katana para golpes físicos, que acumulam emaranhamento (uma barra na parte de baixo da tela), que quando acumulada o suficiente permite que Emma use as habilidades que absorveu dos Nushi, fazendo brotar plantas de diversos tipos que atacam os inimigos. Assim, os combates funcionam ao realizar combos combinando golpes de katana com habilidades.
Os combos são extremamente simples, basicamente funcionando em sequências de um, dois, três ou quatro golpes seguidos da ativação das habilidades, o que após algumas horas de jogo, pode ficar um tanto repetitivo. E ainda é possível melhorar e desbloquear novas habilidades em uma verdadeira árvore de habilidades, uma para Emma e outra para Ko.

Infelizmente, a repetitividade é o ponto negativo do game. Cada nova área funciona igual a anterior, o que em si não é o problema, exceto quando as coisas vão ficando muito parecidas em termos de objetivos. Inclusive, em alguns trechos o game chega a repetir chefões anteriores, mas sem adicionar mudanças na luta, apenas deixando-os mais fortes.
Há ainda recurso de esquiva e defesa, com o game priorizando as esquivas perfeitas e as aparadas (defesas de timing perfeito), o que adiciona uma boa dose de desafio, sendo algo bem familiar para quem é fã de Sekiro: Shadows Die Twice. Defender-se normalmente consome a barra de emaranhamento, e se ela se esgotar, Emma tem sua defesa quebrada e fica vulnerável por alguns segundos. Assim, usar defesas perfeitas é o ideal. Mas não apenas isso, usar a defesa perfeitamente é necessário para usar um importante recurso de batalha: A ajuda de Ko.

Ko age automaticamente dentro e fora de batalhas, com o jogador podendo equipá-lo com itens e habilidades diversas, como curar Emma, usar itens de dano elemental ou colocar armadilhas no chão, essas ações sendo “gratuitas”. Porém cada defesa perfeita aumenta em 1 ponto uma barrinha no canto direito da tela, indo de 0 a 9 pontos. Esses pontos são usados para ativar as habilidades de Ko.
Ao abrir o menu de habilidades de Ko, o tempo desacelera, permitindo que você selecione um ataque e um inimigo alvo. Após isso, um QTE surge na tela para causar dano máximo se o jogador apertar o botão na hora certa. Usar o Ko funciona exatamente como Pokémon, você escolhe o alvo e o ataque e o lobo usa a habilidade escolhida instantaneamente, algo muito útil para interromper inimigos ou causar alto dano.

E essa barra de habilidades de Ko só recarrega com defesas perfeitas, então você terá que aprender a usá-las. E ainda há um fato crucial, inimigos mais fortes, quando acertam Emma, a atordoam por cerca de 1 a 2 segundos, o que não sei se é intencional ou um ponto negativo do gameplay. Mas esse atordoamento faz com que, ao começar apanhar de um combo, o game não deixe Emma recuperar-se a tempo. Se o combo do inimigo for rápido, já era. Se os golpes forem espaçados, aí sim você tem uma janela para escapar e se recuperar.
Uma história interessante, mas de ritmo lento

Normalmente eu não reclamo se uma história é um tanto lenta, pois percebo vários critérios para tentar julgar o passo de uma história: Se ela demora muito tempo para chegar ao ponto construindo mistérios/dramas, ou se ela simplesmente enrola sem motivo. No caso de Beast of Reincarnation, algo que me incomodou é a repetitividade em certos trechos e a extrema lentidão dos personagens ao conversarem dentro de uma mesma cena.
A repetitividade de que falo tem a ver com o final de cada capítulo do game. Cada área que visitamos corresponde a um capítulo, e ao chegarmos ao final de cada um, com Emma derrotando um Nushi ou um chefão poderoso, a história principal se desenvolve pedacinho por pedacinho, revelando detalhes sobre a Fera da Encarnação, sobre Emma, Ko e Violet.

