Análise Arkade: O retorno nostálgico da Argonaut e de Croc: Legend of the Gobbos

Nostalgia é uma força poderosa, muitas vezes explorada de forma predatória quando se trata de games. Mas as vezes, testemunhamos verdadeiros “milagres” acontecerem. E esse é o caso da Argonaut Games, que ressurgiu 20 anos após ser fechada e trouxe de volta um de seus games mais importante, Croc: Legend of the Gobbos em uma versão remasterizada e cheia de extras!
Talvez essa não seja uma viagem nostálgica para você, mas para mim com certeza é! Vamos então conferir como essa joia do passado se saiu em sua chegada à modernidade!
Um retorno que demorou mais de duas décadas para acontecer

A menos que você tenha sido uma criança dos anos 90, provavelmente não deva ter ouvido falar de Croc: Legend of the Gobbos. E deixe-me contar a história do game, pois ela é realmente fascinante. A Argonaut, na época um estúdio que tinha um bom relacionamento com a Nintendo, tendo produzido o primeiro Star Fox e ajudado na criação do Super FX Chip, que renderizava objetos 3D no Super Nintendo, estava trabalhando num projeto muito ousado: O primeiro game de plataforma 3D já feito, utilizando o dinossauro Yoshi como protagonista.
A ideia foi apresentada para a Nintendo, que como é de se esperar em termos de proteção de suas criações, detestou o projeto, pois um estúdio externo estava criando algo com um de seus personagens sem consentimento. E como é de se esperar da Nintendo, a rejeição encerrou qualquer relacionamento que a companhia tinha com a Argonaut.

Felizmente, o estúdio não desistiu da ideia e adaptou-a para algo novo, criando Croc: Legend of the Gobbos, lançado em 1997 para PC, Playstation e Sega Saturn. Croc tornou-se rapidamente a maior criação original da história da Argonaut, vendendo bem em sua época e atingindo bastante sucesso, chegando até mesmo – no “bom” e velho estilo de concorrência de games dos anos 90 – a lançar propagandas de revistas provocando séries como Tomb Raider, Mario e até mesmo Crash Bandicoot.
Infelizmente a série Croc nunca obteve o mesmo nível de sucesso desses outros games, mas chegou a ganhar uma sequência em 1999, expandindo seu universo e gameplay. Infelizmente, esse foi o fim para a franquia principal, e Croc nunca ganhou nenhuma sequência. O game chegou a receber em 2000 e 2001 ports de seus dois primeiros games para o Game Boy Color, e em 2005 e 2006 recebeu três games exclusivos para mobile, na chamada série Croc Mobile. Mas, esses games nunca chegaram a atingir o mesmo sucesso dos originais.
Em 2004 a Argonaut Games anunciou o fechamento da empresa, que ocorreu definitivamente em 2007. Desde então, todas as suas criações ficaram “perdidas”. Mas felizmente (como explicarei melhor mais adiante na parte de extras desse remaster), seguras! E com o retorno da Argonaut Games ano passado, agora não apenas como um estúdio, mas como uma publisher, não havia escolha melhor para seu game de retorno do que um remaster de seu maior sucesso original: Croc: Legend of the Gobbos!
Do jeitinho que eu me lembro da minha infância

No comecinho dessa análise eu comentei que essa é uma viagem muito nostálgica para mim. E eu vou explicar o porquê. Lá no final de 1999 ou começo do ano 2000, não me lembro exatamente a data, mas sim que eu tinha 9 anos na época, eu estava fazendo compras com minha família e fui com meu pai na parte dos CDs do mercado em que estávamos, na época em que existiam aqueles totens com fones de ouvido para você ouvir umas músicas dos CDs mais populares da época.
Nós fomos até a ala de computadores, e meu pai viu uma revista chamada Pôster Senha com um crocodilo na capa e um CD junto. Ele me mostrou a revista e perguntou se eu queria comprar. Sem ter qualquer ideia de quem era aquele personagem, mas gostando muito dele só pela capa. Aceitei e compramos o jogo. Chegando em casa, meu pai instalou para mim no nosso computador e eu comecei a jogar. E dali em diante tudo mudou. Não só Croc: Legend of the Gobbos foi o primeiro game de PC que eu (meus pais na verdade) comprei, como foi um dos primeiros games que eu fiz 100%, ainda na infância!
E aqui está a prova disso que estou falando, pois ainda tenho essa revista, totalmente remendada com fita adesiva, que se desdobra em um pôster enorme do game, e o CD que vinha junto!

