Análise Arkade: System Shock 2: 25th Anniversary Remaster

4 de setembro de 2025

System Shock 2, um dos mais icônicos e importantes FPS da história, está de volta com um remaster em comemoração aos 25 anos de seu lançamento! E se você, assim como eu sempre ouviu falar do game mas nunca havia jogado, está certamente é a melhor hora para isso! Venha então conferir nossa análise completa do game!

O FPS que mudou tudo

O primeiro System Shock já havia sido um game bastante diferente em sua época, sendo lançado em 1994 para o MS-DOS, numa época em que games para PC ainda “engatinhavam” em termos de sucesso alcançado, apesar de Wolfenstein 3D e Doom já existirem. Em 1999, porém, ano em que System Shock 2 foi lançado, a coisa já era diferente. Computadores já eram mais acessíveis, gráficos em 3D já não eram coisa do futuro e o mundo começava a explorar games que ofereciam mais do que puro gameplay.

System Shock 2 é um game que redefiniu os FPS, assim como Doom definiu o gênero. Enquanto o segundo estabeleceu as bases, o primeiro adicionou elementos de RPG, terror e uma história complexa e bastante violenta, nos apresentando a versão definitiva da inteligência artificial S.H.O.D.A.N., cujo rosto é conhecido por qualquer um hoje em dia, mesmo que nunca sequer tenham ouvido falar em System Shock 2.

A Nightdive Studios, que criou o excelente remake do primeiro System Shock e atualmente (e felizmente) é a proprietária da IP, tinha em suas mãos uma tarefa complicada: Trazer System Shock 2 de volta. Esse remaster estava em produção desde 2019, quando ainda se chamava Enhanced Edition. Os anos foram passando e o projeto foi renomeado para System Shock 2: 25th Anniversary Remaster, sendo lançado primeiro para PCs e finalmente, pela primeira vez na história, sendo lançado para consoles.

O remaster mantém tudo o que o game original tinha, mas recria seu visual de forma muito bem feita, mas sem fugir do estilo original. Também adiciona melhorias no HUD, gráficos e texturas, novas vozes para alguns personagens e, o mais legal de tudo, inclusão de mods criados pela comunidade ao longo dos anos, que mantiveram o game original atualizado! Tudo isso é contido num pacote que conta ainda com resolução 4K e suporte para telas widescreen, multiplayer co-op para até 4 jogadores, contando com Crossplay, a adição do modo “Vault”, contendo artes conceituais, documentos de produção, conteúdos cortados e até entrevistas com desenvolvedores, além de contar com várias melhorias e adaptações de controles, principalmente no port do game para consoles.

Esta análise está sendo escrita com base na versão de Playstation 5 do game. É importante levar isso em conta pois System Shock 2 é 100% um game de PC, criado para ser jogado com mouse e teclado. Assim, trazer o game para os joysticks merece uma análise minuciosa, que abordarei mais adiante. A conclusão dessa primeira parte do review então é: A Nightdive conseguiu, e System Shock 2: 25th Anniversary Remaster é incrível.

A guerra entre a Carne e a Máquina

System Shock 2 se passa 42 anos após os eventos do primeiro game, em que SHODAN é derrotada pelo hacker sem nome que controlamos nesse primeiro capítulo. A história agora se passa uma gigantesca espaçonave Von Braun, um verdadeiro milagre tecnológico graças a sua velocidade Faster Than Light, ou FTL (Mais rápido que a luz).

Aqui, controlamos um agente de segurança da Von Braun, após passar 4 anos em treinamento até ser alocado na tripulação da nave. Porém, pouco tempo após chegar lá, ele é posto em criostase após receber diversos implantes cibernéticos. E um dia, ele é despertado de seu sono sem nem mesmo se lembrar porque estava dormindo, e imediatamente é informado que a Von Braun está sendo atacada por uma estranha forma de vida parasitária que está controlando a mente dos membros da tripulação e os transformando em monstros. E não apenas isso, mas a inteligência artificial da nave, chamada Xerxes, voltou-se contra os humanos, capturando-os para serem entregues a uma estranha entidade chamada “The Many”, ou “Os muitos” em tradução livre.

Com isso, nosso personagem precisa resolver a situação, entendendo o que está acontecendo e tentando encontrar uma forma de salvar a nave e os poucos sobreviventes ainda ilesos. E logo no início, a própria entidade chamada The Many entra em contato com o protagonista, de forma telepática, revelando seus planos: A The Many é uma forma de vida com mente coletiva, cujo propósito é assimilar todo e qualquer tipo de biomassa a si própria e espalhar-se pelo universo. Com isso, ela passou a infectar os tripulantes da Von Braun, utilizando vermes parasitas saídos de ovos inspirados diretamente na franquia Alien. E, ao controlar Xerxes, a entidade obteve controle de todos os robôs e ciborgues dali, caçando toda forma de vida para assimilá-los.

