Análise Arkade: Pokémon FireRed & LeafGreen são afagos nostálgicos, mas agridoces para os fãs

8 de março de 2026

Não dá pra negar que o relançamento para Nintendo Switch dos clássicos Pokémon FireRed & LeafGreen é bastante simbólico para a celebração dos 30 anos de uma das franquias mais importantes de todos os tempos não só nos games, mas de toda a indústria cultural.

Este remake dos originais Pokémon Fire & Blue foi desenvolvido originalmente para o Game Boy Advance há mais de 22 anos atrás e carrega consigo todo o charme da primeira geração dos monstrinhos de bolso, até hoje a preferida de muita gente, sobretudo aquele que, como eu, cresceram assistindo o anime desde sua primeira temporada.

É a contraparte ideal ao lado do anúncio da 10ª geração que deve chegar no ano que vem.

Clássico intocado

Para manter as expectativas no lugar, é fundamental compreender que ambos os jogos permanecem exatamente os mesmos de quando foram publicados pela primeira vez, com alguns ajustes de qualidade de vida adicionados anteriormente, correção de bugs estruturais e outras pequenas melhorias que já tinham sido implementadas. Em outras palavras, não há qualquer adição significativa para os sistemas atuais.

Isso quer dizer que várias das novidades que surgiram desde então (mesmo que a comunidade seja unânime em afirmar que falta ousadia na franquia para alguns saltos mais consideráveis) não estão presentes, como a possibilidade da evolução conjunta do time, incluindo componentes não utilizados diretamente nas batalhas. Há aqui uma versão mais pura, com todas as idiossincrasias de suas origens.

A exploração da região de Kanto e a célebre escolha (que tem definido caráter há décadas) entre os iniciais Bulbasaur, Squirtle ou Charmander está intacta, bem como encontros reconhecíveis até por quem só se lembra da marca pelas animações. Farmar experiência com o seu time, portanto, segue a fórmula que demanda tempo, repetição e muitos Ratatas e Zubats derrotados logo nas primeiras horas de campanha.

Felizmente, esse modo mais raiz de se avançar e progredir não deve ser um problema para os fãs das antigas, nem novos entusiastas, já que mantendo o formato, é um jogo mais simples e objetivo em suas ações.

Mais trabalhoso, mais demorado para ter um time na ponta dos cascos, mas bem mais fácil de se entender, sem por exemplo a separação em categorias de ataques como o físico e os especiais.

O time ideal

Os sistemas de progressão e evolução adicionam alguns cuidados estratégicos na montagem do time, criando um setlist de ataques para cada componente que supra as necessidades principalmente dos ginásios.

Ter um Pokémon de fogo com ataques psíquicos ou de metal, por exemplo, pode ser o diferencial entre uma vitória esmagadora ou uma derrota inapelável, algo que ganha ainda mais importância com a impossibilidade de ficar trocando os movimentos especiais de cada bicho o tempo todo.

Tudo é tão cru quanto era no passado, portanto. Nem mesmo as melhorias acrescentadas nas edições revisadas dos últimos tempos, como Let’s Go ou Brilliant Diamond and Shining Pearl, estão disponíveis, o que pode desagradar quem já estava acostumado com algumas automações (como mandar seus aliados brigarem automaticamente com selvagens para ganhar experiência mais rápido), mas despertar aquele sorriso de canto de boca nos mais puristas e nostálgicos.

Também por isso, montar a equipe ideal significa que tudo o que se refinou nos últimos 20 anos continua valendo: se faz necessário um bom Pokémon capaz de usar o Surf para encarar ginásios e o chefão; um tipo psíquico para dar conta de tipos lutador e veneno; um bom elétrico para explorar os espaços alagados; além de um coringa versátil que possa aprender ataques poderosos como Earthquake, Dig e Shadow Ball. Somando estes a um inicial bem treinado tudo fica um pouco mais fácil de dominar.

Extras mantidos sem acréscimos

Algumas adições importantes daquele tempo felizmente foram mantidas, sobretudo no conteúdo pós-jogo. Se só os 151 bichinhos originais da aventura base não forem suficientes, por exemplo, será possível, depois de enfrentar o Chefe Giovanni, visitar as Ilhas Sevii com Pokémon das duas gerações seguintes, onde também se encontra a Torre de Treinadores que traz uma série de bons desafios para testar qualquer time perfeito.

Além disso, também é possível acessar locais que antes só estavam disponíveis em eventos especiais que dificilmente nós brasileiros teríamos acesso: Birth e Naval Island, onde encontram-se criaturas lendárias Deoxys, Ho-Oh e Lugia que, cá entre nós, são muito mais interessantes que Articuno, Zapdos e Moltres. Ou seja, exceto pelo fato de que a troca com outras gerações parece ausente, esta é a versão mais próxima de uma edição definitiva da primeira geração.

Enquanto mudanças (ou a falta delas) estruturais não tenham me incomodado e, para ser sincero, me deixam um pouco mais aliviado, outros elementos que poderiam melhorar a qualidade de vida para tempos mais atuais me parecem necessários.

A possibilidade de jogar em formato widescreen, por exemplo, seria perfeita tanto para a tela grande quanto para o modo portátil, e a definição que parece ter envelhecido bem não parece ser um empecilho para o reenquadramento.

O mesmo vale para uma falta de sensibilidade em acrescentar, tal como em tantos relançamentos comemorativos, conteúdos extras como galerias de arte, rascunhos, uma playlist com as músicas originais ou coisas que elevassem a celebração da série. Até mesmo filtros, funções como retroceder uma jogada mal feita, coisas tão protocolares em ports mais recentes poderiam agregar valor a este relançamento.

A escolha por manter esta nova versão o mais similar possível ao que já vimos antes levanta a questão do porquê não só disponibilizar o jogo dentro do programa de retrocompatibilidade dos serviços da Nintendo. Claro que uma versão nativa é bem-vinda principalmente por não depender de uma assinatura, mas o port não apresenta grandes justificativas para tal.

Conclusão

Dito tudo isso, a análise do relançamento de um remake não é das tarefas mais fáceis, mas a recomendação o é. Pokémon FireRed & LeafGreen são a essência da marca e basicamente o ponto fundamental para onde todo entusiasta precisa olhar quando pensa no passado, no presente e no futuro da franquia.

Não há dúvidas, porém, que a manutenção das mecânicas mais cruas e dos visuais de sua recriação podem transparecer um certo comodismo para um relançamento tão importante que visa basicamente não deixar a marca dos 30 anos passar batida. É difícil dizer o quanto isso foi planejado desde muito tempo ou foi um improviso de última hora considerando que a nova geração não sairá em 2026.

É possível que muita gente queira um verdadeiro novo remake (já que Let’s Go, Pikachu! e Let’s Go, Eevee! acabaram não sendo a unanimidade que se esperava neste sentido), incorporando novas funcionalidades, visuais aprimorados e outras melhorias modernas para a qualidade de vida desta geração.

Mas isso tudo não tira o brilho da experiência nostálgica de voltar a Kanto, enfrentar o Onix do Brock pela (centésima) primeira vez e conseguir a tão sonhada insígnia que desencadeia a busca obcecada por ser um mestre Pokémon.

Pokémon FireRed & LeafGreen está disponível desde 27 de fevereiro de 2026 exclusivamente para Nintendo Switch (e Nintendo Switch 2 via retrocompatibilidade). Diferentemente da 10a. geração recém anunciada, porém, ele segue sem localização para o nosso bom e velho português do Brasil.

Paulo Roberto Montanaro

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