Análise Arkade: Voidling Bound une Spore e Skylanders em um shooter em terceira pessoa cheio de cores

Voidling Bound é um jogo de tiro em terceira pessoa com mecânicas de aventura e plataforma no qual você cria e evolui criaturas alienígenas chamadas Voidlings para entrar em suas mentes e desbravar setores diversos do universo com elas. Desenvolvido pela independente Hatchery Games, não é por acaso que o jogo lembra Skylanders, já que ex-desenvolvedores da franquia da Toys for Bob fazem parte desse novo estúdio.
Com combinações variadas entre diversas criaturas, Voidling Bound consegue trazer uma gameplay leve e divertida com bastante variação opcional de mecânicas e técnicas. Mas será que consegue chegar a altura ou então evoluir os conceitos que suas inspirações criaram? Confere comigo nessa review completa!

Aventura espacial com toque de Avatar
Voidling Bound coloca o jogador na pele de um chamado Space Wrangler, sem nome e sem rosto. É basicamente um astronauta que consegue fazer ligações mentais com as criaturas alienígenas que vamos encontrar no game. Como parte de uma equipe de exploradores espaciais, cabe a nós a função de resgatar e desenvolver as criaturinhas enquanto exploramos o espaço e enfrentamos diversas ameaças pelo caminho.
A história do jogo não é nada de mais, ela está ali para servir de “desculpa” para que a gente passe por diversos cenários diferentes, mas nem de longe chama atenção por si só. A parte bacana é justamente a quando o enredo se traduz em mecânica de jogo: o fato de que entramos na mente de nossas criaturinhas para controlá-las enquanto elas exploram diversos ambientes para cumprir missões. Os Voidlings são os reais protagonistas do jogo, com diversas habilidades e poderes diferentes, além de mecânicas próprias de jogo para cada espécie.

Já a nave espacial em si serve como um hub central no qual criamos e evoluímos nossas criaturinhas, botamos elas para treinar status variados, personalizamos suas aparências e aceitamos diversas missões de campo para, enfim, entrar na mente de uma delas e descer a porrada em inimigos — que variam de outros alienígenas até seres ancestrais inorgânicos.
Coleta e administração de recursos
Em Voidling Bound, a administração de recursos é parte fundamental da jogatina. Isso porque, além dos créditos que servem como dinheiro dentro do jogo, temos pontos de atributo de cada Voidling separadamente para distribuir, além de uma árvore de habilidades passivas própria de cada família de Voidlings (explico mais sobre isso mais abaixo), e também recursos elementais para poder evoluí-los de diversas maneiras.

Fora isso, temos habilidades passivas da própria nave para evoluir, possibilitando melhorias no treinamento ou na obtenção de itens, por exemplo. Além de facilitar o processo de cruzamento entre os Voidling e também aumentar o leque de opções nas lojas. Tudo isso requer um nível de organização e capacidade multitarefa do jogador, mas nada complexo demais que mate a diversão.
A minha sensação jogando Voidling Bound é de que estamos jogando uma versão um pouquinho mais complexa do que víamos nos primeiros Skylanders — com mais recursos para se administrar e um infinidade de opções de personalização para brincar. Mas tudo isso é colocado para o jogador de forma muito didática e acessível, fazendo com que Voidling Bound siga a premissa dos games dos quais ele se originou, sendo acessível e divertido seja para crianças mais novas como também para adultos que gostam do gênero.

Talvez o maior problema de toda essa administração de recursos gire em torno da finalidade desses sistemas na prática do jogo. Isso porque temos fases bem limitadas para testar nossas personalizações, que chegam em um certo ponto do jogo que se tornam, em maioria, obsoletas. Mas vou explicar isso com calma já já. Antes, preciso explicar a principal mecânica de Voidling Bound: o sistema de evolução de criaturas.
Evolução com uma pitada de Spore
O sistema de evolução dos Voidling é, de longe, a coisa mais criativa e legal do jogo. Só não digo que é a mais divertida necessariamente pois os combates são realmente muito bons também. Mas falando propriamente das evoluções, o game traz algumas espécies de criaturas base que são desbloqueadas no decorrer das missões principais do game, a partir do momento que exploramos novas áreas e as libertamos da corrupção extradimensional que aflige a galáxia.

