Análise Arkade: Wuchang: Fallen Feathers é um Souls-like tradicional, mas com originalidade

6 de outubro de 2025

Wuchang: Fallen Feathers é mais um Souls-like que tira inspiração da mitologia chinesa, assim como games como Wo Long: Fallen Dynasty. Mas esse game adiciona alguns recursos interessantes que conferem bastante originalidade e um estilo levemente diferente do padrão! Vamos então conferir nossa análise do game!

O mistério da Plumagem e uma corrida contra o tempo

Wuchang: Fallen Feathers, sendo um Souls-like, tem sua história contada em pedaços. Entretanto, o game não foca no Lore e em contar sua história através de descrição de itens, apesar desse tipo de narrativa estar sim presente. Esse game tem uma história mais direta, diretamente pelos NPCs em seus diálogos, mas ainda deixando nas mãos do jogador ir atrás das informações.

O game acompanha a jovem Bai Wuchang, uma mulher que de repente desperta dentro de um templo escondido numa caverna, após ter um estranho sonho com uma criatura monstruosa. Ela acorda ouvindo a voz de sua irmã, chamando por ela. Porém, Wuchang perdeu suas memórias, sem saber onde está, porquê está ali e o que deve fazer. E ao acordar, ela nota algo estranho em seu corpo, seu braço esquerdo está coberto de penas, que estão nascendo de sua própria pele.

Não demora muito até ela encontrar outras pessoas e começar a entender o que está acontecendo. Ela está nas terras de Shu, um local que foi atingido por uma terrível maldição: A Plumagem. Trata-se de uma doença que se manifesta primeiro ao fazer crescer penas no corpo de um humano. Com o tempo, essa pessoa perde as memórias, torna-se violenta e começa a sofrer estranhas mutações, que terminam com ela se transformando num verdadeiro monstro sanguinário.

Porém, o corpo de Wuchang reage de forma diferente a essa doença. Ela consegue absorver Mercúrio Vermelho, a substância que acredita-se ser a causadora da Plumagem, e tornar-se mais forte, sem perder sua humanidade. Com isso, ela embarca em uma jornada pelas terras de Shu para recuperar a própria memória, buscar sua irmã e ajudar aqueles que puder no caminho, enquanto interage diretamente com várias figuras histórias e folclóricas da China.

Estranhamente, após seu lançamento, o game recebeu uma atualização que muda drasticamente sua história. Muitas das figuras históricas reais que encontramos são chefões que devemos enfrentar. Na versão original no game, ao derrotá-las, essas figuras morriam na história. Aparentemente, por conta de descontentamento do público chinês, isso foi mudado. E agora essas figuras, ao serem derrotadas, permanecem vivas, o que altera os rumos das histórias de certos personagens, muitos buscando vingança contra esses personagens.

Wuchang: Fallen Feathers possui uma história interessante e uma construção de mundo bem feita. Mas com essa atualização, muitos fãs acabaram ficando desapontados. E essa atualização também alterou o nível de dificuldade do game, um ponto que detalharei mais adiante.

Um Souls-like com recursos interessantes, mas evolução de personagem limitada

Wuchang: Fallen Feathers se diferencia na estrutura de funcionamento de seu personagem e sua evolução. Mecanicamente, temos o básico aqui: Andar, correr, esquivar e atacar. Porém, ações como defesa e aparar acabam sendo bloqueado pelo tipo de arma que você usa e como evolui a protagonista.

O fato da defesa ser bloqueada não chega a ser algo estranho. Bloodborne, um dos melhores Souls-like de todos (senão O melhor), tem seu gameplay centrado na velocidade. Você não defende ataques, desvia deles. É possível se defender, mas apenas se você encontrar armas específicas que permitem isso. Mas a falta de um botão de defesa desde o princípio não é problema algum. E aqui também não é. Mas bloquear o recurso de aparar especificamente na evolução do personagem é algo que não fui convencido de que funciona.

Em Dark Souls e Elden Ring para aparar você precisa ter um escudo que possua essa habilidade. Escudos pesados normalmente não possuem habilidades ou podem ser usados para dar um empurrão. E escudos menores normalmente possuem a habilidade de aparar. Assim, aparar é algo opcional, afinal é uma técnica de alto risco e alta recompensa.