Mas, deixando minhas reminiscências nostálgicas de lado, Croc: Legend of the Gobbos é exatamente o que se espera de uma remasterização: É o mesmo game, com um visual mais refinado, melhorias de gameplay e muitos conteúdos bônus! Nada foi tirado ou modificado arbitrariamente aqui, mas suas adições são muitíssimo bem-vindas!
Croc: Legend of the Gobbos é um game muitíssimo simples, sem diálogos, com uma história bastante fácil de entender e cativante. Tudo começa quando o pequeno Croc é encontrado ainda bebê flutuando na água dentro de seu berço. Ele é salvo pelo rei dos Gobbos, pequenas criaturinhas peludas de olhos grandes. O pequeno crocodilo é adotado por sua nova família e aprende desde seus primeiros passos até a lutar como essas pequenas bolas de pelo.

Um dia, após Croc crescer (literalmente de um segundo pro outro), o terrível Barão Dante, um ser de pura maldade querendo conquistar tudo, aparece com seus lacaios Dantinis e captura os Gobbos. O rei salva Croc antes de ser capturado, enviando-o para uma jornada pelas diversas ilhas que formam os “mundos” do game para salvar seus amigos e derrotar o Barão Dante.
A premissa é simples e direto ao ponto. A partir daí, jogamos o game em progressão de fases, com cada ilha possuindo seis fases normais, duas fases de chefão e duas fases bônus. O objetivo primário das fases normais é chegar até o final e soar o gongo, que chama o passarinho Beany, que te leva de volta ao mapa e para as próximas fases. Nessas fases há mais um objetivo “opcional”, que é resgatar todos os Gobbos, sendo seis por fase. E para resgatar todos, é preciso coletar os cinco cristais coloridos, que abrem uma porta no fim de cada fase, levando a uma área especial com o último Gobbo a ser resgatado no local.

As fases de chefão são autoexplicativas, é só derrotar o chefão e seguir adiante. E as fases bônus possuem uma função especial: Todas elas abrigam uma peça de quebra-cabeça, totalizando oito peças espalhadas nas quatro ilhas. Ao coletar todas, você desbloqueia uma quinta ilha, com novas fases e um chefão secreto.
Jogar esse remaster me abria sorrisos de orelha a orelha a todo momento, pois resgatava da minha memória a experiência de jogar esse game na infância. Toda hora eu ficava “eu lembro dessa fase!” ou “eu lembro desse inimigo”, e esse remaster foi especial para mim exatamente por trazer o meu eu de 9 anos a tona para tomar o controle e simplesmente jogar por pura diversão. Aliás, e isso não é segredo, esse remaster existe para essa mesma galera, adultos na casa dos 35 anos ou mais que jogaram Croc na infância.
Tudo é bem simples, assim como os games de plataforma dos anos 90 eram. A diferença é que esse foi um dos primeiros games de plataforma 3D criados, na mesma época de Super Mario 64, mas com um gameplay, na época, bem diferente.
Uma muitíssimo bem-vinda modernização de controles
A mais marcante característica da versão original de Croc: Legend of the Gobbos (falando especificamente de mecânicas de jogo) eram seus controles de tanque. Isso tornava esse game uma experiência um pouco difícil em sua época.
A razão para isso era o timing. Super Mario 64 foi lançado em 1996, e o Nintendo 64 possuía controle analógico, motivo pelo qual esse game é conhecido por sua fluidez de movimento. Croc foi lançado em setembro de 1997, no mesmo mês de lançamento do controle Dualshock do Playstation 1. Além disso, o game foi desenvolvido tendo como base o controle direcional do Sega Saturn, o que resultou no estilo de gameplay pelo qual ficou conhecido.

