Análise Arkade – Eriksholm: The Stolen Dream, um belíssimo (mas engessado) stealth game de época

Prepare-se para se esgueirar pelas sombras em uma jornada stealth repleta de cenários deslumbrantes e repetições um pouco frustrantes. Esta é nossa análise de Eriksholm: The Stolen Dream!
Eriksholm: The Stolen Dream é o primeiro jogo do estúdio sueco River End Games. E dá para afirmar com muita certeza que esse pessoal é ambicioso. Digo isso porque o título traz cutscenes extremamente cinematográficas e um visual de cair o queixo, o que mostra que, mesmo para um jogo indie, este é um projeto que recebeu muito investimento — e não falo só de dinheiro, mas também de tempo e de talento.
Fugindo das autoridades
A trama de Eriksholm: The Stolen Dream gira em torno de Hannah, uma jovem que vive sozinha com o irmão, Herman, na pequena cidade escandinava de Eriksholm. Em uma manhã qualquer, o rapaz sai de casa… e simplesmente não volta.

No dia seguinte, Hannah é acordada pela polícia, que está procurando justamente por seu irmão. Sem entender o que aconteceu — nem o que seu irmão pode ter feito para chamar a atenção das autoridades –, Hannah decide “dar um perdido” na polícia. Porém, ao pôr os pés para fora de casa, ela percebe que a movimentação policial nos arredores está intensa: a encrenca pode ser maior do que parece.
Sem saber ao certo em que foi se meter ou em quem confiar, Hannah decide que precisa de respostas. Assim, ela vai usar suas habilidades de furtividade para se esgueirar pelas sombras, mantendo-se longe do caminho dos tiras enquanto tenta descobrir não só o paradeiro de seu irmão, mas também por que ele se tornou alvo da polícia.

Eriksholm: The Stolen Dream é um jogo claramente comprometido em contar sua história de maneira cinematográfica. E, nesse aspecto, ele realmente impressiona: as cutscenes são belíssimas, com um nível de direção, atuação e qualidade geralque não deve nada a muitos títulos triple A da indústria.
A história em si, porém, infelizmente, não se sustenta, nem tem o impacto condizente com seu primor técnico. À medida que a campanha avança — ao longo de cerca de 10 horas de duração –, a narrativa vai perdendo força. Dado o capricho da apresentação, seria de se esperar algo com mais peso emocional, especialmente para aprofundar a relação de Hannah com seu irmão e as provações que ela enfrenta ao longo do caminho. Mas não é bem o que acontece.

Veja bem: não é uma história ruim… mas falta aquele algo a mais que faz a gente se importar com os personagens, se emocionar com seus dramas e realmente ficar imerso na trama. Até “passo um pano” por este ser o primeiro jogo da River End Games, mas não posso deixar de assinalar que saio com a sensação de que o roteiro não acompanha a ambição da apresentação.
Uma experiência stealth de época
No que diz respeito ao gameplay, Eriksholm: The Stolen Dream é um jogo totalmente centrado no stealth. Nunca existe a opção de combate direto: a ideia é sempre esgueirar pelas sombras e usar subterfúgios para despistar os guardas e evitar o confronto.

A perspectiva isométrica oferece um campo de visão generoso, mas isso não impede o jogo de preparar armadilhas: há patrulheiros posicionados estrategicamente em pontos cegos, e muitos deles só são notados quando já é tarde demais.
O stealth é bem executado, ainda que um tanto formulaico. É possível, por exemplo, assustar pássaros para distrair inimigos, acionar máquinas para camuflar nossos passos em pisos mais barulhentos e usar elementos móveis do cenário (tipo caixotes passando em uma esteira rolante) como cobertura visual.

Isso é particularmente interessante porque, em geral, jogos stealth envolvem traquitanas tecnológicas avançadas tipo drones, óculos de visão noturna, e coisas do tipo. Aqui não tem isso. No máximo, podemos ver o cone de visão dos inimigos, mas de resto, é uma experiência muito roots.
Ao longo da campanha, o jogo vai expandindo esse leque de possibilidades, de modo que cada área passa a ser uma espécie de puzzle: a questão não é para onde ir, mas como chegar até lá. Mecanicamente, é uma experiência sólida, funcional e bem alinhada com a proposta.
Co-op single player
Inicialmente, controlamos apenas Hannah, mas conforme a aventura avança, ela descola dois aliados que também se tornam personagens jogáveis: uma mulher chamada Alva e um homem chamado Sebastian. A partir daí, não demora para o jogo nos permitir alternar o controle entre eles em tempo real, recurso que é usado de forma inteligente em vários momentos da campanha.

Muitas vezes, será preciso que os personagens se ajudem de forma sincronizada, mais ou menos como naquele jogo dos Peaky Blinders: um personagem vai atrair a atenção de um guarda para que o outro consiga passar despercebido, ou então nocautear um inimigo à distância para liberar a passagem de um aliado. Essas camadas de trabalho colaborativo trazem um flavor tático interessante ao gameplay, ainda que não necessariamente mude a abordagem: o foco segue sendo a furtividade, ninguém pode sair na mão ou trocar tiros com os guardas.