Em Wuchang, aparagem só é habilidade se você desbloqueá-la na árvore de evolução/habilidades da protagonista, disposta em nodos interconectados. Assim, ao acumular mercúrio vermelho (as almas desse game), você não evolui Wuchang focando em atributos que deseja, como força, destreza, vitalidade e etc. Você desbloqueia nodos, com as árvores de nodos divididos por tipo de arma. Por exemplo, há o caminho da espalda longa, dos machados, das espadas duplas, lanças e etc. E dentro desses caminhos há os nodos individuais para os stats da personagem. Assim, se você quer focar em evoluir força e vigor, só poderá fazê-lo ao alcançar um nodo que evolua esse stat.

O problema disso é que as evoluções disponíveis em cada caminho são diferentes, o que, em minha jogatina, prejudicou minha evolução ao não permitir que eu melhorasse Wuchang nos pontos em que ela estava mais fraca. Eu escolhi evoluir a espada longa e a lança, pois eram as armas que eu mais usava. Com isso, eu encontrei muitos poucos nodos de evolução de Vigor, pelo menos nas horas iniciais do game, o que atrapalhou muito na hora de enfrentar chefões, pois eu só tinha estamina ou para atacar ou para desviar, e não para as duas coisas ao mesmo tempo.

E principalmente ao chegar em um chefão importante da história, que é muito rápido e agressivo. Ao chegar nesse chefão, o game me mostrou uma mensagem ensinado a aparar ataques, uma habilidade que, ainda que não seja essencial, teria ajudado muito nessa luta em específico. Mas eu não possuía essa habilidade pois não havia investido meu mercúrio vermelho no caminho para desbloqueá-la. Ou seja, o game me incentivava a usar essa habilidade específica na luta, mas por conta da forma que escolhi evoluir Wuchang, eu não tinha essa habilidade, e precisaria farmar muito para conseguir desbloquear esse nodo.

Nesta batalha da imagem acima, o game me incentiva a usar aparagem, mas essa habilidade precisa ser desbloqueada primeiro.

Apesar disso, o game possui mecânicas bem interessantes, especialmente relacionado ao uso de magias, buffs e um recurso chamado “Loucura”. No mundo do game, magia não é algo comum. A protagonista, Wuchang é um caso a parte, pois graças a Plumagem, ela pode usar magias obtidas de inimigos derrotados. Assim, usar magias no game não depende uma barra de MP, por exemplo, mas sim da quantidade de penas disponíveis.

Infelizmente, o desbloqueio de mais penas, que servem como slots de magia, se compararmos com RPGs de mesa, dependem da evolução da personagem. Cada magia tem um custo próprio, por exemplo 1 pena, 2, 3, etc. Basta equipá-las no menu de inventário e usá-las se você tiver penas suficientes. As penas ficam disponíveis ao usar itens e ao atacar inimigos, mas elas não duram muito tempo. Penas não gastas acabam desaparecendo após algum tempo. Assim, para usar magia, você precisa atacar, sendo mais um recurso do que uma arma em si. Dessa forma, Wuchang não permite a criação de builds voltadas inteiramente para magias, o uso de armas é primordial.

A Loucura é um recurso muito interessante, semelhante ao Discernimento de Bloodborne. Em termos de narrativa, é a forma como Wuchang reage as coisas ao seu redor. Se ela morrer demais ou matar inimigos humanos, a loucura sobe. Matar monstros e pessoas infectadas pela Plumagem diminui a loucura.

Mecanicamente, a Loucura é um recurso que aumenta o dano que você pode causar, ao mesmo tempo que aumenta o dano que você sofre. Mas, se sua loucura estiver completamente cheia e você morrer, seu demônio interior é manifestado. Assim como nos Souls-like tradicionais, ao morrer você perde seu mercúrio vermelho (mas não perde tudo, somente uma parte), que pode ser recuperada se você interagir com a poça de sangue no lugar em que você morreu. Quando sua loucura atinge o máximo e você morre, a poça de sangue é substituída por seu demônio interior.

A mulher de vestes rasgadas que aparece no início do game é seu demônio interior, se sua loucura chegar ao máximo e você morrer, ela aparece para te atacar.

Trata-se de uma NPC idêntica a Wuchang, mas com roupas diferentes e equipada com armas aleatórias. Se você derrotá-la, sua loucura é completamente limpa e você recupera todo o seu mercúrio vermelho. Se você morrer, a loucura também é zerada, mas você perde todo o seu mercúrio. O demônio interior não se manifesta durante batalhas contra chefões, assim você pode abusar do sistema de loucura para causar mais dano, apensar de ficar mais vulnerável.

