Análise Arkade – Cronos: The New Dawn, uma jornada horripilante com muitos acertos e alguns tropeços

3 de setembro de 2025

Desenvolvido pela já conhecida Bloober Team, Cronos: The New Dawn chega no próximo dia 05 de setembro como a mais nova aposta da desenvolvedora para o survival horror. Aqui acompanhamos uma personagem chamada de Viajante, que trabalha para a organização Coletiva investigando locais enigmáticos que misturam um pós-apocalipse retro-futurista com visuais polacos dos anos 80.

O que mais surpreende no jogo é o fato de os inimigos poderem se fortalecer absorvendo os corpos caídos de outros inimigos. Isso muda completamente a dinâmica tradicional de jogos desse gênero que costuma girar em torno de “bater e correr”. Isso porque, se você deixar corpos de inimigos caídos pelo caminho, os sobreviventes podem se tornar verdadeiros bosses impossíveis de serem derrotados.

Combatendo os “Orfãos”

A premissa de Cronos: The New Dawn nos apresenta conceitos enigmáticos de um universo bem diferente do que estamos acostumados. Com temática de ficção científica, o jogo não se explica muito, utilizando recursos da narrativa fragmentada para incentivar o jogador a seguir em frente explorando os cenários para entender minimamente o que está acontecendo ali.

Como a Viajante, precisamos explorar uma região que está sofrendo distúrbios temporais bizarros para recuperar itens perdidos por outros viajantes que morreram antes de nós e, assim, seguir adiante com a missão. O desafio fica por conta das criaturas conhecidas como Orfãos, seres que já foram humanos mas que, por motivos enigmáticos, foram infectados e se transformaram em seres horripilantes.

O jogo não explica em detalhes tudo que o jogador precisa entender para seguir em frente, deixando algumas lacunas para o jogador preencher. Mas o básico para seguir com o jogo é explicado: a movimentação é importante, os recursos são extremamente limitados e os corpos caídos, idealmente devem ser incinerados para não darem mais trabalho.

Isso é importante por conta da já mencionada mecânica inovadora dos inimigos se fundirem (mesmo com monstros já caídos) para se tornarem mais poderosos e letais. E sobre isso, vale abrirmos um tópico dedicado, pois realmente é o carro chefe da jogabilidade de Cronos: The New Dawn.

Survival Horror bastante estratégico

Sobre os combates em si, o principal dificultador talvez seja a própria Viajante, que é lenta, frágil e difícil de manejar nos cenários apertados que a maior parte do jogo apresenta. Isso é somado ao comportamento dos Orfãos, geralmente muito mais rápidos que a protagonista, com alcance variável em seus ataques e a possibilidade de se tornarem ainda mais perigosos.

Para incinerar os corpos, precisamos de cartuchos de lança-chamas (extremamente limitados), mas que podem ser coletados de forma infinita em certas máquinas estrategicamente posicionadas. O problema é: de início, só vamos ter um slot para carregar esses cartuchos, impossibilitando o acúmulo dos mesmos para facilitar os combates.

Isso tudo faz com que os combates de Cronos: The New Dawn tenham um aspecto estratégico muito interessante. Juntando nossos recursos limitados com cenários labirínticos e o uso de elementos específicos do ambiente, temos uma experiência que exige sangue frio e visão espacial dos jogadores de um jeito que nem todo survival horror explora.

Cronos: The New Dawn definitivamente não é o tipo de jogo no qual você sai correndo explodindo inimigos enquanto toma sustos com jump scares e outros clichês do gênero. Aqui você precisa guardar o medo no bolso e se manter numa tensão quase constante, pois o pânico por si só vai fazer você morrer muito rápido.

Os bons e velhos puzzles

Complementando a jogabilidade de Cronos: The New Dawn, temos alternadamente momentos de combate e fuga, mas também temos enigmas a serem resolvidos nos cenários. Bebendo bastante na fonre de franquias como Dead Space e Resident Evil, aqui você vai precisar explorar certos cenários e enfrentar situações difíceis para recuperar um item prosaico –como um alicate para cortar correntes ou uma chave que abre uma porta trancada — fundamental para seu progresso.

Além de ser um formato um tanto quanto nostálgico, ele funciona muito bem no clima claustrofóbico e labiríntico do jogo, já que precisamos dar voltas e mais voltas para conseguir acesso a determinados caminhos e podermos prosseguir. Isso se torna um desafio ainda maior quando acrescentamos os monstros e os recursos limitadíssimos à equação.

Mas outro grupo de puzzles que me chamou bastante atenção em Cronos: The New Dawn foge um pouco do padrão de Dead Space e Resident Evil. São elementos mais voltados para a ficção científica, envolvendo novamente a noção espacial do jogador e sua capacidade de observação. A partir de determinado momento do jogo, recebemos um recurso que nos permite interagir com anomalias temporais semelhantes a buracos-negros em pontos específicos do cenário.