Cada um desses Voidling base podem ser evoluídos na Câmara de Evolução. Inicialmente possuem duas ramificações de evolução cada. Essas opções levam a evolução da criaturinha em duas árvores distintas, cada uma focada em uma identidade elemental própria. Escolhendo um desses “lados evolutivos”, na próxima etapa de evolução são dadas mais duas opções de escolha, agora focadas na habilidade primária da criatura. Após essa escolha, temos mais duas opções evolutivas para a habilidade secundária.
O mesmo ocorre depois com a habilidade terciária e, por fim, com a habilidade “ultimate” de cada criatura. São quatro etapas de opção, mas que geram na etapa evolutiva final nada menos que 16 criaturas diferentes originadas de cada criatura base. Ao todo temos 9 espécies de criatura base, resultando assim em nada menos que 144 opções diferentes de evoluções finais de criaturas para brincar.

Mas isso não é tudo! Porque no conteúdo mais voltado para o pós-game, temos ainda o recurso de hibridização de criaturas, que faz com que possamos personalizar cada criatura da forma que quisermos de acordo com as habilidades, padrões de cores, ataques e elementos que desbloqueamos no decorrer do jogo. Por isso, mesmo que inicialmente cada criatura tenha apenas duas opções elementais de evolução, na prática isso tudo vira uma salada mista quando chegamos mais pro final do jogo.
Hibridização que permite liberdade, mas sem equilíbrio
O sistema de hibridização que acabei de citar é muito divertido enquanto você está brincando de personalizar suas criaturinhas. Mas na prática, matou boa parte do que fez o progressso de Voidling Bound ser divertido no decorrer das dez horas que levei para finalizar o game. Isso porque, além da hibridização por si só ser muito acessível de ser feita, temos também a possibilidade de escolha de elementos livre demais.

Essa liberdade exagerada e despretensiosa faz você, enquanto jogador, não ver motivo para colecionar diversos monstrinhos e upar vários deles de várias espécies distintas. Você basicamente acaba escolhendo um que acha mais legal ou curte mais o estilo de movimentação e o restante você personaliza na hibridização pagando um preço muito em conta para quando estamos no fim do jogo. Essa hibridização permite inclusive mesclar ataques e habilidades passivas de outras espécies, além de escolher o elemento base da criatura e de cada um de seus ataques separadamente.
Tudo isso parece um baita acerto pensando teoricamente, não fosse a inclusão de um elemento “final” que é simplesmente forte contra todo e qualquer inimigo que enfrentamos. Todos os demais elementos que vamos desbloqueando no decorrer do jogo (gelo, fogo, veneno, eletricidade e outros) são fortes apenas contra dois tipos de inimigos. Já este último elemento dá vantagem contra todos, tornando todos os demais elementos simplesmente obsoletos no fim do jogo.

O mesmo acaba acontecendo com as espécies. Já que as espécies finais, como o icônico Ur-Sek e o poderoso Morfang são de longe os monstrinhos mais poderosos do jogo, tornando inúteis todos os demais, caso você não tenha apego estético pelas criaturinhas mais fofas. Todo esse patamar final da aventura faz com que a jornada como um todo se torne obsoleta rápido demais: após tantas opções de personalização, tanto caminhos de evolução, no final, a escolha mais eficiente se resuma a algumas poucas opções óbvias.
Combates divertidos e viciantes
Mas não se engane, esses pontos negativos de Voidling Bound não atrapalham o divertimento pelo tempo que o jogo tende a durar. Segundo minha experiência, se você optar pelo nível mais fácil ou intermediário de dificuldade, provavelmente finalizará a aventura por volta de dez a quinze horas. Em opções mais desafiadoras pode ser que esse tempo se estenda mais um pouco.

