Trailer de Metro 2039: Paralelos com o temor russo de invasões como na Segunda Guerra e o atual conflito na Ucrânia

O trailer de Metro 2039, que foi apresentado recentemente, apresenta um retorno ao metrô de Moscou dominado por um regime fascista, com foco em um novo protagonista conhecido como O Estranho. As cenas que vimos no vídeo mostram visões em primeira pessoa dos conhecidos túneis escuros e destruídos, onde o jogador avança armado, enfrentando mutantes como os nosalises em ambientes úmidos e claustrofóbicos.
Criaturas com dentes afiados, peles avermelhadas e espinhos surgem em meio a névoa e sangue, reforçando o tom de sobrevivência extrema. O vídeo termina com uma arte promocional que exibe o personagem principal em traje de proteção de ar, cercado por explosões e uma cidade em ruínas, com o título Metro 2039 e a previsão de lançamento para o fim deste ano para Xbox Series X|S, PS5, PC e Steam.
O que vemos, no trailer e no histórico dos livros e games do passado, são contextos históricos atuais e do passado, que foram incorporadas na ficção. Elas destacam o domínio de uma força tirânica sobre os sobreviventes, abordando temas como a guerra, opressão e consequências de situações passadas.
O jogo, desenvolvido pela 4A Games e escrito em colaboração com Dmitry Glukhovsky, o autor dos livros que inspiraram os games, traz de volta o motor 4A Engine aprimorado, com realismo ao entregar armas que falham, ambientes feitos à mão e pouca interface para maior imersão.
O que chama atenção é como o trailer conecta a ficção a medos reais e históricos da Rússia, vividos de forma intensa durante a Guerra Patriótica, nome dado pela União Soviética e ainda utilizados pelos russos para se referirem à Segunda Guerra Mundial, em especial ao conflito que travaram contra a Alemanha Nazista, que durou desde a invasão alemã em 1941 e terminou com a destruição de Berlim em 1945.
Paralelos com os temores soviéticos da Guerra Patriótica

O áudio no começo do vídeo é dominado por um discurso nacionalista e autoritário que apela à criação de uma “nação pura” e a um “futuro brilhante” sob a orientação de um “grande líder”. O trailer utiliza o contraste entre a violência da guerra e a inocência infantil, focando-se num desenho de uma casa e de uma família que aparece repetidamente, muitas vezes ensanguentado ou em chamas.
Tais situações lembram, de forma direta, os maiores temores soviéticos em meio ao conflito com os nazistas.
Durante a Guerra Patriótica, os soviéticos viveram o pavor constante de ver Moscou destruída. As tropas alemãs avançaram até os arredores da capital na Operação Barbarossa, em 1941, e a Batalha de Moscou representou um momento de resistência desesperada.

Aliados através do Pacto Molotov-Ribbentrop, nazistas e soviéticos chegaram a colaborar no inicio do conflito, dividindo a Polônia no meio, após a invasão de 1939, e trazendo pactos secretos para manter ambas as nações em paz. Mas, na verdade, ambas as nações apenas ganhariam tempo antes de um conflito iminente: nazistas poderiam se concentrar apenas na França e Reino Unido, sem abrirem uma segunda linha de combate, e soviéticos poderiam ganhar tempo para fortalecerem suas defesas.
Após Hitler rasgar o tratado e invadir a União Soviética, junto com italianos, romenos e húngaros, além dos finlandeses que aproveitaram para tentar retomar território perdido poucos anos antes, a propaganda soviética enfatizava o risco de uma força externa — os nazistas — tomar o controle da população, impondo um regime de terror, execuções e exploração.
Os alemães, sob a liderança e os ideais de Hitler. viam a invasão como uma guerra de extermínio, com ordens explícitas para não poupar civis, resultando em cerca de 27 milhões de soviéticos mortos. Os nazistas tinham como objetivo exterminar a população eslava, repovoar com alemães arianos e expandir o reich para o que era chamado de “espaço vital”, o Lebensraum.

