Análise Arkade – WILL: Follow the Light e seus conflitos entre narrativa e gameplay

31 de maio de 2026

Existe um tipo muito específico de jogo que tenta transformar solidão em experiência. Não solidão como mecânica de sobrevivência ou terror, mas como sentimento. Jogos que usam o silêncio, a distância e o isolamento para construir uma narrativa emocional. WILL: Follow the Light é um destes jogos.

Desenvolvido pelo pequeno estúdio independente TomorrowHead Studio, WILL: Follow the Light lembra muito Firewatch. Não por sua narrativa, mas porque compartilha esta a mesma intenção de transformar isolamento, paisagens naturais, conflitos pessoais e até um pouco de “um dia na vida de um profissional da área x” em uma jornada introspectiva.

Tragédias ambientais e dramas pessoais

WILL: Follow the Light nos coloca no papel de Will, um faroleiro que vive isolado em uma região gelada do extremo norte. Sua rotina solitária é interrompida quando uma forte tempestade causa uma série de deslizamentos em sua cidade.

Em meio ao caos e a lama, Will recebe uma mensagem informando que seu filho desapareceu. Sem pensar duas vezes, ele embarca em uma perigosa jornada por ilhas remotas e águas gelados para encontrar seu filho — e, talvez, respostas para algumas questões que lhe acompanham por boa parte da vida.

WILL: Follow the Light entende que sua verdadeira narrativa não está apenas nos eventos que acontecem durante a jornada, mas nos sentimentos que os personagens carregam. A busca pelo filho desaparecido funciona como o motor da trama, mas ao longo da campanha vamos testemunhar memórias, reflexões e fragmentos do passado de Will. Suas conturbadas lembranças familiares, a relação complicada com o pai e a culpa acumulada por anos de distanciamento emocional são pontos que acabam se tornando tão importantes quanto a missão de resgate em si.

Esta combinação de tragédia ambiental com drama pessoal é poderosa, pois permite múltiplos níveis de conexão com o personagem. Enchentes e deslizamentos são coisas que vemos acontecer aqui no Brasil ocasionalmente (alguns de nós até já fomos afetados por isso) e que atire a primeira pedra quem não tem algum ponto de tensão familiar mal resolvido. O personagem é Will, mas os dramas são universais.

Existe uma melancolia constante que ajuda a dar peso à experiência. Por outro lado, o ritmo da narrativa nem sempre é dos melhores. Há capítulos inteiros em que a história praticamente estaciona para que possamos cumprir tarefas — que fazem sentido no contexto da profissão de Will — ou resolver puzzles. Entendo que isso faz parte do “fator videogame” da coisa, mas é uma inconsistência que acaba diluindo parte do impacto emocional que o jogo tenta construir.

em uma experiência que tem momentos genuinamente marcantes, ainda que também carregue algumas limitações difíceis de ignorar.

Navegação e exploração

Em termos de gameplay, WILL: Follow the Light é um jogo pautado por exploração, narrativa ambiental, puzzles e navegação (no sentido náutico, mesmo) que claramente prioriza imersão acima de dinamismo. E não falo isso como um demérito, é apenas uma constatação.

Tal qual Firewatch nos colocava para patrulhar e cumprir tarefas típicas da rotina de um guarda ambiental, aqui as aptidões de um faroleiro constantemente são necessárias para avançarmos. E há também uma atenção toda especial ao ato de velejar.

O barco é nosso principal meio de transporte no game, e existe um esforço bastante claro em tornar essas travessias parte central da experiência. Navegar exige atenção ao vento, às condições climáticas e um mínimo entendimento do funcionamento e do controle das velas. Não chega a ser um simulador complexo, mas também não é algo que acontece no piloto automático. O jogo quer que você se importe com Molly (o barco) e com o ato de velejar.

