Análise Arkade: Capcom Fighting Collection 2 traz alguns clássicos e o “lado B” da Capcom

A Capcom continua revirando o baú dos seus clássicos de luta! O lance é que, quase tudo o que havia de mais relevante nesse baú já foi revisitado… o que faz desta Capcom Fighting Collection 2 um pacote, no mínimo, curioso. Vem saber mais?
Uma seleção curiosa
Lançada em maio para PCs e consoles da geração passada, esta compilação celebra uma época muito específica — entre 1998 e 2004 — e reúne jogos 2DS e 3D.

Temos aqui alguns dos melhores crossovers que a Capcom já criou — fora da franquia Marvel Vs. Capcom — ao lado de jogos que são “clássicos cult” e até outros que, ouso dizer, são totalmente desconhecidos da maior parte do público.
Eis aqui os jogos disponíveis em Capcom Fighting Collection 2:
- Capcom vs. SNK: Millennium Fight 2000 Pro
- Capcom vs. SNK 2: Mark of the Millennium 2001
- Capcom Fighting Evolution
- Street Fighter Alpha 3 Upper
- Power Stone
- Power Stone 2
- Projekt Justice (sequência de Rival Schools)
- Plasma Sword: Nightmare of Bilstein
Capcom Vs. SNK: os maiorais
Os dois crossovers com a SNK são os óbvios destaques da coletânea, por sua qualidade ímpar — e também por trazerem embates entre personagens das empresas que dominavam os fliperamas entre os anos 1990 e 2000.

CvS: Millennium Fight 2000 Pro é a evolução do primeiro capítulo de um embate muito sonhado pelos jogadores, uma vez que combinava lutadores de Street Fighter e The King of Fighters (e alguns poucos convidados de outras franquias).
A ideia de confrontos do tipo Ryu x Kyo, Ken x Terry ou Iori x Akuma era o “sonho molhado” dos frequentadores das casas de fliperama, e ver isso acontecendo de forma oficial (sem mods ou mugens) é simplesmente épico.

Mas isso era só o começo: foi em Capcom vs. SNK 2: Mark of the Millennium 2001 que a brincadeira ficou séria. De fato, CvS2 é considerado até hoje um dos jogos de luta mais profundos já feitos, graças à combinação de sistemas como Ratio e Groove, que permitem personalização de equipes e estilos de luta.
Isso, somado a um elenco mais permissivo de personagens — que englobou também franquias como Rival Schools e Samurai Shodown –, bem como artes icônicas no estilo de cada empresa, colocou de vez CvS2 no hall dos grandes crossovers dos videogames. É sem dúvida, muito superior ao que vimos em SvC Chaos, o “lado SNK” da briga.

De fato, só a presença deste jogo — com melhorias de qualidade de vida, personagens secretos liberados e jogatina online com rollback e netcode — já é motivo mais do que suficiente para colocar este pack no radar dos fãs.
Outros jogos 2D
Mas não para por aí: entre os jogos 2D, temos ainda Street Fighter Alpha 3 Upper, que é meio que uma “versão final” do jogo, lançada exclusivamente em arcades japoneses, e que depois recebeu um port para Game Boy Advance. Adoro Street Fighter Alpha 3, mas já pude rejogá-lo em outras coletâneas da Capcom, de modo que esta versão não é particularmente relevante.

Por fim, temos Capcom Fighting Evolution, um projeto que é tão audacioso em sua proposta quanto criticado por ser desbalancado e inconsistente. O game de 2004 é um crossover de franquias da própria Capcom, que traz como diferencial o fato de que cada lutador carrega o sistema de combate de seu jogo original. O resumo é que esta ideia funciona melhor na teoria do que na prática.