Um pequeno spoiler, mas um que acaba sendo inevitável: Após sobreviver a vários dos diferentes andares da Von Braun e enfrentar os diferentes tipos de Anelids, o nome da forma de vida alienígena gerada pela The Many, que aparecem como aranhas gigantes e vermes rastejantes, e enfrentar híbridos – humanos infectados por esses vermes, com seus torsos estourados e os vermes saindo de suas caixas torácicas e prendendo-se a suas cabeças, além de robôs de combate e as bizarras ciborgues faxineiras, com corpos robóticos e uma terrível face humana com pele arrancada, o protagonista acaba recebendo a ajuda da mais improvável de todas as aliadas: A Própria SHODAN!

SHODAN, a inteligência artificial que passou a considerar a si própria como uma deusa, que vê a humanidade como insetos cujo único propósito é serem usados por ela para sua ascensão e eventual retorno à Terra, acaba se tornando sua principal aliada, pois ela deseja exterminar a The Many. Por outro lado, a The Many conhece SHODAN e quer destruí-la. Assim, o jogador acaba sendo colocado no meio de uma guerra entre carne e máquina, que está acontecendo diante de seus próprios olhos dentro da Von Braun. E nenhum dos lados planeja deixar o protagonista sair ileso desse confronto.

A mistura de FPS, RPG e terror que redefiniu os games

Hoje pode até ser comum, mas lá em 1999 a mistura de FPS e RPG era algo incrivelmente inovador. System Shock 2 possui o gameplay padrão de qualquer FPS. Os controles do seu personagem são bem básicos: Andar, atirar, recarregar, agachar e trocar de arma. O game ainda contém um recurso de inclinar seu personagem para os lados, para frente e para trás, permanecendo imóvel, mas ajudando muito na hora de eliminar inimigos ou torretas usando paredes como cobertura.

O diferencial está na evolução do personagem. Há 4 diferentes categorias de stats que podem ser melhoradas: Character, Weapon, Psyonich e Tech, cada uma dessas categorias possuem múltiplos stats que melhoram o personagem. Character possui melhoria de força, velocidade e poder psiônico, por exemplo. Weapon melhora o uso dos diferentes tipos de arma: padrão, pesada, energia, exótica e psiônica. Psyonich desbloqueia diferentes habilidades psiônicas que o jogador pode usar, falarei mais dessa categoria adiante. E Tech melhora diferentes habilidades úteis como hackear, modificar e reparar armas, pesquisar itens que encontrar e etc.

Com isso, temos muitos recursos para melhorar o personagem, permitindo que o jogador evolua o protagonista de várias formas diferentes, realmente fazendo diferença a forma como você atribuir os módulos cibernéticos, os itens usados para evoluir o personagem. No início leva tempo até você conseguir evoluir, pois só pode fazer isso em terminais específicos encontrados nos mapas, além de precisar ter a quantidade de módulos necessárias. Mas quando você avança bem, as melhorias fazem muita diferença.

As habilidades psiônicas, principalmente, são o grande diferencial do game. Se você quiser, pode jogar o game inteiro, do começo ao fim, sem usá-las. Ou pode focar inteiramente nelas desde o começo e quase não usar armas de fogo. Tudo depende do seu gerenciamento de recursos e evolução de personagem, pois habilidades psiônicas gastam uma barra dedicada, basicamente uma barra de MP, que pode ser recuperada usando injeções ou itens como comidas e bebidas (assim como para recuperar vida).

Entre as habilidades psiônicas temos um tiro de gelo que causa um bom dano, poder puxar itens distantes até você, regenerar vida, aumentar velocidade, roubar a vida de inimigos, criar uma aura que causa dano de fogo e muito mais! Em minha jogatina explorei as habilidades psiônicas somente até o nível 2, e há muito mais delas se você investir seus módulos cibernéticos!

Para um game de 1999 é de se imaginar que essa mistura de RPG e FPS seja algo mais superficial, mas não. Os dois estilos se fundem de forma incrível aqui, de uma forma que funciona tão organicamente que depois de algumas horas você até esquece que são dois gêneros distintos misturados numa coisa só.

Um remaster muito competente, mas que definitivamente brilha mais forte nos PCs

Visualmente, System Shock 2: 25th Anniversary Remaster tem cara de um game de 1999. Mas o interessante é ver que essa versão remasterizada é visualmente muito melhor que o game original. Vivemos hoje em 2025, e notar a diferença entre o visual remasterizado e o visual novo mostra como, pelo menos em meu caso, eu estou velho e como eu enxergo até hoje os gráficos de antigamente como sendo melhores do que realmente eram.

Chamarei isso de “miopia nostálgica”. Não sei se alguém já inventou esse termo, mas se não, eu agora sou seu autor. O ponto é que, sempre que analiso um game antigo remasterizado ou portado, não critico seus gráficos pois eles eram um produto de sua época. E em sua época eram o que havia de top de linha. Isso quer dizer que eles sempre foram feios e só hoje percebemos? Em minha humilde opinião, não. Achar um visual feio ou bonito é subjetivo (ainda que haja um certo consenso social quanto a isso que é impossível negar), mas num produto temporal, para mim não é o caso… na maioria das vezes.