Esses elementos manipulam o espaço ao nosso redor. Com isso, ao ativarmos ou desativarmos essas anomalias, o cenário ao nosso redor se modifica abrindo caminhos antes inacessíveis e moldando o ambiente ao nosso redor — algo que já vimos na campanha de Titanfall 2, por exemplo. Toda essa variedade de puzzles e situações torna a jogatina variada o suficiente para não cair na mesmice.

As malditas “quinas” de cenário

Mesmo que tenha diversos elementos interessantes, é preciso dizer que Cronos: The New Dawn me causou algumas frustrações complicadas durante sua campanha. Alguns detalhes na utilização de inventários apresentaram problemas, como eu comprar munições na loja do jogo que não foram para minha arma ou inventário, por exemplo. Com isso, eu simplesmente perdia meu dinheiro no processo (algo que pode ser fruto de termos jogado antes do lançamento).

Em outro momento, fiquei com o inventário cheio e não consegui coletar munições de escopeta que estavam no cenário, sendo que as munições da pistola iam diretamente para a arma em casos como esses. Quando abri espaço no inventário, consegui coletar a munição de escopeta, a qual não foi para o inventário, mas sim diretamente para a arma, o que não fez sentido e criou uma camada extra de dificuldade. Novamente, algo que talvez seja um bug facilmente corrigível na versão final do jogo.

Mas o pior elemento de frustração em Cronos: The New Dawn durante a minha jogatina foram algumas “quinas” de paredes invisíveis nos cenários que simplesmente não fazem sentido. Em determinados momentos um inimigo que estava a pouco centímetros de um barril explosivo foi protegido da explosão simplesmente por uma quina invisível da parede parcialmente quebrada que separava ele do barril. Já em outros momentos, não consegui atirar através de buracos nas paredes que me permitiam ver com clareza o inimigo através delas.

Uma outra situação corriqueira ocorre quando quando um inimigo entra na sua frente: ele bloqueia o seu caminho de forma exagerada em comparação à proporção do seu corpo e também impede que você atire em elementos atrás dele, mesmo que a sua mira esteja diretamente apontada para o elemento de trás, e não em partes do corpo do inimigo. Considerando o realismo gráfico do jogo, essa “hitbox alongada” confunde o jogador, induzindo-o a gastar munição em coisas que não podem ser atingidas simplesmente porque o corpo dos inimigos possui uma “aura” que bloqueia.

Audiovisual

Calejada por sua experiência em outros survival horrors, a Bloober Team entrega em Cronos: The New Dawn uma experiência imersiva e horripilante. O visual une o realismo ao grotesco, com uma pitada de ficção científica e uma vibe tecnológica obsoleta meio “anos 80” que é muito rica.

Os cenários apertados, a lanterna que ocasionalmente falha, as barreiras feitas de gosma alienígena, os ruídos grotescos de uma criatura consumindo outra para se fortalecer… todos estes elementos criam uma atmosfera perturbadora e inquietante, que faz o jogador estar sempre alerta. A trilha sonora aparece apenas para pontuar momentos de tensão, e faz isso com maestria.

Ah, e vale ressaltar que Cronos: The New Dawn chega com menus e legendas em português brasileiro. Ou seja, você vai passar uns cagaços, mas pelo menos não vai ficar boiando nos menus, audiologs e documentos que aprofundam a lore deste universo tenebroso.

Um survival horror diferenciado e competente

Ainda que se mantenha confortável no terror, o pessoal da Bloober Team resolveu sair da temática de terror psicológico pela qual já era conhecida em The Medium, Layers of Fear e no elogiado Silent Hill 2 Remake. Com o foco mais voltado pro survival horror estratégico e na temátic sci fi, Cronos: The New Dawn apresenta mais similaridades com Dead Space e Resident Evil do que com qualquer jogo anterior da desenvolvedora.

Com isso, temos uma experiência que pode ser bem satisfatória para quem gosta do gênero, mas que ainda precisa de algum polimento — principalmente nas colisões e em alguns bugs que podem gerar alguma frustração.

Dito isso, este pode ser o início de uma célebre nova IP para o estúdio. Cronos: The New Dawn constrói um universo sólido e interessante, que tem referências óbvias, mas caminha com as próprias pernas. Dá seus tropeços, é verdade, mas no geral o saldo é mais positivo do que negativo.

Cronos: The New Dawn será lançado no dia 05 de setembro de 2025 e estará disponível para PCs (versão analisada, via Steam), PlayStation 5, Xbox Series e Nintendo Switch 2.

Gilson Peres

Gilson Peres é Psicólogo, Mestre em Comunicação e aqui no Arkade fala principalmente sobre Realidade Virtual, jogos de PC e novas tecnologias desde 2019.

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