Como o território da Rússia não tem defesas naturais, como em outros países, a invasão nazista foi avassaladora no começo, a ponto de estarem a menos de 30km da capital Moscou, mas sendo forcados a recuarem após uma contraofensiva soviética feroz. Pelo teor do conflito, foi um combate sangrento e brutal, com batalhas como Stalingrado sendo sempre referências de como seria o Inferno na Terra.
Outro elemento presente no trailer e na série é o sequestro e a doutrinação de crianças. Na ficção de Metro 2033, o romance original de Dmitry Glukhovsky, a facção Quarto Reich, inspirada nos ideais nazistas e que querem seguir os passos do “Terceiro Reich” de Hitler, persegue mutantes e não-eslavos com rigor, enquanto o culto do Grande Verme sequestra crianças de estações como Kievskaya para convertê-las em seguidores fanáticos, usando hipnose e hierarquia para manter o controle.
Esses detalhes espelham medos soviéticos reais: os nazistas praticavam a germanização de crianças em territórios ocupados, separando-as das famílias para criá-las como alemãs, além de usar a Juventude Hitlerista para doutrinação em massa, primeiro na Alemanha e depois em suas zonas de influência. A propaganda soviética denunciava essas práticas como parte da máquina de guerra nazista, reforçando a ideia de que perder a guerra significaria o fim da identidade de todo um povo.
A Geografia Russa e a necessidade de defesas políticas

O trailer reforça esses temores ao reforçar Moscou e seus túneis como o último refúgio em um mundo arrasado. Isso dialoga diretamente com a geografia da Rússia europeia, cujas fronteiras ocidentais são formadas pela Planície Europeia do Norte, uma vasta extensão plana sem barreiras naturais como montanhas ou oceanos.
Ao longo da história, essa característica facilitou invasões inimigas: primeiro foi Napoleão em 1812 e depois Hitler em 1941. Ambos avançaram com rapidez por territórios como Polônia, Bielorrússia e Ucrânia. Os russos tiveram de lidar com estas invasões com lutas ferozes e a tática de terra arrasada, destruindo cidades e suprimentos para deixar os inimigos sem nada em meio ao forte inverno que tem por lá.
Assim, após a vitória na Guerra Patriótica, a União Soviética criou a Cortina de Ferro e o bloco do Leste Europeu exatamente para formar um tampão artificial e político contra novas ameaças do Ocidente. Hungria, Polônia e outras nações do Leste Europeu, incluindo metade da Alemanha e metade de Berlim, fizeram parte desta cortina, que só foi derrubada com o fim da URSS.

Hoje, o mesmo raciocínio aparece nas ações russas de buscar influência na região, mantendo a Bielorrússia como aliada estratégica e invadindo a Ucrânia em 2022, vista por Moscou como forma de impedir o avanço da OTAN para mais perto de suas fronteiras, já que a aliança atualmente divide fronteira com seu território.
Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Finlândia e Noruega são as seis nações que dividem fronteira com a Rússia e estão presentes na OTAN. A Ucrânia seria a sétima, que para os russos, representaria algo ainda mais profundo, visto que os dois povos compartilham raízes históricas, étnicas e culturais profundas, embora tenham criado diferenças entre eles com o passar dos anos.
O trailer de Metro 2039 não menciona esses eventos diretamente, mas o ambiente de tirania e guerra reflete esses ciclos de medo e prevenção.
Conexão com o conflito da Rússia contra a Ucrânia e seu impacto no desenvolvimento

Outro ponto bem interessante a entender neste game envolve os momentos atuais da história russa e ucraniana: embora Dmitry Glukhovsky, autor russo dos livros, tenha colaborado na história, o jogo é feito pela 4A Games, estúdio sediado na Ucrânia. O conflito iniciado em 2022 mudou a vida da equipe, com famílias afetadas e o desenvolvimento influenciado pelos acontecimentos reais.
S.T.A.L.K.E.R. 2, outro jogo ucraniano, também foi feito em meio ao conflito, o que reforça a iniciativa dos produtores ucranianos a criticarem em seus games a invasão russa. No mundo dos games os conflitos também aconteceram, com os ucranianos acusando Atomic Heart, jogo russo, de coletar dados de jogadores e enviar para o governo de seu país.
A 4A Games deixou claro que a narrativa foi reescrita para incorporar este contexto, envolvendo guerra e tirania de forma mais profunda, e o trailer se apresenta como “orgulhosamente feito na Ucrânia”. Glukhovsky, que vive no exílio e criticou publicamente a invasão russa, já foi condenado a oito anos de prisão por declarações contra a guerra.