O que muda (um pouco) é o fato de que cada personagem possui uma abordagem própria. Hannah carrega uma zarabatana com dardos soníferos, Alva possui um estilingue, e Sebastian, o mais forte do grupo, pode nocautear inimigos sorrateiramente com um mata-leão. Todas essas habilidades devem ser bem utilizadas para que o trio obtenha sucesso. Ah, e assim como em Hitman e outros jogos com foco em stealth, é importante esconder os corpos nocauteados e evitar que sejam encontrados por outros policiais.
Sem espaço para improvisação
Apesar de trazer essas boas ideias no uso do stealth, Eriksholm: The Stolen Dream faz uma escolha que pode frustrar jogadores mais criativos: ser avistado por um guarda significa falha automática.
Não há margem para reação ou improviso. Se você for avistado, fracassa na hora. O jogo então carrega o último checkpoint (que, felizmente, costuma estar próximo) e lhe permite tentar de novo. Confesso que não aprecio muito esse tipo de abordagem, pois limita demais o jogador, e tira muito do potencial que o stealth poderia (e deveria) oferecer como ferramenta de improvisação.

Pense em Metal Gear Solid: quando somos detectados, soa um alarme que é aflitivo, mas pode transformar cada erro em uma nova oportunidade de improviso: os guardas ficam em alerta, a contagem regressiva de vigilância começa, e precisamos encontrar rápido uma rota de fuga ou esconderijo. Tudo isso estimula a criatividade do jogador e pode render narrativas emergentes imprevisíveis e empolgantes.
Já aqui, a sensação é de que devemos seguir um script e fazer exatamente o que os desenvolvedores imaginaram, sem liberdade para testar outros caminhos ou soluções. Isso torna a experiência engessada e formulaica, e abre espaço para um dos aspectos menos divertidos do stealth: a tentativa e erro.

Em Eriksholm: The Stolen Dream você vai falhar, ser detectado, tentar de novo… e de novo, e de novo, até descobrir o que deve ser o “jeito certo” de superar uma determinada situação. Falta flexibilidade, espaço para improviso. Isso acaba podando o potencial de um sistema que, por natureza, deveria convidar à experimentação.
Um espetáculo visual
No quesito audiovisual, Eriksholm: The Stolen Dream é simplesmente espetacular. Rodando na poderosa Unreal Engine 5, o jogo impressiona tanto pela direção de arte quanto pelo capricho técnico. A visão isométrica confere à experiência um ar de diorama, que combina perfeitamente com a ambientação de época.

Os cenários são ricos em detalhes: vilarejos, fábricas, ruas de paralelepípedos e ambientes industriais reforçam uma atmosfera um tanto opressiva, mas sem jamais abrir mão da beleza. A iluminação é belíssima, as animações dos personagens são fluidas, e até a água — que tende a ser negligenciada em jogos de menor escopo — tem brilho e movimentação realistas.
As já mencionadas cutscenes são outro ponto altíssimo. Estão entre as mais bonitas vistas nesta geração, com boa direção e animações faciais impressionantes. O que deixa um gosto agridoce é termos toda essa qualidade visual a serviço de uma história que carecia de mais impacto e emoção. Ainda assim, são cenas belíssimas e muito bem executadas.

No departamento sonoro, o jogo também se destaca. As dublagens são ótimas (disponíveis apenas em inglês, mas com legendas em português brasileiro), e a trilha sonora é discreta, como pede um bom jogo de stealth, mas aparece pontualmente para reforçar momentos-chave, sem atrapalhar a atenção aos arredores. O design de som é eficiente, com NPCs conversando entre si, guardas interagindo e sons ambientes que ajudam o jogador a se colocar naquele mundo.
Jogando no Playstation 5, tive uma experiência lisa e fluida, sem bugs ou travamentos. O uso do DualSense, é tímido — basicamente uma leve resistência nos gatilhos quando utilizamos o estilingue ou a zarabatana. Apesar disso, trata-se de uma experiência sólida e polida em aspectos técnicos.
Conclusão
Eriksholm: The Stolen Dream é um jogo muito competente tecnicamente, mas um tanto limitado pelas suas próprias escolhas de game design. A experiência do stealth é focada e bem executada, mas também engessada, pautada por uma dinâmica de tentativa e erro que pode transformar tensão em frustração. Quando ser detectado é falha automática, não há espaço para improviso, e isso compromete parte da diversão (e da tensão) que um bom jogo furtivo pode oferecer.

Se for experimentar, venha com as expectativas calibradas: temos aqui um jogo competente, mas que escorrega no excesso de rigidez e pode cansar ao exigir que você encontre a única alternativa de sucesso possível.
Válido ressaltar também que, se você não curte furtividade, talvez esse jogo não seja a sua praia. Eriksholm: The Stolen Dream não tem combate direto, nem ação explosiva: é um jogo pra ser jogado com calma, atenção e concentração. E, dentro dessa proposta, ele entrega uma experiência satisfatória. Só gostaria que ele tivesse me dado um pouco mais de liberdade para eu poder jogar do meu jeito, e não apenas do jeito que ele quer que eu jogue.
Eriksholm: The Stolen Dream foi lançado ontem (15/07), com versões para PC, Playsation 5 (versão analisada) e Xbox Series X|S.