Análise Arkade: EA Sports FC 26 joga seguro, mas conquista os três pontos suados com atualizações fundamentais

Não é de se estranhar que, a cada nova entrada da franquia de esportes mais popular do mundo, sobretudo aqui em terras tupiniquins, estejamos fazendo as inevitáveis comparações com as edições que vieram antes. Afinal, EA Sports FC (ainda estamos nos acostumando a não chamá-lo de FIFA, mas o hábito é traiçoeiro) está bastante sedimentado no mercado e, assim como outras IPs do gênero, se notabiliza pela manutenção de uma estrutura básica pouco mutável e por atualizações bastante pontuais.
Sendo a última grande franquia a ser lançada antes do bombástico anúncio da aquisição da EA por um consórcio financeiro bastante complexo, uma das maiores transações da história no campo do entretenimento, EA Sports FC 26 carrega consigo também todas as nossas questões sobre o futuro da empresa e como ela deve lidar com suas principais marcas nos próximos anos.

O mesmo, só que diferente…
Se há alguma influência ou não de fatores externos como os rumos da EA nos negócios, é difícil averiguar. Mas há alguns elementos a serem considerados não só na sedimentação dos bons sistemas de jogabilidade, como algumas mudanças relativamente substanciais sobretudo no modelo de monetização ainda mais agressivo que o jogo incorpora.
Se a edição anterior trouxe, ao longo de sua vida útil, a possibilidade de aquisição de um novo passe de temporada, que oferece uma série de benefícios complementares para seus felizes (ou nem tanto) adeptos, em EA FC 26 a função está totalmente integrada ao sistema desde seu lançamento, e parece exigente no que pede do esforço do jogador. É mais do que um conteúdo complementar, mas um plano de fidelidade pago.

Assim, quem estiver disposto a investir seu rico dinheirinho de forma complementar para além das microtransações tradicionais de aquisição de cartinhas, tem mais esta oportunidade. O maior problema, para além das questões controversas sobre como isso tem tornado o Ultimate Team ainda mais ganancioso financeiramente, é que o conteúdo extra do passe é medíocre e parece muito tímido para justificar a entrada.
Além disso, muito do que se pode desbloquear é para outros modos, que nem sempre recebem a mesma atenção do jogador. Então, a aquisição do Passe de Temporada é realmente algo estranho porque sequer retroalimenta o próprio modo onde ele é resgatado. Vai valer a pena somente para os mais dedicados a extrair tudo, absolutamente tudo o que o jogo oferece.

Enquanto isso, alguns grandes ícones demandam não só a aquisição desse passe extra, como muitas horas de dedicação para alcançar os tiers mais altos de experiência, o que só fica mais evidente pela forma desacelerada como a progressão ficou, na comparação com o que tínhamos antes. Aquele meu time de nível geral 98, com todo o elenco de ponta, alcançado com umas 140 horas de jogo, vai demorar muito mais a ser formado aqui.
Para além deste grande parênteses, é fácil dizer que o principal modo de permanência a médio e longo prazo do jogo continua bastante similar ao que já tínhamos encontrado nos anos anteriores. O sistema de avanço para os principais eventos competitivos é reconhecível, a interface mantém suas características centrais e a navegação segue incentivando a experiência nos diferentes sub-modos.

A principal mudança está em alguns incrementos de eventos e torneios, bem como na reordenação do menu “Jogar”, onde as diferentes propostas fixas ou sazonais ficam separadas entre possibilidades contra a IA ou multiplayer, com opções que merecem uma atenção dedicada dos entusiastas pelo modo de maior destaque do jogo.
Como exemplo, o modo Rush (que finalmente vem com áudio em português, só que por outro narrador que não o principal, o veterano de franquia Gustavo Villani) ganhou novas ambientações, animações de comemoração de gols e uma remodelagem de comunicação via texto que adicionam valor àquilo que já funcionava bem, ainda que eu não tenha me acostumado com essas novas perfumarias.