Quando eu joguei o game pela primeira vez, lá entre 1999 e 2000, rapidamente me adaptei aos controles de tanque, o que não significava que eu não tinha dificuldades para jogar. Eu tinha, e muitas! O nível de precisão de movimento em certos trechos que demandam velocidade, principalmente ao pular em plataformas que caem e fazer curvas ao mesmo tempo, me fizeram levar muito tempo para terminar o game. E ainda mais para fazer 100% nele, o que eu fiz ainda criança, sendo esse um feito de que me genuinamente me orgulho!
Para o remaster felizmente tivemos a muitíssimo bem vinda adição de controles analógicos, tanto na movimentação quanto no controle da câmera, o que torna esse um remaster digno de ser criado! O remaster conta tanto com a jogabilidade atualizada quanto a original, e é claro que eu tentei jogar algumas fases do jeito que as coisas eram antigamente. E o resultado foi que eu percebi que meu eu criança era muito mais habilidoso que meu eu adulto! Algo interessante que notei, no entanto, é que jogar com controles de tanque oferecem muita precisão de movimento, enquanto que jogar usando analógico acaba gerando um pouco daquele efeito de escorregar quando corre, semelhante a outros games de plataforma.

Se o remaster não tivesse adicionado esses controles modernizados, certamente a crítica e o público o massacrariam. O que é algo bastante curioso de se pensar. Em 1997 houveram sim críticas a esse estilo de gameplay, mas o consenso geral era que Croc: Legend of the Gobbos era um game divertido. Hoje, em 2025, esse é um gameplay que pouca gente se adaptaria, ou mesmo persistiria em jogar por mais do que algumas horas.
Isso é algo bastante curioso e com potencial de levantar muitas questões interessantes: Será que nós, jogadores, perdemos habilidade com o tempo? Ou melhor dizendo, ao passo que adquirimos mais habilidade, nós perdemos a “adaptabilidade”? E em adaptabilidade eu me refiro especificamente a conseguir jogar um game antigo com limitações técnicas que hoje em dia condenariam games novos ao completo fracasso.

Tudo isso leva a uma importante questão: Será que Croc: Legend of the Gobbos passa no teste da nostalgia? Será que o game é mesmo divertido ou meu eu criança que não sabia discernir o que era bom ou ruim? Eu vou dar uma resposta no parágrafo seguinte, mas é claro que a resposta é somente minha. Nostalgia é algo diferente para todo mundo. E esse ponto em específico não é algo “mensurável”. Uma coisa é eu dizer se os gráficos são bonitos ou não (E falarei disso adiante), há uma “classificação” alcançável nesse quesito. No ponto da nostalgia, não. Sendo assim, aí vai a minha resposta, que pode ou não coincidir com sua própria opinião, caro leitor:
Croc: Legend of the Gobbos passa no teste de nostalgia? SIM! ELE PASSA! E tudo graças a adição dos controles modernizados, que enfim libertam o game de suas limitações dos anos 90 e o fazem brilhar ainda mais, especialmente para mim, que ama o game desde criança! E, para ser totalmente transparente, mesmo se o gameplay não tivesse sido atualizado, ainda assim eu adoraria esse remaster, mesmo sofrendo provavelmente 10x mais do que quando eu era criança. Mas é graças especificamente ao novo gameplay que Croc passa no teste da nostalgia, pois ele supera seu “status” de game dos anos 90 para jogadores de 30+ anos. Ele se torna um game acessível para todos, ainda mantendo seu nível de desafio, mesmo com controles novos, para aqueles que nunca jogaram o original.
Audiovisual e extras


Sendo um remaster, Croc: Legend of the Gobbos recebeu o “tratamento visual padrão”, com gráficos refeitos e suavizando os polígonos 3D. O novo visual do game foi muito bem feito, com os cenários e personagens em 3D com modelos bem mais definidos e sem retirar nada de como eles eram originalmente.
Nas texturas 2D o tratamento foi semelhante aos remasters dos games da série Mega Man, em que os pixels foram suavizados, as vezes terminando com visuais um pouco borrados, mas ainda assim, tudo aqui está muito bonito. E o melhor de tudo, você pode alternar entre o visual original e remasterizado a qualquer momento com apenas um botão! E eu usei muito esse recurso durante minha jogatina!


