Análise Arkade: Silent Hill f vai para o outro lado do mundo, mas traz um terror familiar

1 de dezembro de 2025

Silent Hill f é um verdadeiro divisor de águas para a franquia. Ambientado fora da cidade que dá nome à série e contendo um novo estilo de gameplay que dividiu bastante opiniões. Vamos então conversar melhor sobre o game em nossa análise!

Silent Hill fora de Silent Hill

Silent Hill f é ambientado na década de 60, cerca de 30 anos antes dos eventos do primeiro Silent Hill, na cidade japonesa de Ebisugaoka, um pequeno lugar escondido nas montanhas, vivendo principalmente de sua agricultura.

Nesta cidade vive Hinako, uma adolescente que vive com uma família instável. Seu pai é alcoólatra e desconta todas as suas desgraças em Hinako. Sua mãe, vítima dos surtos violentos de seu esposo, não protege a filha e age somente para tentar manter o marido calmo. E a irmã mais velha de Hinako, Junko, recentemente se casou e deixou o lar para morar com sua nova família, deixando sua irmã “sozinha”.

Assim, a vida de Hinako, que já não era boa, torna-se um verdadeiro inferno quando uma estranha névoa cobre toda a cidade, fazendo todos, exceto alguns de seus amigos da escola, desparecerem. E então, estranhas folhas vermelhas passaram a aparecer pela cidade, matando quem entrar em contato direto com elas, e trazendo monstros horríveis consigo, que passaram a perseguir principalmente Hinako.

A jovem então não tem escolha a não ser tentar sobreviver, equipando-se de armas improvisadas para tentar escapar da cidade com vida. Mas esse não é o único inferno que ela vai passar, pois Hinako estranhamente transita entre um outro mundo, escuro e povoado por outros tipos de monstros.

Os terrores de Hinako

Os games da franquia Silent Hill possuem um padrão de colocar o jogador para explorar duas versões da cidade: a versão enevoada e a sua versão das trevas, com essas versões alterando entre si como ciclo de dia e noite. Na névoa, as coisas são perigosas e mais próximas do mundo real. Nas trevas, a cidade se transforma num inferno escuro de grades de metal e ferrugem.

Em Silent Hill f as coisas são um pouco diferentes. Quando está acordada, Hinako explora a cidade envolta em névoas e monstros. E quando Hinako dorme, seja para descansar ou ao perder a consciência, ela é transportada para um outro mundo escuro, cheio de lagoas e templos antigos, local em que ela encontra um jovem com máscara de raposa que a “guia” adiante, mas de forma bem estilo “Mestre dos Magos”, aparecendo somente quando é conveniente.

Neste outro mundo Hinako encara a si própria, tendo que interagir com suas inseguranças e traumas, especialmente relacionada a seus amigos, em sequências que incialmente parecem bastante confusas.

Esses dois mundos são conectados entre si mas parecem criar uma separação em Hinako. Dentro do mundo sombrio, ela age como soubesse porquê está ali, tomando inclusive decisões narrativamente extremas, sem o envolvimento do jogador. E quando ela volta pro mundo “real” parece fingir que nada aconteceu.

Isso gera enorme desconfiança do jogador com Hinako, em como ela está envolvida em tudo o que está acontecendo. E conforme o game progride essas respostas vão surgindo, mantendo a tradição de Silent Hill de ter um terror psicológico poderoso.

Gameplay divisivo

O grande ponto de discussão sobre o game (Além do fato de ser um Silent Hill fora da cidade de Silent Hill, o que não é nada negativo, mas é estranho), é seu gameplay.

Silent Hill f é semelhante a Silent Hill 2 Remake no sentido de ter controles de câmera livre sob o ombro do personagem. A grande diferença é que seu combate foi construído em cima de uma barra de estamina, algo novo para a série. Muitos tem chamado de um “Silent Hill Souls-like” por conta disso, mas isso é uma comparação extremamente simplista. Afinal, outros games que não são Souls-like também possuem barra de stamina.

Sikent Hill f não possui nenhuma arma de fogo, uma grande mudança para o padrão da série. Só é possível usar armas brancas, que possuem durabilidade. E durabilidade baixa. Assim, nem todo inimigo vale a pena ser enfrentado, as vezes é melhor fugir para preservar suas armas, pois você só pode carregar apenas 3 ao mesmo tempo, sejam canos de metal, martelos e machados e etc. Apenas no “mundo sombrio” que temos acesso a armas diferentes e que não possuem durabilidade, sendo indestrutíveis. Com isso, Silent Hill f as vezes parece ser dois games em um só.

E em combate todas as ações de Hinako, seja atacar, defender, correr e esquivar consomem estamina. O problema é que a estamina acaba muito rápido, e se ela se esgotar, Hinako fica completamente indefesa por alguns segundos.

Há ainda uma barra de sanidade, usada para ativar a habilidade de foco, que desacelera o tempo e facilita contra-ataques. Aliás, contra-ataques são provavelmente a principal mecânica do game. Todos os inimigos podem ser contra-atacados em momentos específicos. Muitas vezes antes de atacarem, uma rápida distorção visual acontece indicando o período certo para interromper seus ataques. Ataque nesse momento e você causará alto dano aos inimigos. Usando o foco, você pode enxergar em câmera lenta, facilitando o contra-ataque.

