Análise Arkade: Gaucho and the Grassland coloca você na pele de um vaqueiro nos pampas

15 de julho de 2025

Desenvolvido pelo estúdio brasileiro Epopeia Games, Gaucho and the Grassland é um game de aventura que coloca o jogador na pele de um vaqueiro gaúcho clássico, em uma história que, mesmo simples, é cheia de referências ao folclore brasileiro. Com boas referências a games como a franquia The Legend of Zelda e também os famigerados jogos de fazendinha, o game traz uma vibe casual bem tranquila.

Então, que tal pegar seu chimarrão e vir comigo pra entender quais são os acertos e erros desse game feito totalmente em terras tupiniquins? Afinal, do boitatá à mula-sem-cabeça, passando pelo Negrinho do Pastoreio e muitas outras figuras culturais do Brasil, dá pra ver que o projeto possui coração, o que já vale pelo menos a curiosidade do público.

Entre Harvest Moon e Zelda

Em termos de jogabilidade, Gaucho and the Grassland apresenta uma espécie de fusão entre os jogos mais clássicos de The Legend of Zelda com os primeiros Harvest Moon. Aqui, criamos nosso próprio personagem, um (ou uma) gaúcho(a) que recebe uma visita do Velho Pai, dizendo que vamos precisar assumir o papel de guardião dos pampas, posto anteriormente ocupado por ele.

Para isso, precisamos ajudar os habitantes locais, defender fauna e flora além de servir também como ponte entre o mundo místico e o mundo real. Assim, tendo que interagir com diversos seres fantásticos como formigas gigantes, espíritos e até lendas como o próprio Boitatá.

O ritmo de jogo oscila entre missões a serem cumpridas para diversos personagens e momentos de crafting e coleta de recursos que se aproxima mais do ritmo dos jogos de fazendinha. Embora ele foque muito mais na aventura, já que precisamos transitar entre diversos territórios diferentes para resolver os problemas presentes neles, seja no mundo real ou no mundo místico.

A história do game é simples, mas serve bem de pano de fundo para fazer nosso protagonista interagir com diversos elementos da cultura gaúcha, além de servir quase como uma aula a respeito de diversos folclores desde os mais conhecidos pelo grande público como também alguns muito mais regionalizados. Mas enquanto a história costura bem todos esses temas entre si, a jogabilidade nem sempre acompanha da mesma forma.

Um jogo entre gêneros

A sensação que me veio diversas vezes enquanto eu jogava Gaucho and the Grassland é que ele se mostra muitíssimo mais interessante como um game de aventura do que como um game de fazendinha. Isso me faz questionar o motivo para termos mecânicas de crafting e construção de fazenda no game, visto que ele poderia funcionar muito bem somente com as partes de aventura.

Isso porque a história gira principalmente em torno da aventura, com o nosso Gaúcho acompanhado do seu fiel cachorrinho (que coleta recursos para nós) e seu forte cavalo (que ajuda na locomoção), seguindo os ensinamentos do seu avô enquanto desbrava os pampas para proteger pessoas e animais de diversas ameaças e problemas. Nesses momentos o jogo funciona muito bem, lembrando uma versão brasileira de jogos de aventura como o já citado Zelda das gerações mais 2D ou portáteis.

Porém, essa jogatina é quebrada diversas vezes com momentos nos quais precisamos construir algo específico, coletar recursos para alguém (ou para nossas construções) ou então desbloquear uma determinada estrutura e construí-la em algum lugar específico. Essas mecânicas, diga-se de passagem, não são tão bem otimizadas, sendo bem lentas em animações e até repetitivas.

E isso contrasta bem com os momentos de puzzle, corridas de cavalo, perseguições de bois e momentos nos quais enfrentamos ameaças de seres fantásticos. Situações muito mais interessantes e bem estabelecidas nas mecânicas construídas no decorrer do game. Com isso, mesmo tendo mecânicas de aventura e base building, ouso dizer que Gaucho and the Grassland funcionaria muito melhor se fosse “apenas” um jogo de aventura.

