Análise Arkade: Sonic Racing CrossWorlds traz o multiverso para os jogos de corrida de kart

8 de outubro de 2025

Sonic Racing CrossWorlds chega em um momento, no mínimo, complicado — poucos meses após a chegada de um novo Mario Kart. A seu favor, ele tem o carisma da turma do Sonic, o fato de ser multiplataforma e o background do ótimo Sonic & All-Stars Racing Transformed, jogo muito querido pela comunidade.

Foco total na corrida

Sonic Racing CrossWorlds é um jogo focado na corrida. Isso quer dizer que ele nem tenta criar um modo campanha, nem trazer qualquer tipo de narrativa um pouco mais aprofundada. O foco é puramente pisar fundo e competir com outros pilotos em modos de jogo variados, que vão do tradicional Grand Prix, que são os mini torneios convencionais, ao exótico Race Park, que reúne um aglomerado de modalidades malucas com uma vibe de party game.

Por um lado, acho que esta é uma decisão justa para um jogo que, afinal, é um jogo de corrida. Por outro, eu sinto falta de jogos de kart que pensem um pouco mais na experiência single player. Eu adoraria ter um fiapo de história que amarrasse as corridas a um objetivo maior — algo que já era feito lá nos tempos do PS1 com Crash Team Racing. O máximo que o jogo faz é colocar um piloto rival, que vai infernizar nossa vida nas provas e fazer comentários entre as corridas.

Do jeito que está, não é como se Sonic Racing CrossWorlds parecesse incompleto: ao contrário de Mario Kart World, ele não faz de conta que tem um mundo aberto, nem nada do tipo. Porém, sinto que ele poderia ter transformado sua própria temática multidimensional em algo mais robusto, narrativamente falando — mais ou menos como Sonic Generations já fez.

Não acho justo dizer que a falta de uma campanha/história é uma limitação. Mas, se tivesse, seria um diferencial. Do mesmo jeito que Mortal Kombat evoluiu o padrão do que é esperado de um “jogo de luta” por trazer uma campanha cinematográfica, sinto que está faltando um jogo de kart que faça algo similar. Mas, né, não se pode ter tudo.

Jogabilidade

Sonic Racing CrossWorlds entrega uma experiência de corrida simples e direta — em termos de complexidade e quantidade de botões utilizados –, mas muito fluida, desafiadora e bem calibrada. Os karts respondem com precisão, o sistema de drift é muito satisfatório e o jogo tem aquele ritmo acelerado que mistura bem velocidade e dirigibilidade com a insanidade de pistas que não tem qualquer pretensão de parecerem realistas.

Boosts, rampas, curvas fechadas e itens espalhados fazem parte da festa, e aqui os veículos seguem se transformando em aviões e lanchas, conforme a necessidade. A transformação é automática, mantendo a fluidez do gameplay, e há uma boa variedade de power ups que podem “virar o jogo” nas disputas mais acirradas — nada apelão como o famigerado casco azul, mas há uma boa variedade.

O principal diferencial, porém, é justamente a mecânica “CrossWorlds”, que coloca imensos anéis na pista — os travel rings — que funcionam como portais interdimensionais. O primeiro colocado da corrida decide se vai levar a prova para uma pista específica ou uma aleatória. Assim, a segunda volta sempre passa em outra pista, e a terceira e última volta retorna à pista original, que estará um pouco diferente.

Essa variação muda completamente a dinâmica das corridas, forçando o jogador a se adaptar rapidamente. Curiosamente, Mario Kart World também pensou em um jeito de fugir da repetição típica de uma corrida de circuitos fechados, mas cada jogo trouxe uma abordagem diferente.

Como alguém que passou bastante tempo jogando Mario Kart World, senti falta de alguns recursos típicos, como pulos (aqui os veículos entram em modo drift direto, sem darem um pulinho antes). Além disso, achei que alguns veículos meio que não combinam com a proposta do game — tipo as pranchas estilo hoverboard. Alguns percursos também me pareceram um tanto confusos (tem um de halloween com um trecho de pista invisível que é terrível), mas é algo pontual, que não compromete a diversão.

