Análise Arkade: Mina The Hollower, a nova obra-prima dos criadores de Shovel Knight

28 de maio de 2026

Existe um peso considerável nas costas de Mina the Hollower. Não apenas porque ele é o novo jogo da Yacht Club Games — estúdio responsável pelo excelente Shovel Knight — mas também porque nasceu de forma curiosa — e, claro, porque sofreu atrasos e passou vários anos em desenvolvimento.

Contextualizando a espera

Um rápido contexto: Mina the Hollower começou como um projeto paralelo de Alec Faulkner, funcionário da Yacht Club, desenvolvido em seu tempo livre para aprimorar suas habilidades de programação e design — sem nenhuma intenção de se tornar um lançamento comercial.

Os cabeças do estúdio, porém, enxergaram o potencial do projeto, que cresceu além de qualquer previsão inicial. Para dar conta do recado, em 2022 o estúdio abriu um financiamento coletivo via Kickstarter, que foi mais do que bem sucedido: foram mais de 21 mil apoiadores, que somaram mais de U$ 1,2 milhão de dólares para financiar o game.

Mina the Hollower quase se tornou grande demais: a promessa de um lançamento em 2023 ficou para trás (atraso que a própria Yacht Club admitiu estar relacionados ao aumento do escopo do projeto). Agora, em maio de 2026, Mina the Hollower finalmente chegou. E valeu cada mês de espera.

A ratinha e a Ilha Tenebrosa

Nossa protagonista, a ratinha Mina, é uma inventora genial que faz parte de uma guilda chamada Hollowers, dedicada a estudos de tecnologia subterrânea e experimentos energéticos. Ela viaja até a Ilha Tenebrosa para investigar por que seus Geradores de Faísca — tecnologia que ela mesma inventou para alimentar a ilha — pararam de funcionar.

O que começa como uma missão técnica logo se revela algo muito mais sombrio e intrincado. A narrativa trabalha com um fio condutor de desconfiança e desconforto: a ambientação, o design dos personagens e os diálogos dos habitantes da ilha ensinam, desde cedo, a não confiar em ninguém ou em nada.

É um tom deliberadamente obscuro para um jogo que, à primeira vista, parece um jogo fofinho que extrapolou as capacidades do Game Boy Color. Essa dicotomia entre o visual “fofo” e a atmosfera genuinamente inquietante é um dos maiores trunfos de Mina the Hollower.

O jogo consegue equilibrar muito bem tensão, humor sarcástico e uma vibe de aventura sombria — tudo isso tendo como protagonista uma ratinha fofinha e um mundo em pixel art que é todo bonitinho. Essa mistura improvável funciona, e cria um mundo extremamente carismático e misterioso.

Os diálogos também ajudam bastante. Há personalidade nos personagens, boas interações e um ritmo narrativo muito envolvente. Ainda que a história em si não vá explodir a cabeça de ninguém, ela é interessante e o suficiente para manter o jogador curioso e engajado até o final.

Escavando e chicoteando

Mina the Hollower funciona como uma aventura de ação top-down no estilo Zelda clássico: é bastante tradicional na estrutura, mas extremamente refinado na execução. A protagonista utiliza chicotes, armas secundárias e principalmente sua habilidade de escavar e se mover por baixo do solo.

Ao enterrar-se no chão por um curto período, Mina percorre distâncias rapidamente, é capaz de vcruzar certos obstáculos e fica completamente invulnerável. Além disso, ao sair, ela executa um salto maior do que seu pulo normal, o que é útil, por exemplo, para acessar lugares mais distantes. É uma mecânica que parece simples no papel, mas na prática mostra-se uma ferramenta incrivelmente versátil que permeia cada aspecto do jogo: combate, exploração e resolução de puzzles.

Os desenvolvedores perceberam o potencial da escavação — nada mais justo vindo dos responsáveis pelo jogo de um Cavaleiro que carrega uma pá — e fizeram dela muito mais do que um gimmick. O jogo constrói boa parte de seu level design e de seu sistema de combate em torno dela. Caminhos secretos, atalhos inesperados, vantagens contra bosses… tudo passa por essa mecânica, que nunca perde o frescor ao longo da campanha.

O combate também merece elogios: ele é rápido, preciso e exige atenção do jogador. Diferente de muitos indies retrô que acabam se apoiando demais na nostalgia, Mina the Hollower moderniza várias pequenas coisas sem perder a identidade clássica. Existe uma ótima sensação de progressão conforme novas ferramentas e habilidades vão sendo desbloqueadas.

Liberdade, descoberta e desafio

Mina the Hollower é surpreendentemente não-linear e aberto. O objetivo geral é estabelecido rapidamente, mas funciona mais como uma bússola do que como um mapa (o jogo nem tem mapa): cabe ao jogador decidir como e em que ordem explorar a Ilha Tenebrosa.