Já nos demais pontos do jogo, a maior surpresa fica por conta da grande repaginada pela qual passou o modo carreira para técnico, este sim com um belo banho de loja na interface, que adiciona alguns elementos contextuais e amplia situações, diálogos e gestão. O coração ainda permanece o mesmo, reaproveitando muita coisa, mas agora agregando um pouco mais de profundidade.
Já o Manager Ao Vivo traz alguns desafios bem interessantes que nos permitem entradas cirúrgicas em eventos consagrados, jogos históricos e campanhas mais pontuais que certamente trarão um novo brilho para o olhar de quem acompanha o esporte na vida real. É possível reviver, por exemplo, a final entre Real Madrid e Atlético de Madrid na Liga dos Campeões da UEFA 2015/16. Revisitar este clássico já no lançamento deu um gostinho do que está por vir.

Pelo lado do modo Clubes, há muito pouco a se perceber de diferente, salvo pelo sistema de arquétipos, espelhando jogadores reconhecidos como um modelo a ser alcançado pelo nosso personagem customizado. Porém, continua sendo um modo muito mais proveitoso para quem tem um grupo de amigos on-line mais dedicado, sendo um tanto quanto cíclico para aventureiros solo.
Adaptabilidade e profundidade
A melhoria mais significativa e, confesso, mais surpreendente da edição 26 do EA Sports FC está em uma nova dimensão da jogabilidade. Os modos off-line contam agora com duas opções básicas: os modos predefinidos Competitivo e Autêntico, que podem ser escolhidos tanto nas carreiras de técnico ou jogador, quanto nos vários modos de jogo rápido, como amistosos e torneios single player.

Enquanto o primeiro é basicamente a forma como estamos acostumados com o jogo, o segundo busca uma forma mais dedicada e profunda do controle da gameplay. É como se o Competitivo funcionasse no modelo arcade enquanto o Autêntico fica mais próximo da simulação.
Assim, escolher pelo Competitivo significa adentrar aquilo que já estamos familiarizados, com os mesmos controles e comportamento da IA, gerando mais conforto nas opções de automatização e assistência em direção e força, mas bem menos domínio da estratégia e do posicionamento. Ou seja, é mais simples, mas oferece pouco controle da situação.

Já o Autêntico, que independe dos ajustes feitos nos menus de jogabilidade (como passes, chutes e lançamentos), traz um quesito tático aprofundado, com jogadas mais cadenciadas, a necessidade de um domínio de bola e de movimentação muito mais cuidadosos, e por consequência, uma experiência calcada em ser mais responsiva, e na qual você fica mais responsável pelo que acontece. É o lugar perfeito para quem odeia se frustrar com questões que parecem aleatórias e tendenciosas, como erros de passe e coincidências indesejadas.
Para além de ambas as escolhas, o jogo ganhou algumas melhorias consideráveis no sistema de controle de bola e drible, aumentando as possibilidades para quem sabe usar bem o recurso e complicando ainda mais a marcação e a resposta na defesa. Há uma clara evolução nesse domínio de bola mais consciente em detrimento à correria pelas alas que havia tomado conta das versões anteriores, equilibrando melhor as ações ofensivas.

Infelizmente, o posicionamento defensivo e as ações dos companheiros de equipe não acompanham tal evolução, o que pode ser uma péssima notícia para quem apostava cegamente no 4-3-3 e enchia o time de laterais e pontas rápidos, mas em contrapartida muito boa para quem prefere jogadores com mais técnica no controle curto da bola.
Tudo isso significa que se antes um bom corte abria um buraco na defesa adversária, agora ficou mais fácil cavar crateras diante zagueiros pouco reativos ao perigo iminente. Em outras palavras, pare de correr e aprenda a driblar, ou prepare-se para correr como barata tonta contra adversários competentes neste quesito.

