Análise Arkade: Tormented Souls II é um Survival Horror como não se faz mais

16 de dezembro de 2025

Tormented Souls II, feio pelo estúdio chileno Dual Effect Games, é um game que não só presta homenagem aos primórdios do Survival Horror. Mas o faz direito, de uma forma muito poderosa e imersiva! Vamos então conversar um pouco sobre o game e fazer uma viagem ao passado. Especificamente para o final dos anos 90 e início dos anos 2000!

Um Survival Horror que me transportou ao passado

Tormented Souls II é um game que me fez relembrar minha primeira interação com Survivor Horror. Meu primeiro game do gênero foi Resident Evil 3: Nemesis, e eu entrei no game sem saber absolutamente nada. Tormented Souls II reviveu isso para mim pois entrei no game sem nunca ter jogado seu antecessor (E eu tenho o game, só não tive mesmo tempo para jogá-lo).

Assim, pude reviver a experiência de entrar num mundo de terror sem ter a mínima ideia do que está acontecendo, e ter uma experiência incrível mesmo assim! E isso é algo que infelizmente não acontece mais com muito frequencia!

O game acompanha Caroline Walker, uma jovem canadense que viajou ao Chile com sua irmã Anna para visitarem um convento na Villa Hess, um lugar que aparentemente pode ajudar Anna a se livrar de estranhos poderes, em que ela desenha coisas que afetam a realidade a seu redor. Porém, não demora nada até que a verdade sobre o convento venha a tona, pois sua líder, a Mãe Lucia, atraiu as irmãs para o local para usar Anna em seus terríveis rituais para tentar trazer ao mundo um deus cruel e obscuro.

E assim, entramos no game sem saber para onde ir, explorando diversos locais e resolvendo vários puzzles num Survival Horror genuinamente old school, mas que adiciona elementos de puzzle em praticamente todos os seus aspectos, algo que tornou a experiência incrível para mim!

Câmeras fixas, munição limitada, puzzles e jump scares que realmente funcionam

Tormented Souls II tem tudo o que eu adoro nos Survival Horrors do passado: Câmeras fixas, jogabilidade de tanque (e analógica), munições escassas (ainda que o inventário seja bem generoso), puzzles em todo lugar, desde simples até alguns genuinamente complexos. E principalmente uma atmosfera incrivelmente bem feita, com jump scares que realmente funcionam!

O lado ruim de ser fã de games de terror há mais de 20 anos é que chega um ponto em que ficamos resistentes, senão imunes, ao terror que nos é apresentado. Somado a isso, a fórmula de terror, ainda que pareça bastante óbvia, é facilmente quebrada quando um game “tenta demais”. Não é só o visual, não é só o gameplay, não é só a atmosfera. Ainda que a atmosfera seja o ponto principal, as vezes até compensando falhas em outros departamentos, a experiência não é completa se não gerar tensão e imersão no jogador.

Tormented Souls II, felizmente, acerta no conjunto geral da obra. O game nos coloca num mundo confinado e claustrofóbico, em que precisamos ir voltar e nos acostumar com onde estamos. Em que coletamos um item em uma sala, combinamos com outro que achamos em um outro lugar distante e usamos num terceiro lugar. Sua progressão e backtracking estão na medida certa!

A quantidade de puzzles no game é imensa, o que me alegra muito ao jogar! Um Survival Horror não é somente ter três balas no pente de uma pistola e cinco monstros a sua frente. É fazer o jogador ficar nervoso, interromper seus passos para abrir mais uma vez o mapa e ver para onde ir. E fazer o jogar explorar várias vezes o mesmo corredor que ele sabe que a qualquer momento vai ter um monstro esperando escondido. E é assustá-lo genuinamente quando ele não espera.

O game conseguiu me assustar muitas vezes ao me pegar desprevenido e ao saber usar os cenários a seu favor, com inimigos surgindo de corredores escuros sem que eu pudesse velos, ser atacado de surpresa ao virar um corredor e principalmente encontrando inimigos novos em lugar que até então eram seguros! Tudo isso, fora a incrível atmosfera de desolação da Vila Hess, torna a experiência incrível.

Especialmente os cenários, que contam uma história. Em Resident Evil 2 e principalmente Resident Evil 3 eu adoro andar pelas ruas de Raccoon City pois é possível ver o terror do contágio do T-Virus. A cidade completamente deserta, destruída, com carros abandonados, janelas quebradas, fogo e destruição. Tormented Souls II também possui isso. Ao “vencermos” a primeira área do game, chegamos à cidade e podemos ver o terror que se assolou no local, completamente abandonado, com indícios de pânico e terror da população local, corpos espalhados por todo lado e, é claro, notas escritas que vão construindo toda a lore do local.

O game tem um efeito poderoso em ser um Survival Horror Old School que genuinamente funciona. As influências do game, que são bastante óbvias – Resident Evil e Silent Hill, se mesclam num enredo completamente absurdo e irreal, mas que mesmo em suas maiores bizarrices faz sentido, pois toda a sua construção é coesa. Assim a imersão funciona, pois torna o absurdo em crível.

