Análise Arkade: surfar pelas dunas é a melhor parte do estiloso Star Overdrive

22 de junho de 2025

Lançado originalmente para o Nintendo Switch em meados de abril, o estiloso Star Overdrive chegou recentemente a mais plataformas. Não deixei o título escapar desta vez, e agora te conto o que achei da minha experiência com ele!

Desenvolvido pela Caracal Games e publicado pela Dear Villagers, Star Overdrive combina mecânicas de “surf na areia”, com puzzles, um bocado de crafting e combate em um enorme planeta alienígena. Mas, vamos por partes, começando por sua (econômica e fragmentada) história.

Os mistérios de Cebete

Em Star Overdrive, assumimos o controle de um jovem chamado Bios que chega a um planeta misterioso e (teoricamente) abandonado chamado Cebete, buscando uma mensagem de socorro enviada por sua namorada.

Guiado por fitas cassete (que funcionam como os tradicionais audiologs e aprofundam um pouco a trama), e munido de um estiloso hoverboard e uma keytar — aquela mistura de teclado com guitarra, bem típico dos anos 1980, sabe? –, o rapaz vai desbravar a imensidão desértica de Cebete, interagindo com estranhas construções abandonadas, coletando recursos e enfrentando criaturas alienígenas.

Não é assim o plot mais criativo, mas funciona como pontapé inicial de nossa jornada por Cebete. A narrativa, super minimalista, é fragmentada em diversos audiologs de tom melancólico que estão espalhados por diversos cantos do planeta e levantam até questões sobre as estruturas e estudos que eram realizados ali.

Star Overdrive tem uma estrutura bem aberta num estilo meio Zelda Breath of the Wild — ou talvez o indie Haven seja uma referência mais exata, até em termos de gameplay — mas se apoia demais na premissa de que o jogador precisa querer explorar mais, descobrir mais, para progredir. Sem este ímpeto, a experiência pode acabar sendo meio frustrante para quem esperava algo mais guiado e linear.

Surfando nas dunas

O grande destaque de Star Overdrive é sua mobilidade. O hoverboard nos permite surfar em alta velocidade pelas planícies desérticas de Cebete, e há um sistema de manobras aéreas que dá um boost temporário de velocidade, e torna o ato de explorar deliciosamente rápido e satisfatório.

Pense no surf na areia do clássico Journey, com um pouco de Haven e uma pitada (bem casual) de Tony Hawk’s Pro Skater. É mais ou menos isso, mas com crafting e temática sci-fi. A sensação de velocidade do jogo é ótima, e o bom feedback tátil do DualSense deixa o simples ato de se locomover muito mais interessante.

O jogo sabe que acertou a mão na mobilidade, e explora isso ao máximo, com direito a missões de corrida, muitas rampas, portões que aumentam a velocidade e estruturas que desafiam a gravidade. Confira abaixo um trecho de uma missão de corrida para entender o feeling de como o hoverboard funciona:

Aprimorando a prancha

Enquanto estamos na areia — que é a superfície base do planeta, tudo vai muito bem, obrigado. Porém, o jogo também inclui outros tipos de terrenos, como água e metal, por exemplo. Para surfar sobre eles, vamos precisar aprimorar o hoverboard, misturando substâncias craftadas em um “balaio tecnológico” para criar upgrades e novas peças para a prancha.

Surfar sobre a água demanda aprimoramentos na prancha

Na teoria, isso funciona melhor do que na prática. Acontece que há diversos tipos de materiais craftáveis espalhados pelo mundo, mas os mais importantes são bem raros. Além disso, parece haver um índice de aleatoriedade no sistema de customização do hoverboard que ou o jogo não explicou direito, ou é simplesmente aleatório, mesmo.

Sigo sem entender direito como funcionam os upgrades…

Pessoalmente, eu preferia que Star Overdrive simplesmente não tivesse crafting, e os upgrades da prancha pudessem ser encontrados ou modificados conforme a campanha exigisse. Sinto que o jogo acerta muito na fluidez do surf, mas invariavelmente impede o jogador de continuar surfando com um sistema burocrático e confuso de aprimoramentos.