Essa liberdade é um convite à exploração, e o jogo recompensa o jogador empenhado: segredos e colecionáveis estão espalhados em cada canto, bem como dezenas de passagens e áreas secretas só esperando por quem tiver a curiosidade de procurar. Jogar antes do lançamento — sem um guia — foi um privilégio, mas eu já estou curioso para ver tudo o que a comunidade vai descobrir nas próximas semanas.

Por falar em descobrir coisas, o jogo tem um ritmo excelente de descoberta: sempre existe algum novo equipamento, atalho, segredo ou habilidade surgindo para renovar a experiência.

Mas não venha pensando que o jogo é um passeio no parque: Mina the Hollower é um jogo bastante desafiador. Os inimigos batem forte — especialmente nas primeiras horas, quando a barra de vida de Mina ainda é pequena e ela pode morrer com dois ou três golpes –, e os chefes exigem observação, timing e domínio das mecânicas.

É desafiador, sim, mas respeita bastante a inteligência do jogador. Ele não fica interrompendo tudo com tutoriais excessivos ou explicações enfadonhas. Mina the Hollower espera que você aprenda tudo na prática, como nos clássicos que o inspiram.

Claro que isso poderia abrir espaço para alguma frustração, ou inevitáveis momentos de “fiquei empacado”. Felizmente, temos uma coleção generosa de modificadores que permitem ajustar praticamente tudo: reduzir o dano recebido, aumentar o ganho de XP, ficar invulnerável, desativar a perda de recursos ao morrer, adicionar checkpoints extras, e muito mais. Há até modificadores um pouco mais “malucos”– que eu deixo para você descobrir. Tudo isso lembra os bons e velhos cheat codes de antigamente, e são recursos muito válido em prol da acessibilidade.

Audiovisual

Visualmente, Mina the Hollower é espetacular. A Yacht Club Games já havia mostrado domínio absoluto de pixel art em Shovel Knight, mas aqui o estúdio parece ainda mais ambicioso e habilidoso. Um exemplo desta ambição: o game tem suporte a HDR, algo que eu nem sabia que era possível de ser feito em jogos com visuais tão “simples”.

E “simples” aqui não é sinônimo de feio, preguiçoso ou mal feito. Muito pelo contrário: o jogo é um deleite visual com sua estética que é claramente inspirada pelo Game Boy Color, mas elevada a um nível de detalhamento e fluidez que seria impossível de rodar no hardware do portátil.

Os cenários são extremamente atmosféricos: uma pixel art extremamente caprichada que combina fantasia sombria com aquele charme retrô muito específico dos portáteis antigos. As animações também são incríveis: Mina possui uma movimentação extremamente fluida e cheia de personalidade, enquanto os inimigos e chefes trazem sprites enormes e grotescos, reforçando bastante a identidade visual do jogo.

A trilha sonora também merece destaque. Misturando composições chiptune inspiradíssimas com arranjos modernos, ela consegue soar nostálgica sem parecer presa ao passado. Existem faixas realmente memoráveis aqui, especialmente nos momentos mais tensos da campanha. é extremamente caprichado. Efeitos sonoros, feedbacks de combate e ambientação também são ótimos, contribuindo com a imersão.

Conclusão

Mina the Hollower é um daqueles raros casos que justificam toda a espera e o hype. A Yacht Club Games não se acomodou, nem quis apenar repetir a fórmula de sucesso de Shovel Knight: mantendo o foco em uma mecânica (diferente) de escavação, ela construiu uma experiência nova, que esbanja carisma.

Temos aqui um jogo que não parece apenas uma homenagem nostálgica vazia aos clássicos do Game Boy Color. Ele entende muito bem as referências que utiliza — e entrega algo único e cheio de personalidade em cima delas.

O combate é ótimo, a exploração é extremamente recompensadora — e tudo isso brilha ainda mais graças à mecânica de escavação. Para completar, o audiovisual está entre os melhores e mais polidos no nicho “games com cara de Game Boy Color”.

Se há uma ressalva, é para quem não tem paciência para desvendar o game. Mina the Hollower não te pega pela mão, e espera que você aprenda a jogar jogando. A curva de aprendizado pode ser íngreme, mas quem aceitar o desafio estará diante de uma das melhores aventuras top-down dos últimos anos.

Tudo o que se propõe a fazer, Mina the Hollower faz com excelência. A espera definitivamente valeu a pena.

Mina the Hollower será lançado amanhã (29/05), com versões para PC, Playstation 5, Xbox, Nintendo Switch e Switch 2. O game possui menus e legendas em PT-BR.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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