Por fim, há as agulhas de acupuntura. Elas desbloqueiam alguns buffs passivos e servem para imbuir elementos a suas armas, como fogo e eletricidade, mas possuem usos limitados. Não há muito segredo aqui, você desbloqueia mais pontos de acupuntura evoluindo Wuchang e encontra agulhas normalmente ao derrotar chefões.

Isso tudo nos leva ao quesito de dificuldade, um ponto de extrema importância para um Souls-like. Em seu lançamento, Wuchang: Fallen Feathers oferecia bastante desafio e inimigos bem poderosos, inclusive inimigos comuns davam bastante trabalho. Os chefões são desafiadores, alguns são fáceis, outros são incrivelmente irritantes. Mas, após a atualização mais recente do game, seu nível de dificuldade foi drasticamente reduzido, o que não agradou muita gente que espera dificuldade ao jogar um Souls-like.

Em minha jogatina, posso dizer que achei o nível de dificuldade do game ok. Não encontrei, pelo menos nas primeiras horas, inimigos que fizessem meu sangue ferver de raiva, exceto alguns chefões que eu estava tendo muita dificuldade em enfrentar pelo fato de meu vigor estar baixo, resultado da forma como evoluí a protagonista, como mencionado anteriormente. O fato é que o sistema de evoluções não me permitia focar em evoluir o vigor quando eu queria, o que criou uma dificuldade artificial. Não eram os inimigos que eram difíceis, mas Wuchang estava fraca para enfrentá-los.

Audiovisual

Wuchang: Fallen Feathers é um game muito bonito. As terras e Shu se localizam em uma região montanhosa cercada de rios e florestas, sendo dividida em áreas que vão desde belos (porém destruídos) vilarejos montanhosos, estradas em meio a neve, cavernas escuras e amaldiçoadas e, é claro, pântanos envenenados, pois um game não pode se chamar um Souls-like se não tiver pelo menos um pântano.

Os personagens são muito bem modelados, especialmente Wuchang e as personagens femininas que são bem… detalhadamente modeladas… se é que você me entende. Imagine algo estilo Stellar Blade, mas ao invés de roupas futuristas, temos trajes inspirados na antiguidade (além de roupas mínimas e bastante reveladoras).

Como é de se esperar, o design dos chefões é muito legal. Seus monstros são incrivelmente grotescos, contendo, por exemplo, humanos transformados em híbridos de pássaros com bicos enormes crescendo de dentro de suas gargantas e literalmente rasgando a pele do rosto para sair, humanos em armaduras muito estilosas e outras aberrações que são até difíceis de descrever.

A trilha sonora do game é inteiramente composta por músicas ao estilo de filmes chineses de época, alternando entre músicas ambientes calmas e belas e temas de puro terror ao enfrentar os chefões do game. Mas, assim como é normal nesse subgênero de RPGs, normalmente as músicas só tocam durante batalhas contra chefões, com tudo permanecendo em som ambiente a maior parte do tempo.

O game conta com localização em português brasileiro em seus menus e legendas.

Conclusão

Wuchang: Fallen Feathers é um Souls-like que muda um pouco a fórmula de formas bem interessantes. Especialmente com o medidor de Loucura, que oferece vantagens e desvantagens ao jogador, com o mesmo podendo inclusive usar itens para aumentar a loucura, se for ousado o suficiente. Porém, seu estilo de evolução de personagens, ainda que funcional, é um tanto engessado. Apesar de permitir que você foque sua evolução nos tipos de arma que mais preferir, ele bloqueia habilidades úteis atrás de suas árvores de habilidade.

Seu enredo é bem interessante, especialmente em toda a lore ao redor da Plumagem. E a aparição de figuras históricas reais, algo que não é novidade, já tendo acontecido em diversos outros games ao longo dos anos, cria aqui um mundo bastante coeso. Mas, por conta das recentes atualizações que o game recebeu, que tira o peso dos confrontos contra esses personagens, o enredo em si acaba sendo um pouco prejudicado.

Ainda assim, Wuchang: Fallen Feathers é um Souls-like bastante competente, com gameplay de alta velocidade e um mundo bastante envolvente e belo.

Wuchang: Fallen Feathers foi lançado no dia 24 de julho com versões para PC, Playstation 5 e Xbox Series X/S.

Renan do Prado

Amante de Metal Gear, platinador de Soulsborne e exímio jogador online (quando o lag não atrapalha).

Mais Matérias de Renan