Dungeons, puzzles e combate

Explorando Cebete, vamos encontrar construções misteriosas, que são ativadas pelo núcleo gravitacional do nosso hoverboard. Ao adentrá-las, vamos encontrar dungeons focadas em puzzles que tem muito em comum com os shrines de Zelda Breath of the Wild. Com nossa prancha desabilitada, aqui o foco passa a ser entender o cenário e o que o jogo espera que façamos para progredir.

É possível, por exemplo, utilizar a keytar para mover e reposionar objetos pelo cenário. Nestas dungeons, vamos precisar alinhar feixes de laser, brincar com magnetismo, gravidade, e muito mais. A variedade dessas mecânicas enriquece a experiência, ainda que, algumas vezes, falte clareza no objetivo ou mesmo precisão nos controles.

O combate, por outro lado, é o ponto mais fraco do game. Com ataques simples e combos sem muito impacto, as batalhas são formulaicas e sem graça. A ausência de uma trava de mira, ou mesmo de uma maior variedade de inimigos, torna os confrontos bagunçados e repetitivos.

Além dos inimigos comuns, nossa interferência naquele mundo vai despertar criaturas enormes que são os chefões do jogo. Estes monstrengos rendem batalhas bastante cinemáticas e visualmente interessantes, mas que também não escapam das mecânicas capengas de combate.

Audiovisual

Indo por um caminho muito mais estilizado do que realista, Star Overdrive é um jogo muito bem resolvido visualmente. O jogo traz uma estética cel-shaded, com uma paleta de tons pastel que cria um contraste interessante entre o clima árido daquele mundo com os resquícios de tecnologia ancestral que ainda existem ali.

O jogo possui animações interessantes no que diz respeito ao surf e às manobras, mas peca nas animações de combate. O character design é interessante, ainda que não particularmente criativo. Experimentei o jogo no PS5, que roda o jogo suave e faz um bom uso do DualSense por meio de vibrações hápticas e barulhinhos que saem do alto-falante do controle.

A trilha sonora se destaca: trazendo sintetizadores, guitarras e batidas eletrônicas que carregam a nostalgia e o clima dos anos 1980. O game ainda tem uma dúzia de músicas autorais cantadas, que se apresentam na forma de fitas-cassete colecionáveis.

Impossível não associar essa vibe “sci-fi musical radical anos 80” com os Guardiões da Galáxia do cinema, mas o jogo não tenta se apropriar da estética ou do humor dos filmes da Marvel. É mais uma questão de vibe e nostalgia, mesmo.

Conclusão

Star Overdrive é um jogo de contrastes. Por uma lado, ele empolga quando oferece a sensação de liberdade e velocidade do hoverboard. Por outro, tropeça ao trazer um sistema arbitrário e confuso de upgrades para a prancha. De mesmo modo, as dungeons até são legais e criativas, mas o combate é obtuso e sem graça.

A sensação de velocidade do jogo é incrível

Eu realmente gostaria que Star Overdrive se focasse no que ele tem de melhor: o ato de surfar velozmente — saltando e fazendo manobras — pela imensidão de um planeta alienígena. Porém, o jogo traz outros elementos, como crafting e combate, que simplesmente não são tão interessantes ou divertidos.

Não existe essa versão de Star Overdrive sem craftting ou combate (o que acho uma pena). Para explorar o que o jogo faz bem, sempre haverá o atrito entediante das partes chatas. Venha com isso em mente, caso queira dar uma chance para o game. Posso garantir que o surf em alta velocidade vale a pena.

Star Overdrive está disponível para PC, Playstation 5 (versão analisada), Xbox Series e Nintendo Switch.

Rodrigo Pscheidt

Jornalista, baterista, gamer, trilheiro e fotógrafo digital (não necessariamente nesta ordem). Apaixonado por videogames desde os tempos do Atari 2600.

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