Também é perceptível um trabalho contínuo no trabalho dos goleiros, um dos maiores pontos de crítica desde sempre para a franquia. Eles ainda continuam tomando gols bobos de chutes no meio da meta e, ao mesmo tempo, fazendo defesas inacreditáveis à queima roupa, e podem levar qualquer um à loucura, mas é inegável que ganharam mais movimentos, parecem mais reativos à situação, se posicionam com um pouco mais de coerência e, com isso, se tornaram mais imprevisíveis — para o bem e para o mal.
E o vale da estranheza?
Se tem algo que está cada vez mais defasado, e talvez seja um indício do teto que a tecnologia consegue alcançar considerando a modelagem tridimensional tradicional de pessoas realistas, é a aparência dos jogadores. Pode ser só uma impressão ou o fato de estarmos ficando mal acostumados com a inteligência artificial fazendo um trabalho muito mais assombroso, mas o efeito de bonecos animados aqui é cada vez mais incômodo.

Isso representa, em escala e comparação, muito pouco em relação às qualidades gráficas excelentes vistas no jogo como um todo. Destacam-se efeitos climáticos que mudam drasticamente a partida (em especial, campos encharcados estão ainda mais difíceis na condução da bola), animações fluidas e uma ambientação no estádio cada vez mais profunda e imersiva.
A qualidade de áudio e os efeitos e ruídos da torcida são um espetáculo a parte, enquanto a quantidade de faixas disponíveis é tão boa quanto a sua diversidade. A trilha musical, diversa e dinâmica, mantém uma linha de curadoria que vem se fortalecendo nos últimos anos e segue excelente. O ponto baixo, até pelas limitações quantitativas, são passagens e cenas de corte na carreira, com poucas frases por voz e muita coisa somente em texto.

É um jogo que segue a linha que conhecemos e já normalizamos, e muito provavelmente só terá alguma melhoria significativa quando a lógica desta mimetização de personagens reais se aproveitar de outros meios que não os atuais. Possivelmente, isso só venha a ocorrer numa futura passagem de geração ou, quem sabe, de mudança de motor gráfico. Até lá, teremos que nos contentar com esse olhar vazio e um tanto quanto perturbador de caricaturas plastificadas de atletas reais.
Conclusão
Ninguém esperava que EA Sports FC 26 fosse revolucionar o gênero, até porque já não tem mais concorrentes diretos no modelo de negócio adotado há pelo menos três ou quatro anos e, portanto, não se vê desafiado a ousar mais do que o que é seguro para manter sua base instalada e fiel de jogadores.

Se os visuais já se provam estabilizados e começam a parecer datados, o refinamento da jogabilidade geral e a dicotomia entre os sistemas Competitivo e Autêntico adicionam um valor de gameplay que parecia ter se perdido na edição anterior. Alguns fatores irritantes permanecem, outros só mudaram de eixo (como a melhoria do drible evidenciando a deficiência das defesas e combates), mas no geral, há um ganho significativo aqui.
Fora das quatro linhas, melhorias sistêmicas nos principais modos — o Ultimate Team e o Carreiras — e na interface resolvem um sistema remendado que vem adaptando o que fora estabelecido anos atrás, mas ainda pode ser confuso e burocrático para quem não tem o mesmo costume que os velhos fãs.

O maior ponto de atenção, como tem sido nos últimos anos, é um sistema de monetização contínua ainda mais arisco, que aumenta o abismo entre gastar mais dinheiro de verdade e jogar dedicadamente para conquistar alguns dos mesmos benefícios. Não investir mais nenhum centavo para além do preço do jogo é possível sobretudo para se aproveitar o conteúdo off-line, mas quem pretende se aventurar nos principais eventos do UT contra os maiores craques pelo mundo, provavelmente vai ter que suar muito a camisa para alcançar a glória.
EA Sports FC 26 foi lançado para Playstation 5, XBox Series S|X, Nintendo Switch 2 e PC em 26 de setembro de 2025, totalmente localizado para o português brasileiro em áudio e textos.