O fato do game ir montando a história principal pedaço a pedaço não me incomoda, o que me incomoda é que as vezes parece que o game, apenas para extender um pouco mais sua duração, repete pontos já explicados ou já apresentados, não desenvolvendo a história de nenhuma forma, apenas para preencher a cena entre uma área e a outra.
E, os diálogos, por alguma razão, são muito lentos. Um personagem fala, passam segundos de silêncio, e o outro responde. Games em japonês tendem a ser assim normalmente, mas minha impressão é que em Beast of Reincarnation isso é um pouco exagerado. E algo que me incomoda é que muitas vezes Emma recebe ligações de outros personagens durante a ação, com o diálogo ocorrendo sem interromper o gameplay, mas muitas vezes em momentos bem fora do timing.
Por exemplo durante uma luta intensa, fazendo ser impossível ouvir e ler as legendas e lutar ao mesmo tempo. Ou quando um personagem resolve falar logo antes de você interagir com algo no cenário, cancelando o diálogo. Felizmente, essas conversas não são cruciais para a narrativa, mas quase sempre surgiam nos piores momentos.
Um game bem bonito, mas com cara de “primeira viagem”

Beast of Reincarnation é um game bem bonito, principalmente em seus cenários, com cada área sendo bem diferente da anterior, misturando ruínas da civilização antiga com a natureza selvagem e transformada por conta da pestilência, com flores gigantes, árvores retorcidas e golems tão velhos que tornaram-se parte do cenário.
Os visuais dos personagens são bem feitos, ainda que simples, com Emma e Ko sendo as óbvias exceções, graças a mistura de plantas em seus corpos. Emma possui o cabelo preso em uma trança com flores, com flores diferentes crescendo para cada Nushi derrotado. Ko é um enorme lobo branco com lombo e cauda formado por várias plantas diferentes.

Os golems são identificados por seus visuais, desde robôs simples, até golems enormes e até mesmo alguns vestidos como samurais ou ninjas. Os Nushi, por outro lado, são incríveis, animais gigantes que mais parecem flores ou árvores que andam, passando por transformações durante suas lutas e ficando ainda mais impressionantes.
Mas, mesmo com todo o seu belo visual, Beast of Reincarnation transmite uma forte sensação de “primeira viagem” da Game Freak, e de fato é, sendo o primeiro game do estúdio com um visual mais realista. As animações dos personagens são bem duras, bem estilo de JRPGs da era PS3 e PS4. E há muitos erros de textura nos cenários que não dá pra simplesmente ignorar.

Mas, algo que o game tem que há muito tempo eu não via de forma tão presente são paredes invisíveis bloqueando o avanço para fora da área do mapa. Isso normalmente não me incomoda, mas esse game tem muito disso.
É por isso que o game parece como se fosse uma “primeira viagem” de um estúdio, pois ainda que seja bem competente e divertido, acaba caindo em certas armadilhas bem conhecidas de gerações passadas, me fazendo pensar que o game talvez realmente seja uma “primeira viagem” da Game Freak para fora de sua zona de conforto. Talvez um primeiro passo para conseguir expandir mais seu território além de Pokémon.

O game possui uma boa trilha sonora que, infelizmente, cai na repetitividade, com trilhas cantadas em japonês que servem de “som ambiente” durante o gameplay. Mas elas se repetem sempre, com a mesma música tocando por duas ou três áreas antes de uma nova ser apresentada, também tocando repetidamente por mais duas ou três áreas.
Eu joguei com áudio original em japonês, e os personagens são bem dublados nesse idioma, sem muito destaque em particular para nenhum personagem, porém Emma transmite bem sua personalidade, ou falta dela, pelo fato dela não ter e não entender emoções.
O game ainda conta com localização em português brasileiro em seus menus e legendas!
Conclusão

Beast of Reincarnation é realmente algo como um “primeiro game”, no sentido de ser uma verdadeira tentativa de algo novo para a Game Freak. O estúdio não faz só Pokémon, mas essa é a franquia principal deles há tanto tempo que virou sinônimo do estúdio. Porém, essa foi a primeira vez que o estúdio tentou algo com mais ação e visual realista.
O game sofreu várias críticas online principalmente por conta de sua repetitividade, que em certos momentos realmente é um problema. Mas num geral, é um game bem competente e definitivamente não é ruim. Ele oferece bastante ação e uma história interessante, só não conseguiu chegar a uma cadência balanceada.
Mas a impressão que fica no final é que esse é um passo novo para o estúdio começar a ramificar-se, a criar mais coisas originais e diferentes. E isso é realmente algo bem positivo! Beast of Reincarnation é um game divertido, e me faz ter bastante otimismo com o que a Game Freak conseguirá criar no futuro, com mais experiência em experimentar!
Beast of Reincarnation foi lançado no dia 4 de agosto com versões para PC, Playstation 5 e Xbox Series X/S.








