Análise Arkade: Atomfall, um ótimo immersive sim cheio de conspirações e mistérios

Prepare-se para sair do seu bunker e explorar um mundo (mais ou menos) pós-apocalíptico em Atomfall, novo jogo dos produtores de Sniper Elite que mistura immersive sim, sobrevivência e RPG.
O contexto histórico de Atomfall
Antes de falarmos do jogo em si, um pouco de contexto. Talvez a parte mais fascinante de Atomfall é que ele foi desenvolvido com base em um acontecimento do mundo real: o incêndio em um reator nuclear de Windscale, que ocorreu em 1957 no norte da Inglaterra e liberou isótopos radiativos (iodo-131 e polônio-210, entre outros) que se espalharam por boa parte da Europa.
Centenas de casos de câncer na região podem ser diretamente relacionados ao incidente. Além disso, toda a produção de leite num raio de 520 km² foi continuamente destruída e descartada por várias semanas. As cidades e vilarejos próximos, porém, nunca foram oficialmente evacuados.

Curiosamente, muito deste caso foi abafado pelo governo, uma vez que a situação poderia comprometer as boas relações (nucleares) entre a Inglaterra e os EUA nos pós-Guerra. O primeiro-ministro Harold Macmillan censurou os dados oficiais, que passaram décadas escondidos da opinião pública. Foi somente em 1988 (mais de 30 anos depois) que o relatório oficial foi divulgado na íntegra.
Agora sim: Atomfall e suas conspirações
Esta aura de mistério em torno do desastre de Windscale é o pano de fundo de Atomfall. Usando a história real como ponto de partida para criar sua narrativa, a Rebellion injetou boas doses de ficção científica e teorias da conspiração para criar a zona de quarentena fictícia onde se passa a trama do game.

Nosso protagonista acorda em um bunker, sem lembranças de como foi parar lá. Após um encontro com um cientista moribundo, conseguimos a chave para sair do bunker e explorar os arredores do desastre. Mesmo 5 anos após o incêndio, a gigantesca pluma radiativa que emana dos restos da usina ainda é o maior ponto de referência da região.
A zona de quarentena é, no mínimo, inóspita, e nem é só pela radiação. Entre colinas verdejantes, vales e vilarejos rurais, há diferentes tipos de pessoas lutando para sobreviver: foras-da-lei armados querendo confusão, cultistas malucos habitando ruínas e uma forte presença militar que “pacifica” boa parte da região (e talvez esconde algo?) são apenas alguns dos perigos que nos aguardam. Isso para não mencionar a fauna e a flora que, contaminadas pela radiação, podem ser bem perigosas.

Ainda que nossa missão inicialmente seja dar um jeito de sair deste ambiente nada hospitaleiro, a própria mística do lugar e o clima de conspiração quase tangível vão nos fazendo querer ficar, investigar, xeretar. O que realmente aconteceu em Windscale? Quem foi o responsável? De quem é a voz misteriosa que nos telefona para fornecer pistas questionáveis de tempos em tempos?
Atomfall e a curiosidade do jogador
Todos estes mistérios são o que realmente impele o jogador a sair pelo mundo e explorar. Atomfall tem elementos de sobrevivência e sandbox, mas é, em grande parte um immersive sim. Você sabe, aquele tipo de jogo que não dá direcionamentos muito claros, nem enche seu mapa de pontos de interesse. O game quer que você seja impelido pela curiosidade, encontrando pistas e ligando pontos.

Quão imersivo ele vai ser é algo que pode ser customizado pelo jogador, mas é legal obter informações simplesmente conversando com as pessoas ou encontrando cartas, bilhetes e anotações pelo mundo do jogo. Um NPC vai te falar de um comerciante que tem algo útil, um soldado pode comentar sobre um comboio que foi interceptado e destruído… quase toda informação vira uma pista que você pode seguir.
A forma com que você interage com o mundo também conta: em praticamente toda conversa, temos diferentes opções do que dizer. A forma com que vamos conduzir o diálogo pode nos dar informações valiosas, bem como fazer um personagem gostar (ou não) de nós.

Para não dizer que a imersão é completa, eu gostaria muito que nem todo conflito precisasse ser resolvido na violência. Ao encontrar alguns foras-da-lei, por exemplo, seria legal poder barganhar, se virar na lábia. Mas, a não ser que você fuja ou evite o confronto direto, diplomacia nunca é uma opção.
O caso do padre
Vou deixar um exemplo da minha partida: bem no comecinho do jogo, encontrei um padre em uma cena de crime. Ele parecia nervoso, não queria que eu fizesse alarde, mas acreditava que eu faria “a coisa certa”. Tentei descobrir mais coisas, extrair mais informações, mas ele realmente parecia disposto a encobrir o crime.