Apenas para dar um exemplo, acho os gráficos poligonais de Metal Gear Solid do PS1 perfeitos. E acho o primeiro Resident Evil belíssimo. Enquanto acho os gráficos poligonais de Fade to Black uma das coisas mais horrendas que já vi na vida. Apesar de gosto pessoal, é importante entender que toda obra é um produto de seu tempo, apesar de hoje games com visual retrô fugirem dessa regra, mas… criando coisas inspiradas no passado que são extremamente belas.

E é nesse ponto que quero chegar em relação a remasterização do visual de System Shock 2, pois a Nightdive criou modelos 3D totalmente novos para todos os personagens do game, itens, remodelou cenários e tudo mais, não sendo este um remaster que simplesmente faz upscale de texturas. E mesmo recriando muitos dos elementos gráficos, o game ainda tem cara de 1999. E isso é algo verdadeiramente incrível! Só compare abaixo a diferencia visual da Cyborg Midwife no original de 1999 e no remaster de 2025:

(Fonte: Reddit)

Já o gameplay, mesmo jogando no controle, fica bem visível que foi projetado para o mouse e teclado. Controlar seu personagem é bem simples, ainda que pular muitas vezes seja algo difícil de fazer, pois você precisa de momentum para pular e as vezes o botão de pulo não registra o comando. E, ao abrir o menu é que vemos como o game foi feito para mouse e teclado.

Ao abrir o menu, o game não para, ainda podemos controlar o protagonista. Mas o menu é dividido em vários submenus diferentes, com o inventário no topo e botões para abrir o mapa, seu log de mensagens, lista de poderes psiônicos e os status do personagem na parte de baixo da tela. Nos PCs você interage com tudo isso usando o mouse. Nos controles, você precisa navegar entre os menus usando os botões direcionais ou as alavancas L2/LT, R2/RT, o que é um pouco contra intuitivo. Principalmente se você precisar abrir o menu durante uma batalha, aí as coisas ficam bem complicadas de navegar seu inventário para pegar algum item de cura ou arma específica. Nos PCs é possível configurar atalhos no teclado para facilitar as coisas, mas infelizmente nos consoles não.

Há é claro dois tipos de atalhos: Para armas e para poderes psiônicos, mas esses são os únicos atalhos disponíveis se você estiver jogando em um console ou usando controles em seu PC.

A parte sonora manteve-se a mesma, apenas com a adição de novas linhas de voz para personagens secundários e avisos eletrônicos emitidos pelos cenários. O grande destaque vai para as vozes da The Many e de SHODAN. The Many fala com uma voz masculina e uma feminina que oscilam entre si de forma verdadeiramente assustadora. E SHODAN possui sua incrível voz, com todos os seus glitches de áudio e variações de tonalidade, sempre com desdém contra o protagonista.

A trilha sonora do game é boa, mas inconstante. As vezes ela toca, as vezes não. Inicialmente achei que pudesse ser algum glitch, mas trata-se de um recurso do game, fazendo áreas cujo propósito é serem assustadoras ficarem em silêncio e áreas onda há muita ação conterem músicas estilo techno bem agitadas.

Infelizmente o game não conta com localização em nosso idioma, nem mesmo em seus menus e legendas.

Conclusão

Em minha análise de System Shock Remake eu comentei como a série me intimidava no passado. Eu conhecia o rosto de SHODAN e sabia que se tratava de um FPS, mas o status cult da série, principalmente de System Shock 2, aliado com seu mapa gigantesco e estrutura misturando elementos de RPG eram algo que meu eu jovem não conseguia processar direito.

Trata-se simplesmente daquele velho caso em que você tem que jogar para entender. Mas mesmo 25 anos depois, System Shock 2 ainda impressiona muito. Muito mesmo! O game é difícil, é desafiador, exige que o jogador preste atenção a seus arredores e leia/ouça os logs que encontrar, possui backtracking e vai ficando progressivamente mais e mais difícil conforme você avança.

System Shock 2 não é somente um produto de sua era, é um game realmente atemporal. Mesmo que você nunca tenha ouvido falar na série, com certeza já viu o rosto de SHODAN ao menos uma vez. Esse é um game que não se prendeu às limitações de sua época e criou uma experiência que verdadeiramente desafiava os padrões. E não é a toa que esse game influenciou direta e indiretamente milhares de games que hoje sequer temos noção que talvez não fossem como são se System Shock 2 nunca tivesse existido.

Se você é alguém que, como eu era, só ouvia falar de System Shock mas não fazia ideia do que se tratava, então não há melhor momento para dar uma chance à série! E System Shock 2: 25th Anniversary Remaster nos traz a mesma experiência de 1999, mas com uma roupagem nova que ainda sim parece saída diretamente do final do século 20!

System Shock 2: 25th Anniversary Remaster foi lançado inicialmente no dia 26 de junho para PCs e posteriormente no dia 10 de julho para Playstation 4 e 5, Xbox One e Series X/S, e Nintendo Switch.

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Renan do Prado

Amante de Metal Gear, platinador de Soulsborne e exímio jogador online (quando o lag não atrapalha).

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