E, existe algo realmente fascinante em navegar sozinho durante uma tempestade ou observar a imensidão do horizonte congelado. O jogo entende que atmosfera é gameplay, e sabe o valor que existe em deixar o jogador absorver um ambiente sem a necessidade de ação constante.

Quando isso funciona, WILL: Follow the Light brilha. Quando não, temos algumas incômodas…

Quebras de ritmo

Como eu já mencionei ali em cima, a narrativa de WILL: Follow the Light perde força por conta de algumas idiossincrasias que são inerentes a um jogo de videogame. Em outras palavras, momentos em que você para de acompanhar a história para resolver algum puzzle ou acionar algum mecanismo.

Existem momentos em que você está genuinamente envolvido na busca de Will, querendo resolver aquele mistério, reunir aquela família… e aí o jogo vai te obrigar a procurar fusíveis, alinhar interruptores ou resolver algum outro puzzle que parece mais um obstáculo artificial do que um desafio interessante.

Há um momento em particular em que precisamos remontar um motor de guincho (?!) — tendo como única referência uma imagem dele montado — que é particularmente obtuso. E o jogo deliberadamente exige que coloquemos cada engrenagem e cada parafuso em seu devido lugar. Tudo isso logo depois de sabermos que o filho de Will não foi encontrado pelas equipes de resgate.

Montar este motor é um saco

É lento. É chato. E prejudica bastante o pacing da campanha. Entendo que isso é necessário para uma mídia interativa… porém, videogame também é uma mídia narrativa, e quando uma atividade de gameplay burocrática entra no caminho da história, ambas perdem força — e com isso, o jogo todo sofre.

Um audiovisual impressionante

Construído na Unreal Engine 5, WILL: Follow the Light não esconde as limitações de um jogo independente, mas é muito bem resolvido visualmente. Os mares congelados, as tempestades de neve, as montanhas cobertas de gelo e as auroras boreais no céu criam uma atmosfera extremamente convincente. O mundo consegue transmitir frio e isolamento com propriedade — e isso é um baita elogio para um jogo que depende tanto da ambientação.

O design de som também merece destaque. O barulho do vento, da água batendo no casco do barco, o ribombar dos trovões no horizonte e o ranger das estruturas durante as tempestades ajuda muito a criar imersão. A trilha sonora é sutil e aparece de forma pontual, mas sempre nos momentos certos.

Por outro lado, os modelos de personagens e algumas animações são um tanto grosseiras, o que inevitavelmente quebra a imersão. As dublagens são boas, mas você não sente que está conversando com um médico ou um policial, mas com um boneco de videogame um tanto mal animado.

No geral, WILL: Follow the Light é um jogo tecnicamente ambicioso, mas que acaba esbarrando em certas limitações técnicas aqui e ali. Pequenas falhas de polimento que não podem ser ignoradas, mas que de forma nenhuma estragam a experiência.

Uma jornada imperfeita, mas sincera

Você já jogou algum jogo e, enquanto jogava, pensou “isso aqui daria um bom filme, ou um bom livro?”. WILL: Follow the Light é um desses jogos. Ao gamificar atividades navais e forçar o jogador a montar motores e operar guinchos, ele acaba tirando o foco do que há de mais importante: sua narrativa.

Verdade que, sem estas atividades ele seria basicamente um walking simulator, mas desde quando isso é um problema? Existem ótimos walking simulators por aí, e eles não são lembrados por suas mecânicas arrojadas, mas por suas grandes histórias.

Ao mesmo tempo em que eu me sentia engajado com a busca de Will e todos os momentos de contemplação e introspecção, eu também ficava entediado sempre que precisava ativar algum elevador ou trocar algum fusível. Em um filme ou livro, isso não aconteceria.

Quando confia na própria ambientação e simplesmente permite que a jornada aconteça, WILL: Follow the Light entrega alguns de seus melhores momentos. O problema é o excesso de atividades chatas e burocráticas entre estes momentos.

WILL: Follow the Light está disponível para PC, PS5 (versão analisada) e Xbox Series.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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