Acabei denunciado o padre aos militares. Isso me pareceu “a coisa certa”… e, confesso, também queria fazer uma moral com o “xerife”, pois esta aliança me parecia mais vantajosa, dadas as circunstâncias (uma zona de quarentena pós-nuclear comandada por militares).
Porém, ao tomar esta decisão, não criei um bom relacionamento com o padre — na verdade, esta peça foi retirada do tabuleiro. Com isso, não obtive a chave da porta misteriosa que fica no “porão esquecido” da igreja. E quase todo documento ou informação relacionada ao crime (e ao padre) que eu encontrava virava um beco sem saída. O que mais eu perdi ao denunciar o padre? Sinceramente, não faço ideia — e isso é muito legal.

Atomfall tem uma história para ser contada, mas é você quem vai juntando as peças — encontrando umas e perdendo outras. É um jogo focado nas narrativas emergentes que cada jogador cria enquanto joga. E tudo isso é movido pela sua curiosidade e sua vontade de explorar e xeretar cada cantinho do mapa.
Tá, mas e o gameplay?
Não tem muito segredo: Atomfall é um jogo de ação e exploração em primeira pessoa, com muita coleta de recursos, uma pitada de stealth e uma boa dose de combate. Armas de fogo são raras (e velhas) e a munição é escassa — mas, felizmente, há uma grande variedade de armas brancas. Não há barra de stamina, mas seu coração pode ficar muito acelerado por conta de esforços físicos intensos, o que afeta sua mira e seu desempenho em combate.

O ato de “jogar” Atomfall não é muito diferente de outros jogos de ação e exploração em primeira pessoa, como um Deathloop. Porém, o lado mais immersive sim dele é o que dá um tempero especial à experiência. Por exemplo, aqui não subimos de nível nem temos skill tree — mas encontramos livros e manuais de sobrevivência que nos ensinam novas habilidades.
Outra coisa interessante: na zona de quarentena, o dinheiro não tem valor; tudo é na base do escambo (troca). Oferecemos um recurso/item em troca de outro, e a interface usa uma balança para ilustrar se a negociação é justa para ambos ou não.

O mapa tem o tamanho ideal: nem muito grande, nem muito pequeno, o que torna a exploração muito mais dinâmica. Esgotos e antigas minas desativadas criam atalhos entre diferentes áreas, e sempre há algo novo para se descobrir. Só tome cuidado com as armadilhas — elas estão por todos os cantos!
Audiovisual
Rodando na mesma Asura Engine da série Sniper Elite, Atomfall é um jogo muito bem resolvido visualmente. Sua mistura de realismo com ficção cria uma atmosfera muito interessante, enriquecida pela própria direção de arte do jogo.

Como estamos em um ambiente retrofuturista, é “normal” vermos mechas dieselpunk patrulhando as ruas de uma cidadezinha, bem como outras peculiaridades um tanto anacrônicas. A Rebellion conseguiu criar uma zona de quarentena que é indiscutivelmente bela, mas que possui uma estranheza latente.
Para manter a imersão em alta, a trilha sonora é quase inexistente, o que nos permite manter os ouvidos atentos nos arredores. A ambientação sonora do jogo é muito poderosa, e o bom trabalho de dublagens contribui com a proposta. Os menus e legendas estão 100% localizados para o português brasileiro, e o trabalho de localização é competente.

Experimentei o jogo no PS5, e seu desempenho foi satisfatório, com direito a uma utilização particularmente inspirada da vibração do Dualsense com o detector de metais (uma ferramenta bem útil no jogo, inclusive).
Minha única picuinha com Atomfall é a mesma que mencionei na minha análise de Sniper Elite Resistance: por ser um título que ainda sai para os consoles da geração, ele acaba não alcançando seu verdadeiro potencial, pois precisa rodar em máquinas lançadas há 12 anos. Não quero soar babaca e elitista, mas quase todo estúdio grande já deixou o PS4 e o Xbox One para trás. Passou da hora da Rebellion fazer o mesmo.
Conclusão
Atomfall entrega uma experiência extremamente imersiva, capaz de conquistar o jogador pelo tom de mistério e conspiração que permeia o jogo desde os primeiros minutos de sua campanha.
Dito isso, a abordagem menos guiada e linear pode não agradar a todos. Ele é um jogo em primeira pessoa, mas não é um FPS… nem um jogo puramente de sobrevivência. Logo, muito do seu engajamento com o jogo vai depender da sua própria curiosidade, da sua vontade de explorar e descobrir mais.

Atomfall não vai te pegar pela mão: vai te soltar no mundo para você jogar do seu jeito, no seu tempo. Se esta ideia lhe agrada — e você curte a mistura de realidade e ficção que estão no cerne criativo do jogo — pode vir sem medo, pois a zona de quarentena de Windscale é tão fascinante quanto perigosa.
Atomfall será lançado amanhã (27/03), com versões para PC, Playstation 5 (versão analisada), Playstation 4, Xbox Series e Xbox One. Vale ressaltar que o jogo terá lançamento simultâneo no Game Pass.