Um título relevante para a proposta de uma coletânea como essa — que visa resgatar jogos emblemáticos, torná-los acessíveis a novas gerações e oferecer um panorama histórico da evolução da desenvolvedora e servir como uma ferramenta oficial de preservação histórica — mas com uma jogabilidade que deve ser revisitada com ressalvas.
Os jogos 3D
O restante dos títulos escolhidos para este pacote são, ouso dizer, representam um momento mais experimental, uma época em que a Capcom tentava ir além do que a consagrou nos jogos de luta. Ou seja, saem de cena Ryu, Ken e os charmosos sprites 2D, entram jogos poligonais 3D desajeitados que vão do party game ao duelo de espadas.
Power Stone e Power Stone 2 parecem mais experimentos de uma era pré-Smash Bros da Nintendo do que um verdadeiro jogo de luta da Capcom. Os personagens são extravagantes e as lutas meio que são resolvidas “na marra” com a utilização das tais pedras do poder do título, que devem ser coletadas para que seu personagem possa, de fato, eliminar os oponentes.

Power Stone 2 evolui a fórmula e continua divertido, especialmente em partidas locais para 4 jogadores, mas ainda é um jogo bastante fora da curva no acervo da Capcom. Vale ressaltar que o que temos aqui é a versão arcade, que oferece menos conteúdo que a icônica edição de Dreamcast.
Project Justice é a sequência do clássico cult Rival Schools, que continua as tretas entre estudantes em confrontos 3×3. Acho curioso eles terem incluído este jogo aqui e não o próprio Rival Schools — que, se bem me lembro, não esteve na parte 1 da coletânea. Apesar disso, é um jogo competente, com ótimo character design e um modo história robusto para cada trio.

Plasma Sword, por sua vez, é um jogo com foco em armas brancas, que parece uma tentativa da Capcom de aproveitar o hype de outros jogos da época, como Soul Calibur e Battle Arena Toshinden. Não é lá um jogo muito bom, e, tal qual outros jogos 3D da época, não envelheceu com a mesma graça dos 2D.

Falando bem honestamente, se era para incluir jogos de luta 3D de qualidade questionável, eu preferia que a Capcom tivesse revisitado a saudosa série Street Ex Plus. Jogos poligonais horrorosos e que nem de longe são bons como os clássicos 2D da saga, mas que, acredito, tem mais apelo nostálgico para muita gente do que o desconhecido Plasma Sword.
Recursos e audiovisual
Tal qual outras coletâneas recentes da Capcom, aqui temos um trabalho primoroso para quem busca replicar fielmente a experiência dos arcades originais. É possível desbloquear versões japonesas e ocidentais dos games e aplicar filtros de CRT, zoom e upscaling.

Como em outras coletâneas recentes da Capcom, o modo treino é bastante robusto, permitindo alternar entre títulos, visualizar hitboxes e aprimorar combos em um nível competitivo — se não for o seu caso, as opções de acessibilidade facilitam as coisas. E por falar em competição, o já mencionado rollback netcode garante partidas online estáveis e fluidas, com modos ranqueados, lobbies e modo espectador.
Para completar de vez a viagem ao passado da Capcom, temos mais uma vez um museu digital recheado de materiais originais.

No total, são mais de 700 imagens e mais de 300 músicas disponíveis, (incluindo remixes contemporâneos), com direito a artes conceituais oficiais, layouts de adesivos de arcades, esboços, propagandas da época e muito mais.
Conclusão
Para fãs que cresceram torrando o dinheiro da mesada em fichas de fliperama, uma parte desta Capcom Fighting Collection 2 é um prato cheio — especialmente CvS2 e CvS Millennium 2000 Pro, títulos de qualidade ímpar que envelheceram bem e continuam excelentes.

A outra parte, composta por jogos menos conhecidos e até um pouco inconsistentes, representa um lado B da Capcom que talvez nem todo mundo conheça. Se Power Stone 2 ainda consegue entregar um pouco de diversão casual, títulos menos lembrados como Plasma Sword — ou mesmo de qualidade duvidosa, como Capcom Fighting Evolution — estão aqui basicamente como curiosidade histórica.
No fim das contas, Capcom Fighting Collection 2 é mais do que apenas uma compilação de jogos antigos: é um documento de preservação que celebra a história da Capcom em uma de suas eras mais experimentais.
Capcom Fighting Collection 2 está disponível para PC, Playstation 4, Xbox One e Nintendo Switch, rodando em consoles atuais via retrocompatibilidade.