Puzzles simples, porém criativos

Um dos pontos altos de Gaucho and the Grassland são seus puzzles. Com uma variedade interessante de enigmas e missões, o game apresenta situações variadas que mostram um pouquinho da cultura do Rio Grande do Sul de forma bem charmosa. As missões envolvem desde situações simples como acender tochas para proteger uma plantação do frio até enganar formigas gigantes para libertar o próprio Negrinho do Pastoreio de sua prisão.

E tudo isso envolve mecânicas variadas. Em algumas situações precisamos achar itens perdidos pelo mapa, ou então coletar recursos específicos para trocá-los com algum comerciante por outro item o qual, de fato, precisamos entregar para algum NPC. Além disso, temos situações nas quais precisamos interagir com animais locais, seja tocando ovelhas perdidas de volta para a fazenda ou laçando um boi que fugiu por algum motivo.

Em termos de atividades voltadas para o cumprimento de missões, Gaucho and the Grassland cumpre muito bem seu papel como um bom jogo de aventura com puzzles. Sua jogabilidade simples deixa o jogo acessível para jogadores de todas as idades, o que é outro ponto muito interessante pela sua temática.

Talvez o jogo precise de algumas melhorias na sua qualidade de vida: os menus são um pouco chatinhos de se navegar (principalmente utilizando controles), e o game não parece otimizado o suficiente para rodar no Steam Deck, por exemplo, mesmo que tenha visuais simples e uma jogabilidade que, idealmente, combina com uma plataforma portátil.

Os problemas do crafting

O crafting e base building presentes em Gaucho and the Grassland me deixaram com uma sensação dúbia. Ao mesmo tempo que entendi a presença desses recursos no jogo, infelizmente não senti eles exatamente bem integrados à jogatina. O crafting em si até funciona bem, com as missões da história citadas anteriormente, mas parece que essas missões não seriam o suficiente para justificar a presença de tais mecânicas no jogo.

Daí incluíram as mecânicas da base building para complementar a coleta de recursos e confecção de ferramentas. Assim, além de coletar materiais para NPCs ou para o comércio local, também utilizamos tais mecânicas para construir e aumentar nossa casa, além de incluir celeiros, currais e cercados para os animais que vamos conhecendo no decorrer da campanha.

A ideia é bacana, e funciona pela temática proposta. Mas em termos de recursos de base building e crafting, são bem simplórias. Por exemplo: a forma como os comandos para construção funcionam são travados demais, obrigando o jogador a repetir exaustivamente os mesmos comandos para construir itens através do menu. A própria coleta, sem cliques automáticos por exemplo, se torna repetitiva e desnecessariamente burocrática em alguns momentos.

Com isso, mesmo que “brincar de fazendinha” em Gaucho and the Grassland seja até legal por um tempo, é um aspecto do jogo que merecia receber mais carinho, a fim de entregar uma experiência com mais qualidade de vida para o jogador. Sem contar que, embora se justifique na história, é um aspecto que não se encaixa muito bem, em termos de gameplay, com os momentos de aventura, que é onde o jogo realmente brilha.

Uma fofa aventura nos pampas

Embora tenha alguns deslizes no decorrer do caminho, Gaucho and the Grassland não deixa de ser um bom jogo por conta disso. Ele pode ser bem carismático para quem superar as questões relacionadas ao crafting e usabilidade.

E, claro, existe o “fator Brasil”: embarcar na história principal e desbravar biomas do sul do Brasil, conhecendo aspectos culturais e folclóricos daquela região se justifica por si só, fazendo essa parte da jornada ser muito prazerosa — com muita tradição gauchesca e uma trilha sonora de excelente qualidade.

Se você curte games inspirados na fórmula dos Zeldas clássicos — e tem a resiliência para superar as escorregadas e a eventual monotonia das mecânicas de fazendinha — talvez Gaucho and the Grassland lhe renda uma boa visita aos pampas.

Gaucho and the Grassland será lançado amanhã (16 de julho de 2025) e estará disponível para PC (via Steam).

Gilson Peres

Gilson Peres é Psicólogo, Mestre em Comunicação e aqui no Arkade fala principalmente sobre Realidade Virtual, jogos de PC e novas tecnologias desde 2019.

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