Análise Arkade: Manairons, um jogo de plataforma 3D bem intencionado, mas problemático

9 de abril de 2026

Manairons é um jogo de plataforma 3D que parte de um universo pouco explorado: o folclore daa região dos Pirineus — mais especificamente das lendas sobre pequenas criaturas mágicas conhecidas como manairons.

Um conto folclórico

A história acompanha Nai, um (ou uma, podemos escolher entre duas variações) pequeno manairó que desperta após passar séculos preso dentro de um artefato mágico chamado canut. Ao acordar, ele percebe que o mundo mudou bastante: a pacata vila onde vivia agora está tomada por fábricas e máquinas controladas por um industrial ambicioso chamado Llorenç.

O vilão encontrou uma maneira de capturar e explorar os manairons para alimentar sua expansão industrial. Cabe então a Nai explorar as diferentes áreas da vila, libertar seus companheiros e impedir que essa exploração continue.

Não espere aqui uma narrativa particularmente profunda. A história funciona mais como pano de fundo para a aventura, mas a inspiração em um folclore pouco conhecido ajuda a injetar alguma personalidade ao jogo, simplesmente por ser uma cultura com a qual não temos muito contato.

Plataforma 3D com um toque musical

Na prática, Manairons é um jogo de ação e plataforma em 3D com bastante foco em exploração e resolução de puzzles. No controle de Nai, vamos percorrer cenários relativamente compactos, saltando entre plataformas, escalando estruturas e enfrentando inimigos enquanto avançamos.

A principal particularidade do gameplay está na flauta mágica de Nai. Em vez de armas tradicionais, nosso protagonista toca pequenas melodias para interagir com o ambiente. Determinadas sequências de notas podem ativar mecanismos, mover objetos ou até afetar inimigos.

É uma ideia que inevitavelmente lembra Zelda: Ocarina of Time, onde a música também funciona como ferramenta de interação com o mundo. Em Manairons, o sistema é utilizado principalmente nos puzzles, criando situações em que o jogador precisa observar o cenário e descobrir qual melodia usar.

Além disso, o personagem conta com habilidades tradicionais do gênero, como pulos e ataques simples para se livrar dos inimigos espalhados pelas fases. Nada particularmente revolucionário, mas funcional o suficiente para sustentar a progressão da campanha.

Uma coisa que eu curti é a questão de controlarmos um personagem diminuto em um mundo “gigante”. Eu sempre apreciei essa questão de perspectiva (tipo vemos em It Takes Two ou Hirogami), que permite que cenários mundanos — tipo uma cozinha, uma garagem ou um jardim — se transforme em um ambiente repleto de possibilidades e obstáculos.

A estrutura do jogo lembra bastante os jogos de plataforma 3D ali da virada dos anos 2000. Ainda que isso acrescente um fator nostalgia que pode ser bem-vindo, também pode deixar a experiência um tanto datada — especialmente por questões técnicas.

Audiovisual (e questões técnicas)

Visualmente, Manairons aposta em uma estética cartunesca simples, com personagens caricatos e cenários coloridos que reforçam o tom leve da aventura. A estética dele traz uma vibe meio PS2, mas acredito que seja mais uma escolha de design do que uma limitação. Não é um jogo tecnicamente impressionante, mas a direção de arte ajuda a criar um mundo simpático e agradável visualmente.

Porém, há limitações técnicas que acabam comprometendo a experiência. Para começar, as animações são rígidas e pouco naturais, deixando tanto a movimentação quanto as cutscenes robóticas e artificiais.

Além disso, há uma falta de polimento geral que acaba empurrando o potencial do jogo para baixo. E isso se aplica tanto a bugs e problemas técnicos quanto a questões que impactam diretamente o gameplay, como a percepção de profundidade em saltos e a detecção de colisão (hitboxes) capenga que complica especialmente os combates aéreos.

E falando em problemas que dificultam a nossa vida, a câmera é outro ponto que merece ser mencionado. Em áreas mais apertadas ou durante alguns desafios de plataforma mais exigentes, a perspectiva nem sempre oferece a melhor visão, o que pode transformar desafios que deveriam ser simples em verdadeiros exercícios de tentativa e erro (e frustração).

Conclusão

Manairons é uma aventura bem intencionada que mistura algumas ideias bacanas (ainda que não muito inovadoras) com uma temática interessante. Eu não conhecia os tais Manairons, e sempre valorizo games que me conectam com outras culturas. Além disso, a ideia de usar música como ferramenta de gameplay é boa, e tinha potencial de entregar bons desafios.

Porém, logo fica claro que essas ideias poderiam ter sido levadas um pouco mais longe. A variedade de inimigos não é muito grande e algumas situações acabam se repetindo mais do que o ideal — e aí é realmente uma questão de criatividade e level design, não uma limitação técnica.

Somado a isso, o jogo acaba tropeçando em diversos aspectos técnicos que lhe impedem de se destacar. É uma estreia ambiciosa (talvez até demais) para o estúdio 3Cat que mostra talento artístico e boas referências, mas que precisava de muito mais polimento para chegar perto dos jogos em que se inspira.

Manairons está disponível para PC, Playstation 5, Xbox Series, Xbox One e Nintendo Switch. O game não recebeu tradução/localização para o PT-BR.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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