Customização, grinding e multiplayer

A customização seria um ponto forte do game… se não viesse atrelada a um desnecessário sistema de grinding. É possível mudar o visual dos veículos, melhorar atributos e até equipar gadgets que influenciam levemente a jogabilidade. Não é nada que transforme a experiência de jogo, mas traz um senso de identidade que faz diferença.

Repare que cada buzina custa 500 tickets

Infelizmente, boa parte do aproveitamento envolve um grinding pentelho para desbloquear veículos e acessórios — inclusive coisas banais, tipo sons de buzina e rastros de pneus. O jogo utiliza um sistema de tickets desnecessariamente inflacionado, que exige muito empenho para ser acumulado. E estes cupons são necessários para tudo: até dar retry em uma corrida custa tickets.

E já que estamos falando das escorregadas do jogo, vale mencionar que o multiplayer online é um tanto obtuso e burocrático. Sem a possibilidade de jogar Grand Prix com outros players online, cada corrida envolve uma ida até o lobby para esperar jogadores, aí todos votam e correm na pista mais votada. Ao fim da corrida, o jogo separa todo mundo, e para jogar outra corrida online, é preciso encarar outro lobby, outra votação, e por aí vai.

Audiovisual e performance

Visualmente, Sonic Racing CrossWorlds é um espetáculo de luzes, cores e velocidade. Os cenários são visualmente incríveis e cheios de vida, com direito a muitas referências e elementos que fazem alusão à mitologia do Sonic. Efeitos como reflexos, luzes, partículas e motion blur criam uma sensação de velocidade incrível. É um jogo de kart estilizado, mas que não deve nada para simuladores realistas e jogos de corrida “sérios”.

O design de som é outro acerto: as músicas são enérgicas, o ronco dos motores é potente, e toda a cacofonia de batidas, explosões e efeitos cria uma ambientação que combina com o jogo. O vacilo aqui é: somente os personagens do Sonic tem diálogos interessantes. Alguns convidados trazem falas genéricas, e os vindouros participantes especiais não vão falar nada por questões de licenciamento. Convenhamos, é bem triste você trazer personagens como Bob Esponja e Michelangelo para o seu jogo e eles não poderem falar nada, mas é assim que vai ser.

Jogando no PlayStation 5, o desempenho do game se mostrou muito sólido. O jogo roda sem engasgos mesmo nos momentos mais caóticos e o tempo de carregamento é super rápido — sem contar que as transições instantâneas que rolam ao cruzarmos os travel rings são impressionantes. Fora isso, o jogo faz bom uso das vibrações do DualSense para transmitir impacto e sensação de velocidade.

Conclusão

Sonic Racing CrossWorlds é um ótimo jogo de kart, que mostra que esta famosa série spin-offf do ouriço está em boas mãos — este é o primeiro jogo de corrida produzido pelo Sonic Team, os títulos anteriores foram produzidos pela Sumo Digital. Com um bom elenco, gameplay bem calibrado e audiovisual caprichadíssimo, ele entrega toda a velocidade e diversão (com momentos de raiva) que se espera de um jogo de kart.

Se por um lado o jogo pesa a mão no grinding com seus tickets, por outro, os travel rings são uma adesão criativa e muito bem executada, que transforma a “segunda volta” de cada circuito em uma experiência imprevisível. Aliás, olha que curioso: existe um bom número de pistas criadas exclusivamente para serem “a segunda volta”, e não podem ser escolhidas como pistas principais.

É um jogo de corrida de kart racer moderno, vibrante e cheio de personalidade. Difícil dizer se é melhor ou pior que Mario Kart World, mas é diferente o bastante para ter seu espaço. E ainda traz consigo o poder do fan service que a premissa multidimensional carrega — com muitos collabs já programados para os próximos meses, incluindo Bob Esponja, Mega Man, Minecraft, e muito mais.

Independente de qual é o melhor jogo, uma coisa é certa: se você gosta de velocidade, pistas malucas e corridas caóticas (e quem não gosta?) Sonic Racing CrossWorlds é um prato cheio.

Sonic Racing: CrossWorlds está disponível para PC, PS4, PS5, Switch, XOne e XSeries. No Switch 2, o game chega mais para o final do ano. O jogo possui menus e legendas em PT-BR.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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