Análise Arkade – Doom: The Dark Ages, uma releitura brutal de uma franquia clássica

14 de maio de 2025

Amanhã será lançado Doom: The Dark Ages, novo capítulo deste baita reboot que uma das franquias mais clássicas dos videogames vem ganhando nos últimos anos. Recentemente você conferiu nossas primeiras impressões sobre o jogo, agora é hora daquele review completo!

A franquia Doom é, sob muitos aspectos, a pedra fundamental dos FPS. E, mesmo assim, ao longo da última década, a id Software deixou claro que não tem medo de mexer em uma fórmula tão consagrada — nem de reinventar boa parte da experiência de um jogo para outro.

A produtora já havia mudado bastante as coisas com Doom (2016) e elevou consideravelmente o patamar com o frenético Doom Eternal. Há quem diga que o segundo jogo até deixou as coisas complicadas demais, com todas as suas minúcias de batalha e o sistema de “geração de recursos” no calor do combate.

Corta para maio de 2025: Doom: The Dark Ages chega olhando para o passado, e reinventa (novamente) as mecânicas do jogo. Com sua ambientação medieval, o novo jogo aposta em um combate mais pesado e cadenciado, que mantém a alta octanagem dos tiroteios, mas traz um destaque maior para o combate corpo-a-corpo, com direito a escudo, parry, robôs gigantes e muito mais.

Techno-medieval dos infernos

A principal mudança em Doom: The Dark Ages é sua ambientação. O novo jogo volta no tempo, sendo uma prequência dos dois jogos anteriores que visa apresentar as origens do monossilábico e sanguinário Doom Slayer.

Ambientado em uma realidade techno-medieval onde tecnologia e magia se fundem, o novo capítulo nos apresenta a um período turbulento na guerra entre os Maykr e os demônios. Vemos o Doom Slayer sendo mantido “na coleira” pelo Kreed Maykr, que o utiliza como uma verdadeira arma secreta.

Controlado por um dispositivo acoplado em seu peito, o Doom Slayer luta ao lado dos Sentinelas Noturnos contra as forças do Inferno, que estão buscando um artefato de enorme poder — o Coração de Argent. Ao longo da trama, vamos ver o personagem se libertar e assumir o protagonismo neste conflito sangrento.

Doom: The Dark Ages é um jogo com muita história. Há muitas cutscenes desenvolvendo as intrigas e politicagens que rolam nos bastidores desta guerra infernal. Quando estamos com o controle na mão, o jogo é ação e violência o tempo todo… mas entre um capítulo e outro, tem muito “filminho” para assistirmos.

Não acho que um Doom ter cuidado com sua história seja um problema. Eu só não esperava que um Doom estivesse tão investido em sua própria lore, muito menos que ele fosse se levar tão a sério. Para muita gente, Doom sempre vai ser sobre “matar demônios em Marte”.

A verdade é que tudo o que vemos aqui vai culminar em “matar demônios em Marte” (afinal, esta é a trama básica do Doom de 2016), mas esta “nova trilogia” sem dúvida dignifica muito seu protagonista e seu universo — e usa longas cutscenes e diálogos densos para deixar o jogador a par de toda a trama.

Brutalidade e Serraescudo

Como eu falei ali em cima, conheço gente que achou que Doom Eternal foi “um pouco longe demais” na complexidade de seus combates. Este feedback deve ter chegado aos ouvidos da id Software, pois ela jogou muita coisa fora para reinventar (de novo) o gameplay de Doom: The Dark Ages.

O protagonista agora é um pouco menos ágil e acrobático. Pulo duplo? Dash no ar? Desafios de plataforma? Tudo isso ficou para trás. Aqui, o Doom Slayer se move como um tanque de guerra — pesado, deliberado, impiedoso. Seu arsenal traz uma mistura letal de armas clássicas com equipamentos medievais e armas que misturam magia e tecnologia de forma profana.

O Serraescudo chega como a estrela deste combate repaginado, e introduz uma nova camada tática ao gameplay. Doom: The Dark Ages, aposta muitas de suas fichas em seu sistema de parry. Ataques e projéteis que emitem um brilho verde podem ser aparados e rebatidos — a fisicalidade do parry é deliciosa, e é muito fácil internalizar o parry já nas primeiras horas de jogo.

Além de bloquear e defletir ataques, o escudo pode ser arremessado, partindo ao meio inimigos fracos ou imobilizando temporariamente os mais fortes. Esta novidade tem um feeling similar ao do machado do Kratos, e muda muito da dinâmica frenética que vimos em Doom Eternal.

Contra grupos grandes, você ainda precisa se mexer bastante, mas nos confrontos com chefes, o jogo espera que você mantenha posição, chegue mais perto para incentivar o boss a realizar ataques físicos — que podem ser aparados com o escudo. Armas de curto alcance, como a Superescopeta e um poderoso mangual (aquela corrente com uma bola de espinhos na ponta) brilham nesta nova dinâmica.

O game traz interessantes releituras de inimigos clássicos da franquia, que chegam portando armaduras ou utilizando montarias. Um ponto negativo, porém, é que as animações de finalização mais “exclusivas” por tipo de monstro foram abandonadas. Agora, quase toda finalização é um chutão ou uma escudada (dica: pule antes de finalizar para um golpe mais legal com o escudo).

