Análise Arkade: despertando as vozes da floresta no esforçado Fe

3 de março de 2018

Se a indústria dos games criou o termo “Souls-like”, acho justo que seja cunhado o termo “Journey-like” para jogos que tentam ser como Journey. Já existem diversos exemplos por aí — Rime, Abzû — e Fe é o mais novo representante deste sub-gênero.

Welcome to the Jungle

Fe é o segundo game da EA a ser lançado pelo selo EA Originals — o primeiro game deste “braço indie” da EA foi o excelente Unravel. Em Fe, controlamos uma simpática criaturinha que está desbravando uma vasta floresta.

Sua principal habilidade é o “canto”: Fe deve se comunicar com outras criaturas através do canto, e quando suas vozes se harmonizam, a fauna local irá lhe ajudar, acionando “mecanismos” da natureza (flores e plantas com alguma utilidade) que abrem caminhos, permitindo não só desenvolver a história, como também visitar novas áreas do mapa.

Interagindo com a fauna.

No decorrer da aventura, “cantamos” basicamente com filhotes: só depois de reunir a molecada é que estaremos aptos a cantar com o adulto, que é quem realmente nos ensina o “dialeto” daquela espécie. Quando domina o idioma de uma espécie, você se torna apto a interagir com o mundo sem depender dos animais (ainda que possa receber uma ajudinha ocasional).

Claro que nem tudo são flores: a floresta está tomada pelos Silent Ones, criaturas sinistras que estão aprisionando os animais, e não vão pensar duas vezes para aprisionar nosso pequeno Fe. Quem são essas criaturas é algo que a gente descobre jogando, mas na dúvida, ande com cautela perto delas se não quiser ir parar em uma bolha.

Uma reunião de Silent Ones.

Na verdade dizer que “a gente descobre jogando” é muito relativo aqui: Fe é um jogo todo não-verbal, então nem sempre as coisas ficam plenamente claras em relação à história em si. As coisas são meio interpretativas, e considerando que é perfeitamente possível terminar o jogo sem coletar tudo o que há escondido pela floresta, também é possível chegar ao final sem ter pego todas as partes da história (visual) dos Silent Ones.

Explorando a floresta

Apesar desta simplicidade narrativa, Fe é um jogo gostoso de jogar: conforme coletamos cristais, vamos ganhando novas habilidades, e se no início da jornada só podemos correr e pular, logo ganhamos habilidade como escalar árvores, planar, e muito mais. Novamente, porém, pode-se ir até o final do jogo sem encontrar todos os cristais e, consequentemente, sem liberar todas as habilidades.

Pelo menos as habilidades essenciais para o progresso são meio que obrigatórias, visto que são liberadas já no começo do jogo, que é a parte mais linear dele. Depois, vai do jogador explorar como quiser, e liberar as diferentes espécies de animais das prisões dos Silent Ones é o que realmente toca o jogo adiante.

Isso faz de Fe um jogo um tanto confuso e repetitivo. Felizmente, a jornada é pontuada de momentos interessantes: libertar o (gigantesco) cervo é facilmente a parte mais memorável da aventura, mas também vamos voar nas costas de enormes corujas, saltar entre flores gigantes que viram plataformas, e muito mais.

Prepare-se para escalar esse bichão no melhor estilo Shadow of the Colossus!

No geral, embora Fe se esforce para oferecer o mesmo tipo de experiência artística arrebatadora e tocante de Journey e Rime, na prática ele não consegue chegar tão alto. Justamente por se tornar repetitiva, a experiência aqui é menos impactante, e ainda que tenha seus momentos — e traga uma mensagem ambientalista embutida que é super válida — Fe não é muito bem-sucedido no quesito “emocionar o jogador”.

Audiovisual

Fe usa um estilo low poly muito bonito, que realmente dá um tom mágico para a jornada, tornando a floresta um ambiente quase etéreo, surreal. Sem compromissos em ser realista, a floresta do jogo é angulosa, cartunesca e, principalmente, estilosa.

A beleza do jogo é ofuscada pela falta de cores.

Apesar disso, a escassa paleta de cores adotada acaba jogando contra o design em si, pois o que poderia ser uma exuberante paisagem verdejante geralmente é mostrada em tons monocromáticos de roxo e azul, e isso tira o brilho do conjunto da obra.

Sem vozes nem falas, o que sobra são os sons da floresta, o canto dos animais e a incrível trilha sonora, que é o que realmente rouba a cena aqui, potencializando as sensações que o jogo se esforça para criar.

Conclusão

Fe claramente foi pensado para ser um daqueles jogos artísticos que emociona e encanta os jogadores. Apesar disso, fiquei com a impressão que ele não consegue ser a experiência arrebatadora que deveria, ainda que tenha seus bons momentos. Fe é simpático, bonitinho e esforçado, mas falta algo para ele alcançar seu potencial.

Pegando carona!

Chega a ser curioso como a produtora — Zoink Games — migrou de jogos super zoeiros e cheios de diálogos afiados (são dela Stick it to the Man e Zombie Vikings) para um jogo totalmente reflexivo e sem diálogos.

Comédia não é algo fácil de se fazer no mundo dos games, e, pessoalmente, acho que a produtora estava melhor quando estava preocupada em fazer a gente rir, não em “sentir”.

Fe foi lançado em 16 de fevereiro. O game está disponível para PC (via Origin), Playstation 4, Xbox One e Nintendo Switch.

P.S. para quem ficou curioso, “Fe” é o termo sueco para “Fada” (a Zoink Games fica na Suécia).

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

Mais Matérias de Rodrigo