O foco também é usado para ataques especiais. Segure o botão de foco até um círculo ao lado da barra de vida se encher e você usará um poderoso ataque causa alto dano. Mas, todas essas ações consomem sanidade. Ficar sem sanidade é especialmente perigoso, inclusive. Se você for agarrado por monstros inimigos, eles drenarão parte da barra de sanidade, mas se ela estiver zerada, você perderá vida. O mesmo acontece com certos tipos de ataques ou eventos, especialmente relacionados a sons. Certos inimigos podem gritar durante batalhas, e se você estiver perto, perderá sanidade, ou se essa barra estiver esgotada, Hinako perderá vida.

Assim, Silent Hill f acabou sendo bastante comparado a Souls-like. Uma comparação extremamente superficial, mas que ilustra o quão diferente é seu gameplay. Pessoalmente, não tive muitos problemas com o gameplay, mas confesso que estranhei bastante no começo especialmente por já estar acostumado com o remake de Silent Hill 2.

E definitivamente as armas com durabilidade baixíssima são um grande incômodo, forçando o jogador a usar e abusar das esquivas, o que evidencia o quão baixa é a estamina de Hinako, que acaba muitíssimo rápido. Assim, cada batalha é mais um gerenciamento de recursos do que uma luta em si. Atacar ou não? Gastar suas melhores armas agora ou guardá-las para inimigos fortes? Fugir ou encarar a briga?

Audiovisual

Silent Hill f é incrivelmente belo. Os personagens possuem visuais fotorrealistas com um nível de detalhes impressionante. Durante o game, se você posicionar Hinako de forma que consiga ver seus olhos de perto, conseguirá ver até mesmo reflexos neles! Além de detalhes incríveis nas peles e cabelos de todos os personagens.

Os monstros do game também são incríveis. Ainda que este seja um Silent Hill fora da cidade de Silent Hill, os monstros que encontramos seguem a temática de representar facetas dos próprios personagens, personificando traumas e sentimentos negativos. O monstro mais comum são as bonecas, estranhos monstros que parecem uma amálgama de bonecas de porcelana japonesas construídas com pele humana costurada. Além disso, vários monstros parecem tirar certa inspiração de criaturas mitológicas japonesas, criando uma identidade visual bem forte para o game.

Porém, o que mais se destaca no game são as cores vermelha e cinza. O mal que está assolando a cidade de Ebisugaoka mergulhou todo o local numa névoa incrivelmente densa, escondendo seus perigos e tornando a exploração bastante perigosa. E no meio da névoa há as flores vermelhas, que corrompem tudo o que tocam. Inicialmente aparecendo como flores brotando rapidamente, logo a cidade começa a ser tomada por uma estranha substância vermelha e pulsante, parecendo até carne, que envolve regiões inteiras da cidade, tornando-as intransitáveis.

A trilha sonora do game é excelente, contando com o retorno de Akira Yamaoka. E dessa vez toda a trilha sonora foi feita com 100% de inspiração em músicas japonesas. Assim ouvimos muitas flautas, shamisen e tambores, criando melodias genuinamente aterrorizantes e contribuindo para criar uma atmosfera incrivelmente poderosa para o game!

Sua dublagem também é muito boa. Como o game se passa no Japão, resolvi jogar com idioma das vozes em japonês, e jogar assim foi incrivelmente imersivo. Felizmente, o game conta com localização em português brasileiro em seus menus e legendas!

Conclusão

Silent Hill f é um game que dividiu opiniões. Definitivamente é um game incrível e uma ótima experiência de terror. A verdadeira questão é o uso do nome da franquia Silent Hill. Sendo justo, há vários games da série que não são ambientados na cidade de Silent Hill, porém a maioria deles acontece em locais próximos, afetados pelo mal despertado no primeiro game da série. Já Silent Hill f vai para o outro lado do mundo.

Se pensarmos bem, essa mudança de localidade não é exatamente um problema, pois os terrores que assolaram a cidade de Silent Hill podem acontecer em qualquer outro lugar de seu mundo. Apesar disso, o game contém uma história boa, ainda que em certos momentos enquanto jogava eu questionava as atitudes de Hinako, mas mesmo não tendo controle sobre elas, elas contavam uma história progressivamente mais insana e cheia de terror.

Seu gameplay é bom, funciona bem e é divertido, apesar de ter momentos frustrantes, principalmente em relação a stamina. No fim, não sei se é um gameplay que casou bem com um game de terror. Em minha opinião bastaria retirar a barra de stamina e remover a durabilidade das armas para ficar mais divertido. Bastaria conceder acesso a armas melhores conforme progredimos na história. No outro mundo, em que Hinako encontra o Máscara de Raposa, encontramos armas melhores conforme avançamos a história. Mas no “mundo real”, mergulhado na névoa, as armas são poucas e suas durabilidades são muito baixas.

No fim, Silent Hill f é um ótimo game, mas que não agradou todos os fãs da séria. Talvez a sensação que fique no final é a de que “menos é mais”. O game tem uma atmosfera perfeita e uma história bastante envolvente, mas seu gameplay as vezes destoa da ambientação. Em minha opinião, se o gameplay seguisse a simplicidade de SIlent Hill 2 Remake, e adicionasse o recurso de sanidade e contra-ataques de forma menos restritiva, o game seria muito mais divertido.

Silent Hill f foi lançado no dia 25 de setembro com versões para PC, Playstation 5 e Xbox Series X/S.

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Renan do Prado

Amante de Metal Gear, platinador de Soulsborne e exímio jogador online (quando o lag não atrapalha).

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