Algo interessante é que o visual do remaster possui três níveis diferentes: um com visual totalmente remasterizado, com algumas texturas 2D “borradas”. Um modo intermediário, com 3D novo e 2D levemente melhorado, ainda mantendo o visual pixelado. E por fim o visual original, com os polígonos “pontiagudos” do game original.
Temos toda a trilha sonora original aqui, incluindo versões remixadas das músicas do game original, o que dão vida nova a esse clássico. Inclusive, um ponto de curiosidade aqui: Na infância eu joguei a versão de PC do game, que possuía obviamente os melhores gráficos… mas não possuía trilha sonora! Eu joguei o game inteiro somente ouvindo os sons ambientes e as poucas músicas que tocavam em trechos específicos. Somente jogando esse remaster eu fui descobrir que o game tem uma trilha sonora, e uma trilha sonora bastante extensa! E não apenas isso, descobri que eu conhecia algumas músicas do game, mesmo sem saber!

Já os efeitos sonoros estão todos aqui sem qualquer alteração, desde a voz de Croc quando ataca, sofre dano e escala, os gritos de socorro dos Gobbos, as risadas dos Dantinis e os sons de passos, de cristais, e tudo mais, exatamente como eu me lembrava.
Fora isso, o game ainda conta com muitos extras! Temos a trilha sonora completa que pode ser ouvida, artes conceituais do game e muitas coisas muito legais, como documentários contando o que aconteceu após a Argonaut fechar em 2004, com Jez San, fundador do estúdio lá em 1982 revelando que, quando o estúdio fechou, ele próprio comprou os direitos de todas as suas criações. Tanto para protegê-las como para, um dia, tentar trazê-las de volta. E ele próprio conseguiu ressuscitar a Argonaut e escolheu o projeto que ele mais guardava carinho, Croc, que ele ajudou a criar, como o game que marcaria esse retorno!
Além desses documentários, há várias coisas que muitos certamente não sabiam que existiam, como comerciais japoneses, o script completo do game e até mesmo um script para um projeto que de criar um programa de TV de Croc, que acabou não indo pra frente, contando com roteiro e tudo mais!
Conclusão

Acho que ficou bem claro que a remasterização de Croc: Legend of the Gobbos foi muito especial para mim. Afinal, eu sou o público alvo desse lançamento: uma criança dos anos 90 que jogou o game e continua cativado por ele décadas depois!
A Argonaut não esconde isso em nenhum momento. Esse é um game para a galera dos anos 90. Se você jogou Croc quando criança e gostava do game, então não vejo motivo algum para não recomendá-lo a você! Dizem que a nostalgia pode ser perigosa as vezes. Bem, eu mergulhei de cabeça nela com esse game e revivi minha criança interior a cada segundo jogando!

Se você, por outro lado ou não jogou o game na época, ou é muito novo para sequer ter ouvido falar nele, saiba que, se você der uma chance para esse remaster, poderá jogar a versão que o game sempre mereceu receber. Certamente os controles de tanque poderiam te afastar num instante, e mesmo com controles atualizados, o game ainda assim é um pouquinho difícil. Mas no fim, trata-se de um genuíno pedaço dos anos 90 que foi trazido de volta e definitivamente merece ser apreciado!
A remasterização de Croc: Legend of the Gobbos foi lançada no dia 2 de abril com versões para PC, Playstation5, Xbox Series X/S e Nintendo Switch.
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