Robôs gigantes, dragões e tipos de fases

A campanha de Doom: The Dark Ages é composta de 22 capítulos. Depois que passar dos primeiros, você logo vai perceber que existem 4 tipos diferentes de fases. O primeiro deles é o mais padrão da série: fases lineares onde você vai do ponto A ao ponto B.

Se liga neste mapa, quantos caminhos e possibilidades

O segundo tipo são fases mais abertas, com múltiplos objetivos, que podem ser cumpridos em qualquer ordem. Os mapas são bem mais abertos (como na imagem acima), com direito a muitas passagens secretas e colecionáveis escondidos. Estes estágios costumam ser os mais longos — especialmente caso você queira encontrar tudo. E você vai querer explorar bastante, para coletar todo o ouro e as pedras preciosas que conseguir pois estes recursos são utilizados para fazer upgrade em nossas armas e equipamentos em altares específicos.

Temos também as fases com os mechs de combate — aqui chamados Atlans. São fases mais curtas e contidas, que envolvem basicamente sequências de combate e destruição contra criaturas igualmente gigantes.

Por fim, temos as sequências montadas em um ciberdragão chamado Serrat. Essas fases também são mais abertas, e nos permitem voar por áreas bem grandes, perseguindo naves inimigas e concluindo objetivos variados. Em certos pontos do cenário, o dragão pousa, e o Slayer segue um trecho a pé, para se reencontrar com o dragão mais tarde.

Eu falei um pouco mais sobre os Atlans e o dragão no meu texto de primeiras impressões. Ambos são adendos legais — quem não gosta de dragões e robôs gigantes? — mas um tanto limitados em termos de gameplay. No geral, sinto que o principal propósito deles é trazer um pouco mais de variedade à campanha.

Uma ambientação que impõe respeito

A direção de arte é um dos pontos altos de Doom: The Dark Ages. Ao deixar (um pouco) de lado os laboratórios frios e instalações futuristas dos títulos anteriores, o novo jogo mergulha em um mundo de fortalezas enormes, criptas sinistras e campos de batalha repletos de armadilhas, ruínas e bosques sombrios.

Olha essa ambientação, que sinistra

O mais legal é que, ao misturar essa vibe medieval com o futurismo satânico característico de Doom, o jogo cria uma atmosfera muito coesa. Parece loucura, mas as influências medievais se misturam com a estética de ficção científica endemoninhada de forma muito natural.

O departamento sonoro é gloriosamente brutal: o som de cada arma é incrível, o parry é estrondoso, e todo o peso e imponência do Doom Slayer é traduzido por um impacto trovejante sempre que ele cai de um lugar alto — criando uma onda de choque que oblitera inimigos fracos. Vale ressaltar que o jogo está totalmente dublado em português brasileiro, o que é bom, especialmente porque aqui temos muitas cutscenes e diálogos.

A trilha sonora, por sua vez, sofreu um baque. Depois de alguns desentendimentos com a Bethesda, o compositor Mick Gordon não retornou para o terceiro jogo, cuja trilha é assinada pelo coletivo Finishing Move. As novas músicas mantém “o clima” metaleiro/épico, mas não é tão boa, nem fica na cabeça do jogador.

Para completar, uma palavrinha sobre performance: o jogo mantém os 60fps cravados, mesmo nos momentos mais caóticos, e nos consoles, opta por uma resolução dinâmica, que varia entre 1440p e 4K. Há telas de loading no início de cada capítulo, mas elas não chegam a durar 5 segundos. Em resumo: o jogo roda surpreendentemente bem.

Conclusão

Doom: The Dark Ages é uma releitura corajosa de uma franquia que dispensa apresentações. Ao mirar no passado, o jogo encontra novas formas de ser brutal, imersivo e estratégico de uma forma que é familiar, mas ao mesmo tempo completamente nova.

A ênfase nas mecânicas de parry e do combate corpo a corpo e a ambientação techno-medieval — com direito a dragões e robôs gigantes — formam um conjunto muito interessante. O jogo abre mão de muito do que foi construído em Doom Eternal, mas faz isso de forma muito consciente, sabendo que está seguindo uma nova direção.

A mudança pode causar estranheza nos fissurados pela afobação acrobática de Doom Eternal, mas o que se perde em velocidade se ganha em peso, cadência e impacto. O Doom Slayer está mais fod*o e “pesado” do que nunca, e ouso dizer que um escudo nunca foi tão bem utilizado quanto aqui.

A mistura inusitada que Doom: The Dark Ages faz poderia dar errado em mãos menos habilidosas. Mas a id Software não só é boa no que faz, como também é claramente apaixonada por este universo. Doom: The Dark Ages é diferente, mas honra o legado da série. Mais um jogo incrível e imperdível de uma série que não tem medo de se reinventar.

Doom: The Dark Ages será lançado amanhã (15/05/25), com versões para PC, Playstation 5 e Xbox Series (versão analisada). O game está 100% em português brasileiro.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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