Gameplay Old School que torna os próprios menus em puzzles

Assim como nos clássicos, Tormented Souls II possui câmeras fixas. Bem ao estilo de Resident Evil: Doce Veronica e do primeiro Silent Hill, com trechos em que a câmera vai seguindo Caroline enquanto ela explora. E com essa perspectiva, temos a boa e velha jogabilidade de tanque, mas também temos controles modernizados via analógico.

Infelizmente o game conta com o mesmo problema que todos os outros games de câmera fixa com controles modernos: quando a câmera muda de posição, os controles de movimento ficam completamente bagunçados. Felizmente esse problema não é tão ruim aqui, mas ainda assim está presente.

Um recurso bem interessante é que a escuridão é um inimigo. Caroline não pode jamais ficar no escuro por tempo demais, senão a escuridão a matará. Assim, é preciso sempre ter uma fonte de luz disponível. Primeiramente com o isqueiro e posteriormente com uma lanterna. Usando o isqueiro não é possível atacar, assim, o jogador precisa se posicionar bem em locais com um mínimo de luz para poder atacar.

Algo bem interessante no game é o inventário, que é totalmente interativo. Como padrão no gênero, podemos combinar itens e interagir com eles para encontrar outros itens, por exemplo uma chave dentro de um livro, e precisamos manualmente manipular esses objetos. E digo manualmente até mesmo para interagir! Não basta só girar o objeto até achar algo, apertar um botão e algo acontece, você deve mover um cursor até o objeto e clicar em botões e interagir fisicamente!

O mesmo para usar itens em painéis ou elementos de cenário, você deve clicar no item e arrastá-lo até o local em que será usado, até mesmo ao usar chaves para destrancar portas! No começo isso parece um tanto entediante, mas eu me acostumei rápido e passei a gostar desse estilo, ainda que mover o cursor usando um controle é bem menos fácil do que usar um mouse.

Ah, e o game ainda só pode ser salvo manualmente! Para isso, em cada Save Room há um gravador de voz em fita. E as fitas de gravação sempre são encontradas nas save rooms. Para salvar, devemos pegar o rolo de fita, manualmente colocar no gravador e manualmente apertar o botão de gravar!

Audiovisual

Tormented Souls II possui um visual muito bem feito. Os personagens possuem modelos simples, o que é bem visível durante as cutscenes, mas os cenários são magníficos. O convento em que iniciamos o game é tão cheio de detalhes que impressiona. A arquitetura do local, os detalhes nas estruturas de madeira, colunas, portas e fechaduras, tudo é tão detalhado que realmente impressiona.

E, pra deixar tudo ainda melhor, o game já inicia com a icônica tela “This game contains scenes of extreme violence and gore”, e quando essa frase aparece, normalmente vem coisa boa! E o game realmente não decepciona no gore e violência. Seus monstros são grotescos, a maioria sendo criaturas biomecânicas fundindo corpos de humanos com engrenagens e pistões, criando monstros bastante repulsivos. Os cenários são cheios de resquícios de violência, desde sangue nas paredes e chão até cadáveres putrefatos e até mesmo tripas espalhadas e esticadas no chão.

A trilha sonora é excelente, misturando momentos de silêncio e sons ambientes, normalmente em áreas abertas, com músicas de fundo que criam uma atmosfera progressivamente mais e mais assustadora, até as músicas verdadeiramente intensas ao enfrentarmos monstros ou explorarmos o “outro lado”, num outro mundo bem ao estilo de Silent Hill, povoado apenas por monstros, grades, ferrugem e decaimento.

O game conta com localização em português brasileiro em seus menus e legendas, e o trabalho de localização é realmente excelente!

Conclusão

Tormented Souls II é um Survival Horror excelente por si só. Mas seu apelo nostálgico torna toda a experiência muito melhor. O primeiro game já havia chamado muita atenção e sido bastante elogiado pelo público, então sua sequência tinha tinha um grande desafio a cumprir. E pelo o que pude jogar, acredito que conseguiu.

Apenas o fato de eu poder jogar um game de terror com câmeras fixas já me deixou feliz logo de cara, mas todo o conjunto da obra, além do game genuinamente me causar sustos, fez desse um dos melhores games de terror que joguei este ano! E se você está na mesma faixa etária que eu (eu tenho 35 anos), ou se é mais jovem mais curte games de terror old school, então Tormented Souls II certamente é um game que deve ser recomendado! E após jogar esse game, tenho a obrigação de jogar seu antecessor. E logo!

Tormented Souls II foi lançado no dia 23 de outubro com versões para PC, Playstation 5 e Xbox Series X/S.

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Renan do Prado

Amante de Metal Gear, platinador de Soulsborne e exímio jogador online (quando o lag não atrapalha).

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