Isso cria uma camada extra de contexto: um autor russo crítico a invasão de seu país e um estúdio ucraniano trabalhando juntos em uma história sobre sobrevivência, com críticas ao atual governo russo, usando o metrô de Moscou como plano de fundo para a sua ficção.
Assim, os fãs já especulam se o Quarto Reich do jogo será, além de referência direta aos nazistas e o que fizeram na União Soviética, também um grupo que servirá para receber as críticas, conforme o ponto de vista de seus criadores, sobre a forma com que a Rússia tem guiado a sua política nos últimos anos. Usando do argumento da hipocrisia, acusando-os de fazer o mesmo mal que sofreram no passado.
A mensagem do começo do vídeo, apesar de ser facilmente conectada com os terrores de dominação nazista, também podem ser interpretados como a propaganda estatal russa contemporânea que utiliza termos como “desnazificação” e “limpeza” ideológica para justificar a invasão em solo ucraniano.
Já as crianças doutrinadas, que não era interesse nazista na época, em sua política de extermínio, pode ser uma crítica atual ainda mais severa: a crescente militarização das escolas na Rússia e a criação de movimentos juvenis patrióticos (como o Yunarmia), onde o discurso contra o “inimigo externo” (Ocidente/Ucrânia) é incutido desde cedo.

O contraste da Catedral de São Basílio em sua beleza arquitetônica e sua completa destruição pode ser uma alegoria à cidades como Mariupol, que viveu a batalha mais sangrenta até o momento do conflito, e foi reduzido às cinzas, com números que divergem, por motivos de propaganda de guerra de ambos os países: ucranianos reclamam a morte de 21 mil civis e 6 mil soldados russos mortos; enquanto os russos afirmam que 4 mil ucranianos morreram em ação.
Dmitry Glukhovsky escreveu Metro 2033 como uma advertência contra o fascismo e o comunismo radical. Com Metro 2039, a sensação é de que a ficção “perdeu a corrida” para a realidade, transformando o jogo em um comentário sombrio sobre o estado atual da sociedade russa e os horrores da guerra moderna.
Mas o foco permanece na ficção, com um mundo onde a humanidade luta contra mutantes, fome e opressão ideológica.
Medos antigos e críticas atuais para evitar medos futuros

Metro 2039, como jogo, mostrou não querer reinventar a roda na série, mantendo o bom e velho survival FPS clássico, com armas realistas, mutantes familiares e ambientes que contam histórias por si só. Mas o trailer mostra que a narrativa ganha peso extra ao ligar o pós-apocalipse nuclear aos medos soviéticos da Guerra Patriótica e aos desafios geopolíticos de hoje, que tem a Rússia como um dos grandes e ativos atores do momento, seja em seu conflito na Ucrânia, seja com sua influência em relação com seus aliados.
Para quem leu os livros ou jogou os títulos anteriores, fica claro como o Quarto Reich e o culto do Grande Verme servem de espelho para totalitarismos reais, sejam eles da orientação política que embasam seus ideais.
O resultado é um jogo que convida a refletir sobre como a história se repete, indo da planície aberta que convida invasores à necessidade de buffers defensivos, passando pelo trauma de crianças roubadas e doutrinadas. Se você acompanha a série ou se interessa por ficção que dialoga com a realidade, Metro 2039 promete ser uma das experiências mais densas do ano. O lançamento está marcado para o fim de 2026, e vale ficar de olho nas próximas atualizações.
Fontes consultadas:
- Dmitry Glukhovsky on exile, censorship and the dystopia of modern Russia: https://www.reuters.com/lifestyle/culture-current/dmitry-glukhovsky-exile-censorship-dystopia-modern-russia-2025-11-27/
- Metro 2039 reveal trailer is a grimly defiant response to the Russia-Ukraine war: https://metro.co.uk/2026/04/16/metro-2039-reveal-trailer-a-grimly-defiant-response-russia-ukraine-war-28001974/
- The Russian myth of the Great Patriotic War and its manipulations: https://www.lemonde.fr/en/international/article/2022/05/03/the-russian-myth-of-the-great-patriotic-war-and-its-manipulations_5982273_4.html
- The People’s War: A Chronological Look at the Great Patriotic War Through the Lens of Soviet Propaganda: https://scholarcommons.scu.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1186&context=historical-perspectives
- PACTO GERMANO-SOVIÉTICO: https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/german-soviet-pact
- Operation Barbarossa And Germany’s Failure In The Soviet Union: https://www.iwm.org.uk/history/second-world-war/operation-barbarossa-and-germanys-failure-in-the-soviet-union
- Kidnapping of children by Nazi Germany: https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/hitler-youth-2
- Iron Curtain: https://www.britannica.com/event/Iron-Curtain
- The Ukraine war’s deep impact on Metro 2039’s development, story: https://arstechnica.com/gaming/2026/04/making-games-in-a-war-zone-metro-2039s-ukrainian-developers-speak-out/
- Ukraine: New Findings on Russia’s Devastation of Mariupol: https://www.hrw.org/news/2024/02/08/ukraine-new-findings-russias-devastation-mariupol
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