A diversão do jogo não se resume apenas a criar os bichinhos mais variados e descobrir novas combinações entre eles — embora isso seja bem legal também –, mas testar as mais variadas criaturas em combate é o que faz o jogo se justificar enquanto um game de ação em terceira pessoa. Os comandos são bem instintivos, a movimentação é fluida e as animações de combate são bem coloridas e chamativas, talvez a parte do jogo que mais lembre a franquia Skylanders de fato.
As missões podem variar entre fases de exploração do mundo, que lembram bastante jogos de plataforma e aventura 3D com colecionáveis escondidos e puzzles aqui e ali; fases de sobrevivência com ondas de inimigos surgindo de tempos em tempos; e fases de defesa com inimigos surgindo e você precisando dominar um território específico que vai mudando a cada nova onda.

Em todos os tipos de fase, ao chegar na etapa final, você enfrentará um boss que possui mecânicas próprias e padrões de ataque diferentes entre si, lembrando um pouco os jogos de bullet hell, mas nem perto de representar o mesmo nível de desafio nas dificuldades mais acessíveis. Por fim, o pós-game se resume às incursões ao abismo, com o jogo virando um roguelite gerado proceduralmente onde você pode voltar entre fases para salvar os recursos coletados ou correr o risco de avançar um pouco mais e perder tudo caso seja derrotado.
Visual carismático e cheio de cores
Em aspectos audiovisuais, Voidling Bound não deixa absolutamente nada a desejar. Ele bebe bastante da fonte de carisma que fez a franquia Skylanders vender tantos bonequinhos nos anos 2010. Com criaturas carismáticas com um estilo próprio, paleta de cores vibrantes e cenários belíssimos, o jogo ao mesmo tempo que é bonito e enche a tela com cores e brilhos, também tem um excelente desempenho.

No Steam Deck mesmo o jogo roda muito bem, mesmo que ainda não possua o selo de verificado para rodar no portátil da Valve. Bugs são praticamente inexistentes, e o visual não tem queda de desempenho mesmo nos momentos mais intensos da ação que o jogo proporciona com muitos ataques e inimigos ao mesmo tempo em tela.
Já nas músicas o jogo cumpre seu papel. A trilha sonora não é memorável, mas dá o tom na medida para a aventura rolar despretensiosamente. Senti falta somente de mais áudios durante a gameplay, visto que o jogo começa com uma cinemática toda dublada em português brasileiro super bem feita. Porém, no restante da jogatina os diálogos são exclusivamente por texto, quebrando um pouco a expectativa criada na introdução do jogo.

Um bom jogo que podia ser excelente
Voidling Bound tem carisma e excelentes ideias. A diversão também é garantida num ritmo de jogo que vicia rapidamente. Entretanto, ele deixa a desejar na longevidade. Não que o jogo precisasse entrar na onda dos jogos de 200 horas cheio de enchimentos e repetitividade. Mas o problema é que aqui temos o outro extremo: o game proporciona uma excelente variedade de combinações de personalização de criaturas, poderes e habilidades, mas não te dá motivos o suficiente para utilizar tudo que ele tem disponível.
A sensação que fica, ao final dessas pouco mais de dez horas de gameplay é que, mesmo tendo lançado oficialmente, Voidling Bound parece um pouco com um “acesso antecipado”. Pela conclusão da história do jogo, parece que o pessoal da Hatchery Games quer expandir aos pouco o game, quem sabe com novas criaturas, mais elementos, novas fases e — posso sonhar — com um multiplayer local/online que seria muito bem-vindo. Mas por hora, essas coisas não estão presentes no game, deixando um gostinho de jogo completo com cara de acesso antecipado.
Voidling Bound foi lançado no dia 9 de junho e está disponível para PCs via Steam e Epic Games, podendo ser jogado também no Steam Deck. O game possui localização completa em português brasileiro, embora não possua muitos áudios durante a gameplay.